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Casamento e sociedade Livros
Mamãezinhas nada queridas
Os novos personagens da literatura
para mulheres
são as mães que reproduzem no
parquinho infantil
a agressividade do ambiente de trabalho

Débora
Chaves
Negreiros
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"No início, eram
os livros de Simone de Beauvoir e de Betty Friedan, relatos das transformações
femininas no pós-guerra, cujo ápice foram os anos 1960. Página
virada, as mulheres já não precisavam defender teses. Depois,
já nos anos 1990, com espaço e liberdade razoavelmente conquistados,
nasceu a chamada literatura para "mulherzinhas". O campeão
dessa turma, ícone de uma geração, é O Diário
de Bridget Jones, de Helen Fielding (mais de 10 milhões de exemplares
vendidos em todo o mundo), lançado em 1998 e que depois virou filme
de sucesso. Bridget tem 32 anos e 1 milhão de dúvidas.
Agora
é a vez de uma nova modalidade a literatura de mamãezinha,
ou "mom lit", na expressão em inglês. Na forma de romances
quase nunca de ensaios ou relatos autobiográficos , ela desenha
o cotidiano das mães em tempo integral que se torturam com autoanálises
impiedosas e muito engraçadas em torno da maternidade em tempos modernos.
Elas precisam cuidar dos bebês e do marido, mas também do emprego.
Têm de ser divertidas, sensuais, bem-sucedidas e estar na moda. Mas atenção:
nada a ver com aqueles manuais de autoajuda repletos de informações
(muitas delas inúteis) para mães à beira de um ataque de
nervos. Nada a ver, também, com a Supermãe criada por Ziraldo nas
páginas da revista CLAUDIA nos anos 1970, sempre zelosa com o filho
já adulto.
Os relatos são de mulheres urbanas
que reproduzem no parquinho e na porta da pré-escola o comportamento
competitivo e agressivo do ambiente de trabalho que abandonaram, ainda que temporariamente,
para poder tomar conta dos filhos pequenos. Essas mulheres em geral ostentam diplomas
das melhores universidades e experiências profissionais em empresas de primeira
linha, e não hesitam em promover uma verdadeira guerra de vaidades (e grifes)
na tentativa de provar sua competência na criação dos filhos.
São as típicas "mães-enxaqueca"
como descreve a americana Jill Kargman em Momzillas, livro recém-lançado
pela Editora Planeta no Brasil com o título Mães em Guerra , sempre dando lições de moral a respeito da importância
de amamentar no mínimo por um ano, de ter parto normal e plantar a placenta,
mas que, nos bastidores, optam por marcar a cesariana com antecedência
para evitar o inchaço da reta final e, é claro, a possibilidade
de perder a elasticidade da musculatura vaginal.
As momzillas
mais radicais chegam a competir com as outras mães pela classificação
que seu bebê alcançou no teste de Apgar, na curva de crescimento,
no peso, na circunferência da cabeça, enfim... em qualquer medida
ou avaliação que demonstre algum tipo de superioridade. Daí
os desfiles de grifes: Baby Dior ou Ralph Lauren para as crianças e Prada
ou Manolo Blahnik para elas ah!, sim, e o carrinho Bugaboo (o Rolls-Royce
dos carrinhos de bebê).
Mas a fauna é maior e
mais exótica do que imaginamos. Existem também as mães-desastre
descritas por Fiona Neill em Slummy Mummy A Vida Secreta de uma Mãe
Caótica, título que a Editora Record pretende lançar
até o fim do ano. Essas estão sempre enroladas com o dia a dia das
crianças e se sentem culpadas por não conseguir se equiparar às
mães-modelo que veem na porta das escolas. Há ainda as mães
transgressoras retratadas por Amy Sohn em Prospect Park West, da Editora
Rocco, ainda sem tradução para o português e também
previsto para chegar às livrarias no fim do segundo semestre. Nesse caso,
elas lutam contra o tédio do cotidiano infantil e não hesitam em
se masturbar enquanto o bebê tira uma soneca.
Como
em um consultório sentimental em que amigas trocam confidências,
a regra dos livros estilo "mom lit" é abrir o coração.
Nada de idealizações ou filtros cor-de-rosa a respeito da maternidade.
Pelas regras da "literatura mãezinha", é preciso revelar
o que cada uma está de fato sentindo e, se for o caso, admitir que
a maternidade nem sempre é a maravilha que contam por aí. Ao fazerem
isso, as autoras acabam criando um vínculo poderoso com suas leitoras,
que, entediadas com a rotina tatibitate, precisam que alguém lhes garanta
que, sim, é possível ter uma vida sexual ativa e outros interesses
depois que o bebê nasce.
Os textos do gênero mulherzinha
caíram no gosto das brasileiras as obras para mamãezinhas
guerreiras ainda são uma hipótese de boas vendas, embora se aposte
no interesse colado ao fenômeno nascido nos Estados Unidos, como tantos
outros que vieram de lá e aqui vicejaram. Mas convém ir rápido,
porque são modismos passageiros, embora interessantes. Em 2002, as publicitárias
mineiras Juliana Sampaio e Laura Guimarães lançaram um blog sobre
as atribulações das mães modernas que virou livro e,
depois, minissérie, o Mothern. Blog e programa de televisão estão
desativados, o livro agora vende muito pouco. Para Laura, houve envelhecimento
precoce do assunto. "Tinha 32 anos quando escrevi aqueles textos, e
naquela época eu e a Ju estávamos mais preocupadas em conciliar
a vida social e noturna com o dia a dia das crianças", diz. "Por
isso o livro tem muito a ver com criança pequena." Agora que suas
duas filhas já estão até voltando sozinhas da escola, é
preciso reinventar a roda, e com velocidade. Outras mães vêm por
aí, com novos problemas, acelerando seu Bugaboo para mostrar que a maternidade
não é obstáculo é condição muito
especial do século XXI.
Para virar personagem desses
romances, é preciso...
Andrea Graiz/Ag. RBS
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...ter
um carrinho Bugaboo (1),
o Rolls-Royce dos bebês
...manter
o corpo sarado com pilates (Gisele Bündchen conseguiu em
seis semanas, uau!)
...vestir os filhos com Ralph
Lauren ou Baby Dior (2)
...vestir-se com Prada ou
calçar Manolo Blahnik (3)
...pôr os filhos numa escola
de idiomas aos 3 anos, porque o aprendizado de uma língua estrangeira logo
cedo "facilita o desenvolvimento da pronúncia natural" |
Fotos divulgação e Bloomberg/Getty Images
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