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Ideia
Gritos que fizeram história
Sem medo de
parecerem ridículas, as mulheres
tomaram a palavra
e puseram a igualdade
entre os sexos na agenda do poder

Marta
Góes
Dan
Farrel/NY Daily News Archive Via Getty Images
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Paul!
John! George! Ringo!
Fenômenos como os Beatles
só explodiram porque garotas capazes de arrancar os cabelos de entusiasmo,
sem medo do que os outros iriam pensar, lotaram auditórios e estádios |
Num passado não muito remoto, quando uma
mulher tinha profissão ou emprego, dizia-se que trabalhava fora. O trabalho
dos homens dispensava explicação só podia mesmo ser
fora. Essa diferença nem tão sutil traduz à perfeição
o velho modelo da existência feminina: a casa era a regra, o mundo a exceção
e a atividade doméstica, leve ou pesada, não era reconhecida como
ocupação. Agora que a mulher representa metade da mão de
obra do mundo ocidental (no Brasil, 42,4%), e que a avalanche de informação
por vezes obstrui a visão do caminho percorrido, é bom lembrar expressões
que envelheceram e saíram de cartaz, ou que entraram em cena, rompendo
silêncios seculares. Elas nos devolvem imediatamente a consciência
do avanço.
"Pai ou responsável", lia-se,
sob a linha destinada à assinatura, abaixo das notas, nas cadernetas escolares
que as crianças levavam para casa todo mês. Se o pai não estivesse,
ou não pudesse assinar, o.k., a assinatura da mãe servia. Até
a Constituição de 1988 e a reforma do Código Civil, em 2002,
a estrutura familiar era uma escadinha cujo degrau mais alto era ocupado pelo
marido. Entre outros direitos, ele podia anular o casamento se a noiva não
fosse virgem e deserdar a filha se ela não fosse "honesta". Hoje,
ao menos teoricamente, marido e mulher figuram lado a lado (cerca de 35% das famílias
são chefiadas por uma mulher).Já não se fala em pátrio
poder, porque ele não existe mais. Foi substituído pela autoridade
familiar. Já era tempo.
O sexo feminino, no sentido
anatômico do termo, só tinha existência legítima na
lousa, desenhado pelo professor de biologia, e se chamava "aparelho reprodutor
feminino". O resto era silêncio. Em nome do recato, no começo
dos anos 1960 ainda não se falava "menstruação",
e sim "aqueles dias", e os anúncios dos primeiros absorventes
higiênicos descartáveis eram tão discretos que hoje soam
misteriosos para consumidoras habituadas ao explícito. O corpo da
mulher era um tema secreto: a palavra clitóris, pensavam os mais bem
informados, era proparoxítona e palavrão.
Direitos
da mulher eram assunto espinhoso. Ao estrear, em 1963, na revista CLAUDIA, a coluna
A Arte de Ser Mulher, em que defendeu a pílula, o divórcio e a inserção
no mercado de trabalho, a jornalista e psicóloga Carmen da Silva foi ameaçada
por maridos furiosos. Quase dez anos depois de a edição de REALIDADE
ter sido recolhida das bancas, em 1967, por estampar a fotografia de um parto
e a informação de que uma em cada quatro brasileiras já provocara
um aborto, um número do jornal Movimento que não trazia uma
palavra sobre sexo (nem sobre política) foi proibido na íntegra
seu tema, mulher e trabalho, foi considerado provocador.
Mas tudo isso ficou para trás. Tensão pré-menstrual, quem
diria, virou nome de revista; vagina foi parar no título de uma peça
de teatro, por sinal, comédia (Os Monólogos da Vagina); e,
duas décadas depois de o quadro "Comportamento sexual" ter sido
tirado do ar porque a sexóloga Marta Suplicy falava sobre orgasmo, uma
senhora de aparência
austera, a enfermeira Sue Johanson, exibe
na televisão vibradores fosforescentes e piercings genitais. Provoca,
no máximo, espanto.
Entre o silêncio do passado
e a nova polifonia, entre as esposas obedientes, a legião de executivas
e uma eleição com duas candidatas à Presidência da
República, existe um histórico de rubores, proibições
e censuras e uma longa batalha. A chegada da mulher ao mercado de trabalho
e o impacto cultural desse acontecimento são saudados como a maior transformação
social desde a Revolução Francesa, mas por vezes são apresentados
como o bônus acidental de uma evolução da economia. A passagem
para a era pós-industrial e a decorrente necessidade da mão de obra
feminina, adequada à era dos serviços, seriam o grande catalisador
do novo lugar da mulher. "O livro-marco da ascensão do feminismo não
é A Mística Feminina, de Betty Friedan, mas O Advento
da Sociedade Pós-Industrial, de Daniel Bell", anotou a revista Economist, no ano passado. A economia foi uma poderosa alavanca, mas, a
depender apenas dela, as mulheres nem sequer votariam e as novas profissionais
entenderiam mais de bainha aberta do que de articulações em rede.
Não é que as portas se tenham aberto de par em par. Foi preciso
forçar a passagem, e o feminismo é que deu o primeiro passo.
Betman/Corbis/Latinstock
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Betty,
a feia
Boa parte da humanidade metade,
no
mínimo precisa até hoje de mulheres como
a
escritora Betty Friedan (1921-2006),
sempre mencionada pela aparência |
Pela
maneira como é descrito hoje, o feminismo parece um movimento longínquo,
personificado por radicais que queimavam sutiãs e combatiam, além
dos homens, irrelevâncias como o batom e a depilação. Na realidade,
trata-se de uma ação continuada, competente e internacional, que
soube pôr no coração do poder questões cotidianas e
urgentes para milhares de indivíduos que permaneceriam invisíveis
sem essa pressão. Cada conferência da ONU para as questões
de gênero no México, em Nairóbi, em Pequim...
correspondeu a novas ações governamentais para reduzir a desigualdade.
Em
1982, o jornal Mulherio, patrocinado pela Fundação Ford,
dava conta da existência de noventa grupos de mulheres no Brasil. Eles utilizavam
a experiência e, eventualmente, os recursos de fundações,
universidades e organismos internacionais. Sua missão ia desde socorrer
vítimas de violência doméstica até prestar atendimento
médico, informar sobre métodos contraceptivos, oferecer assistência
jurídica e melhorar a autoestima. A mobilização, expressa
em slogans como "quem ama não mata", foi fundamental para, entre
outros benefícios, impedir a impunidade em crimes contra mulheres. No Brasil,
quando se delineou a perspectiva de uma nova Constituinte, o movimento feminista
já era forte e articulado o bastante para pôr a igualdade na letra
da lei. Outro slogan cunhado à época "os direitos da
mulher são direitos humanos" revela que uma verdade aparentemente
óbvia pode levar séculos para ser reconhecida.
Hoje, quem se diverte ao ver esmiuçados com graça os temas "de
menina", em programas como Saia Justa ou a série americana Sex and the City, nem imagina como isso já foi perigoso. O mundo
estava sempre pronto a classificar como ridículo tudo o que fosse exclusivo
das mulheres, e o medo desse rótulo levava muitas delas a proclamar um
sonoro horror a "mulherzinhas" Camille Paglia foi implacável
com elas e a feministas. "O melhor movimento feminino ainda é
o dos quadris", ironizou Millôr Fernandes. Por alguma razão,
entretanto alguns vão falar em genética, outros em cultura
, a maioria não teve medo de ser chamada de ridícula.
O
escritor Paulo Coelho foi o primeiro a manifestar admiração por
essa capacidade. Acusado, num de seus muitos debates com a crítica literária,
ainda na década de 90, de só ter se tornado um campeão de
vendas graças à preferência do público feminino, aí
entendido como consumidor de bobagens, ele celebrou. Se não fosse a liberdade
das mulheres de gostar daquilo que o establishment desaprova, não haveria
cultura pop, argumentou Coelho. Fenômenos como Elvis Presley, os Beatles
e a Jovem Guarda só explodiram porque garotas capazes de gritar e arrancar
os cabelos de entusiasmo, sem medo do que os outros iriam pensar, lotaram auditórios e estádios.
O machismo não
costuma ser gentil com quem ousa desafiá-lo. Autora do livro A Mística
Feminina, cuja edição de bolso, lançada em 1964, vendeu
1,3 milhão de exemplares na primeira impressão, a escritora
Betty Friedan (1921-2006) era mencionada sempre pela aparência física.
Era feia. Um episódio de sua visita para lançar a edição
brasileira de sua obra, em 1971, deu origem a uma brincadeira repetida até
hoje por jornalistas da velha guarda. Um grupo esperava o elevador em um edifício
de São Paulo quando as portas se abriram. Havia dois passageiros: o presidente
da empresa e a escritora, que fora convidada para um almoço no restaurante
da diretoria, no último andar. Quando as portas se fecharam e os sorrisos
murcharam, um jornalista perguntou: "Essa é a americana que quer
liberar as outras?". Diante da confirmação, tascou: "Por
mim, está liberada". Boa parte da humanidade,contudo
metade, no mínimo , precisa até hoje de mulheres como
ela.
Até que Simone de Beauvoir desfizesse o mito
do destino biológico, a maternidade constituía um dever inescapável,
e não uma escolha. Para a autora de O Segundo Sexo, gravidez, aleitamento
e criação dos filhos eram o motivo da dominação da
mulher pelo homem. Feministas de outras gerações foram além,
ao mostrar que a dominação é que tornava a maternidade
um grilhão, e não o contrário. Novas técnicas
conceptivas e contraceptivas reforçaram o direito da mulher à
escolha, e sexo separou-se de vez de reprodução. As mulheres
ainda querem filhos, mas já não passa pela cabeça de ninguém
ser apenas mãe.
Faz pouco tempo que as donas de casa
deixaram de aparecer nos formulários de pesquisas oficiais como "sem
ocupação". Só ficou evidente que lavar, cozinhar e,
sobretudo, cuidar das crianças eram questões de interesse coletivo
depois que o batalhão que trabalhava dentro de casa cruzou a porta da rua.
Uma das perguntas mais insistentes hoje é: "Quem vai cuidar das crianças?".
Outra é: "Quanto isso vai custar?". Pelo mundo afora, a missão
e a conta ainda estão sendo empurradas, feito batata quente, da mulher
para o marido, para a empresa e para o estado.
Lailson Santos
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Geisy,
a perseguida
Sinal dos tempos: além dos grupos
de mulheres com suas obrigatórias
manifestações de
protesto, toda a sociedade berrou contra o ataque
machista
à universitária |
As mulheres
das classes D e E as pobres, como se dizia no passado continuam
a trabalhar dentro e fora, como fizeram suas mães e avós. Entre
os raros benefícios conquistados nos últimos anos figuram a aplicação
das leis trabalhistas às empregadas domésticas e, em alguns lugares
do Brasil, como o estado e a cidade de São Paulo, Belo Horizonte e Recife,
a preferência pela mulher na titularidade de imóveis populares financiados
com recursos públicos. Programas assistenciais como o Bolsa Escola e o
Bolsa Família são registrados prioritariamente em nome da mãe,
reconhecida como o elemento mais estável no núcleo familiar. As
mulheres ganharam mais poder, mas continuam a lavar a roupa sozinhas. E, nas tristes
estatísticas do trabalho infantil doméstico, as meninas representam
a maioria das crianças privadas de infância.
Alguns
fantasmas são persistentes. O da feia aterroriza as jovens que não
têm o peso certo, o peito certo, a pele, os lábios, o nariz...
O da desonesta é tão ameaçador que até hoje vítimas
de assédio sexual podem se calar, por medo de ser acusadas de encorajá-lo.
Sobretudo se o assediador for um médico de prestígio.
Ainda falta muito para a igualdade, mas, vez por outra, algum acontecimento
novo dá notícias animadoras. No ano passado, quando Geisy Arruda,
a moça do vestido curto, foi perseguida dentro da faculdade em
que estudava por uma turba enfurecida e, depois de sair sob proteção
policial, expulsa, pareceu, inicialmente, que tudo continuava na mesma. Mas, dessa vez, além de grupos de mulheres com sua obrigatória manifestação
de protesto, todas as instituições da Secretaria da Mulher
ao Ministério da Educação, passando pela OAB e por
capas de revista e páginas de editoriais expressaram seu repúdio.
Ainda existe machismo, mas, pelo menos nessa escala, a sociedade tem anticorpos
para combatê-lo. E pensar que era apenas um movimento dos quadris...
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