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Trabalho e maternidade Perfil
Os
conselhos bacanas
de uma pioneira A
mãe valente tornou mais fácil a vida da
filha,
da neta e - quem sabe - da bisneta 
Ana Claudia Fonseca
Laílson Santos
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Silvia e Marilia (com a filha Maria Fernanda, no colo):
caminho aberto por Berta,
que ocupava o lugar do marido na chefia de uma
confecção de calças em São Paulo
e virou reportagem
da revista REALIDADE, em 1967 |
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"Uma
mulher está sentada na cadeira do diretor. Sobre a blusa rosa-choque usa
um medalhão preso a uma grossa corrente. Veste calça comprida cor de vinho, sapatos esporte marrons, de fivela, e está sem meias. (...)
Esta mulher é o diretor da fábrica. Já passou dos 40,
seus cabelos castanhos estão um pouco longos para a moda, o rosto
que ela mesmo define como "pouco fotogênico" muda
facilmente de uma expressão brincalhona para um leve vincar de testa
que significa atenção."
A personagem
do texto acima é Berta Schlesinger, dona de uma confecção
em São Paulo. Na edição de REALIDADE de janeiro de
1967, em texto do repórter Carlos Azevedo, ela foi apresentada como
exemplo de um novo tipo de mulher que começava a ocupar postos antes exclusivos dos homens. Berta faleceu em 1988, aos 66 anos. VEJA conversou com a filha e a neta da pioneira. O que mudou em quatro décadas? |
Uma mulher está sentada à mesa de um
café. Veste moletom rosa, jeans e tênis. Não usa bijuteria
e o único acessório é uma bolsa de couro marrom, jogada displicentemente
na cadeira ao lado. Essa mulher é Silvia Paula Schlesinger, filha da diretora
da fábrica. Já passou dos 50, seus longos cabelos castanhos estão
presos em um rabo de cavalo improvisado e o rosto sardento e tranquilo não
tem um traço de maquiagem. "Minha mãe era uma mulher incrível",
lembra Silvia, filha de Berta. "Administrar a fábrica não foi
fácil porque ela era praticamente semianalfabeta, nunca fez faculdade."
Durante os mais de trinta anos em que ficou à frente da empresa, que
levava seu nome, Berta trabalhou dez horas por dia. Não tinha horário,
não conseguia se desligar do escritório. O tempo para a família
era escasso. "Ela às vezes se arrependia por não conseguir
ser mãe em tempo integral", diz Silvia. "Eu e meu irmão
não sentíamos muito porque ela sempre nos cercou de gente competente:
babás, enfermeiras, professores. Mas foi uma vida estressante, sem
dúvida."
Silvia, que nasceu em 1952, diz nunca
ter pensado seguir o exemplo materno. "Até tentei trabalhar na Berta,
mas minha mãe já estava doente e quem cuidava do lugar era meu pai",
afirma. "Não era mais a mesma coisa." A fábrica de calças
compridas pediria falência pouco depois da morte de sua fundadora,
imigrante polonesa que, corajosamente, atraiu muito despeito e intriga por
se comportar no avesso de boa parte de suas contemporâneas.
Silvia
conta que a ousadia de sua mãe a inspirou a seguir seu próprio sonho:
a dança. Aos 18 anos, em 1970, ela foi detida em São Paulo por participar
de uma manifestação estudantil contra a ditadura. Passou um ano
presa. Libertada, foi enviada pela mãe para uma temporada na Europa "até
as coisas se acalmarem". Só voltaria com a anistia de 1979, depois
de estudar balé na Alemanha, Inglaterra e França. Silvia trabalhou
como coreógrafa e hoje é personal trainer, típica profissão
de nosso tempo. Tem uma vasta clientela, que inclui várias socialites
paulistas. O casamento de oito anos rendeu-lhe uma única filha, Marilia,
que hoje tem 36 anos e vive com a mãe.
Marilia
é socióloga de formação e trabalha como professora
em escolas particulares. Ela acabou de dar à luz sua primeira filha, Maria
Fernanda. Diz que lembra da avó como sendo uma mulher forte e ativa. "Infelizmente,
não convivi muito tempo com ela", conta. "Mas acho que minha
avó foi um exemplo e ajudou as mulheres a ir atrás do que queriam,
ocupando espaços antes vetados no mercado de trabalho." Silvia ouve
e, com a cabeça, indica concordar. Para ela, a lição mais
valiosa que Berta lhe deixou foi que é preciso se dedicar àquilo
em que se acredita e nunca depender de outra pessoa para ser feliz. "Foi
o que tentei passar para a minha filha, e o que espero que ela consiga passar
para a minha neta", diz.
Silvia e Marilia, filha e neta
de Berta, dificilmente chamariam atenção como figuras emblemáticas
de uma nova sociedade são comuns, mulheres aparentemente felizes
no que fazem, bem-sucedidas a seu modo, mas que jamais poderiam servir de bandeira,
de paradigma de um movimento da sociedade. Mas elas sabem que o caminho foi
pavimentado, há quatro décadas, por gente como "Dona Berta,
o diretor", na definição de REALIDADE. Silvia relê
com emoção um trecho da reportagem de 1967.
"Para
Silvia Paula, de 14 anos, desinibida, olhos vivos e um rostinho sardento
que se compõe muito bem com o cabelo liso, a mãe é uma amigona. Ela me dá cada conselho bacana! Mas tenho amigas
que têm até medo de que suas mães saibam dos conselhos que
ela me dá. Não chego a sentir falta de mamãe. Mesmo
na fábrica ela está perto da gente. Basta só telefonar.
E eu acho que deve ser muito chato uma mãe andando atrás da gente o dia inteiro pela casa.
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