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Desde a explosão do feminismo, o sexo na literatura
tem deixado de ser um espaço de rebeldia e afirmação
para os homens, que andam até mesmo tendendo
a um certo pudor


Sérgio Rodrigues

Ricardo Chaves
CRAVO E CANELA DE SOBRA
A Gabriela de Jorge Amado (ao lado, na pele de Sonia Braga, em 1983, no cinema) é o melhor exemplo "da perspectiva masculinista do corpo feminino", segundo a professora brasileira Cristina Ferreira-Pinto, que leciona nos Estados Unidos. Mas quem mesmo é a anti-Gabriela da literatura feminina? Não há

"Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos." O grito de guerra de uma personagem de Lygia Fagundes Telles no romance As Meninas, de 1973, ecoou em milhares de "quartos só delas" – aquilo que a escritora inglesa Virginia Woolf, em um célebre ensaio de 1929, declarou ser fundamental para que as mulheres pudessem escrever, isolando-se dos outros papéis sociais que a sociedade lhes impunha. Por trás de suas portas fechadas, enquanto soprava na janela a ventania do feminismo, as escritoras brasileiras lançaram-se nas últimas quatro décadas à tarefa de contrapor sua própria voz a uma tradição literária maciçamente masculina. De um modo que não surpreenderia Sigmund Freud, a maior revolta se deu onde era maior a repressão: do erotismo sutil às abordagens gráficas que flertam com a pornografia, o tema do sexo foi o grande campo de batalha dessa revolução.

Mas terá sido mesmo uma revolução? Embora esteja desgastada, a palavra se aplica. Desde o momento em que a revista Realidade fez sua enquete de 1967, uma revolução de tinta e papel – mais veloz e vertiginosa do que o avanço flagrado pelas pesquisas em áreas como comportamento e mercado de trabalho – expandiu dramaticamente as fronteiras daquilo que as escritoras podiam expressar sem correr o risco de um apedrejamento real ou metafórico. Por injunções que não eram apenas literárias, mas refletiam mudanças mais profundas na cultura e nas relações sociais, o erotismo místico e caseiro da poeta mineira Adélia Prado ("é em sexo, morte e Deus, / que eu penso invariavelmente, todo dia") foi recebido sem escândalo em 1976, quando saiu seu livro de estreia, Bagagem. Isso a poupou do ostracismo social – e até certo ponto literário – a que fora condenada, em 1915, também por seu primeiro livro, uma pioneira como a carioca Gilka Machado ("Eis-me, lânguida e nua, / para a volúpia tua").

Para encontrar, nos últimos anos do século XX, uma medida de choque comparável à deflagrada por Gilka Machado, seria preciso recorrer às narrativas assumidamente "obscenas" que a poeta e prosadora paulista Hilda Hilst publicou em sua fase madura, como O Caderno Rosa de Lori Lamby, de 1990. Goste-se ou não desse livro estranho, em que uma menina de 8 anos prostituída pelos pais descreve com candura suas experiências sexuais, é possível argumentar que ele assinala uma espécie de auge da libertação literária feminina, ao qual se seguiu um inevitável declínio. Hoje, poemas carregados de gritos orgásticos e fluidos genitais tornaram-se, para as jovens aspirantes às letras, um gênero tão banal e recheado de clichês quanto foi o amor impossível para os poetas românticos do século XIX ou a ode ao povo para os bardos engajados dos anos 1960.

Tudo isso é bom, pelo simples motivo de que liberdade é melhor que prisão. No entanto, antes de comemorar o sucesso de uma certa revolução feminista nas letras, deve-se levar em conta que – como qualquer revolução – esta não cumpriu todas as suas promessas nem escapou de certas armadilhas típicas dos processos emancipatórios. No ambiente pós-feminista do terceiro milênio, enquanto a literatura vive das migalhas de seu antigo prestígio social e a oferta erótica se multiplica em sites e programas de TV, os desafios diante dos escritores de ambos os sexos parecem ser outros. Depois que uma garota de programa chamada Bruna Surfistinha tomou de assalto com seu livro de memórias, O Doce Veneno do Escorpião, as listas dos mais vendidos de 2005, talvez tenha chegado para a literatura a hora de refletir sobre uma frase do romancista americano Gore Vidal: "O sexo não constrói nenhuma estrada, não escreve nenhum romance, e certamente não dá sentido a nada na vida além de si mesmo".

Desde aquele mesmo 1967, e de forma mais impressionante que a própria produção das escritoras, os estudos literários centrados em questões de gênero viveram uma explosão. Parte da onda de "estudos culturais" que varreu os departamentos universitários de ciências humanas no período, eles abraçaram a estratégia de botar sob suspeita toda a história da literatura como uma conspiração de "machos brancos heterossexuais mortos", substituindo o enfoque estético pelo político e as obras consagradas pelos testemunhos de minorias – sobretudo mulheres, gays e negros. O leitor comum não tomou conhecimento disso, mas a influência de tal pensamento politicamente correto nos círculos intelectuais, inclusive entre os próprios escritores, é considerável. O problema é que agendas políticas não costumam conviver bem com a criação artística.

Um exemplo: quando a professora Cristina Ferreira-Pinto, brasileira que leciona na Washington and Lee University, nos Estados Unidos, diz em seu livro Gender, Discourse and Desire in Twentieth-Century Brazilian Women’s Literature (Gênero, Discurso e Desejo na Literatura Feminina Brasileira do Século XX) que "o melhor exemplo da perspectiva masculinista do corpo feminino é Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado", livro cuja protagonista seria retratada pelo autor "de um ponto de vista patriarcal", é inevitável pensar que todos os exemplos de reação literária feminina que ela cita em seguida parecem condenados à irrelevância. Gabriela é um ícone cultural de massa. Quem é a anti-Gabriela da literatura feminina? Não há, nem poderia haver: para começo de conversa, as letras simplesmente já não têm a importância que tinham há meio século, quando saiu o romance de Amado. Ainda que tivessem, porém, jogar nos ombros de obras de arte o peso de uma missão política é injusto. As dificuldades propriamente artísticas em seu caminho são mais que suficientes.

Dessa promessa impossível deriva a armadilha mais traiçoeira da literatura feminina "de combate", a mesma que, em nome de uma virada de mesa, encurralou parte do pensamento feminista na imitação pouco criativa do que havia de pior no mundo masculino: no caso do erotismo na literatura, o desejo autocentrado, a transformação do outro em mero objeto de prazer. É o que se vê, por exemplo, nas histórias da contista paulistana Márcia Denser, que fizeram sucesso de crítica nos anos 1980. Sua personagem-símbolo, Diana Marini, é uma predadora de homens – Diana Caçadora é o título de um de seus livros, lançado em 1986. Erigida em paladina do erotismo feminino, Denser apresentou outras autoras em antologias de oportunidade intituladas Muito Prazer e O Prazer é Todo Meu, que, como seus próprios livros, guardam hoje um travo de época.

De forma curiosa, a maioria dos escritores homens da nova geração vem adotando, dentro e fora do Brasil, uma postura nitidamente mais encucada e menos agressiva que a da geração de seus pais no tratamento do erotismo. O que pode muito bem ser mais um resultado da onda feminista. Se o brasileiro Rubem Fonseca e o americano Philip Roth sempre tiveram um fraco por personagens priápicos que colecionam mulheres, hoje isso tende a ser visto como um sinal de mau gosto e cafonice. Em 1997, em artigo polêmico, o influente escritor americano David Foster Wallace, nascido em 1962 (e que se enforcou em 2008), atacou Roth como membro – ao lado de seus contemporâneos John Updike e Norman Mailer – do time dos "Grandes Machos Narcisistas". Tal tipo de bom-mocismo levou a escritora e jornalista americana Katie Roiphe, em artigo publicado em dezembro de 2009 no New York Times, a alfinetar a geração de Wallace como "cool demais para o sexo".

Talvez Roiphe cometa uma injustiça ao ver apenas pose e acanhamento existencial na postura de Wallace e seus contemporâneos. Parece natural e até saudável que, depois de uma época obcecada com a liberdade sexual como foram os anos 1960-70, a literatura se dedique no século XXI a uma investigação mais tateante de um tema que, no fim das contas, permanece um grande mistério cravado no coração humano. "A grande tragédia da carne começou quando o homem separou o sexo do amor", disse Nelson Rodrigues, que já foi chamado de pornográfico. A frase pode ser considerada conservadora, mas não desprezível. Quando tudo pode ser dito, resta a tarefa gigantesca de decidir o que, em termos propriamente artísticos, merece ser dito.

 

Grandes machos narcisistas

Fotos Jurgen Frank/Corbis/Outlive/Latinstock, Wolfgang Kumm/Corbis/Latinstock e Robert sSpencer/Nyt/Latinstock
Em 1997, o influente escritor americano David Foster Wallace, nascido em 1962 e que
se enforcou em 2008, acusou Philip Roth (à esq.), Norman Mailer e John Updike de serem
autores que sempre tiveram um fraco por personagens que colecionavam mulheres,
o que hoje é visto como sinal de mau gosto e cafonice

Sérgio Rodrigues, jornalista e escritor, é autor de Elza, a Garota (Editora Nova Fronteira)