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Trabalho e maternidade Artigo
O
amor tem um pavio apagador Como é
juridicamente muito fácil se separar,
a grande
novidade dentro do casamento
é a obrigação
do respeito entre os cônjuges 
Betty Milan
Lúcia Brandão
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Até
os anos 1960, a sexualidade devia se realizar por meio do casamento, e a
mulher que se entregasse a um homem fora dele era dada como perdida. A virgindade
era sagrada. Na prática, isso significava sexo vetado para os namorados
ou noivos e obrigatório para os cônjuges. Tratava-se de uma dupla
condenação. Na vida de solteiro, sexo limitado aos prolegômenos.
Na vida de casado, sexo regido pela obrigação. Não existia
liberdade, e foi contra isso que a revolução dos anos 1960 se fez.
Ela foi condicionada por duas descobertas médicas: a penicilina, que nos
liberou do medo da sífilis; e a pílula, que nos liberou do medo
da gravidez. O que caracterizou esse movimento foi a sua amplitude. Era uma reivindicação
aberta, divulgada com estardalhaço na imprensa, cujo papel foi fundamental.
O
movimento libertário, que teve o seu apogeu em maio de 1968, nas ruas de
Paris, dividiu as águas em relação ao casamento. De um lado
estavam os tradicionalistas; de outro, os ditos "revolucionários",
que apostavam na conquista da liberdade e relegavam a união a dois a um
plano inferior. Para nós, revolucionários, grupo evidentemente minoritário,
o vestido de noiva era um arcaísmo e a meta de se casar e constituir família,
secundária. O nosso imaginário era totalmente diferente do imaginário
dos nossos pais, que
sacralizava a instituição do casamento,
favorecendo os amores clandestinos. O que nós queríamos, à
diferença deles, era o amor livre, cuja trombeta soprávamos com
disposição inigualável.
O sexo primava
sobre o amor, e a hipocrisia implícita no modelo anterior do casamento
era desqualificada. Questionávamos de várias maneiras a fidelidade
e pregávamos com fervor a lealdade. Em outras palavras, apostamos
tudo no gozo, sem desconfiar que este poderia nos escravizar.
Na
verdade, escapamos à repressão imposta às gerações
anteriores, mas nos tornamos vítimas do nosso ideário. O homem era forçado a ter uma atividade sexual intensa, e a mulher,
para demonstrar liberdade, precisava dizer sim a todas as propostas masculinas.
Insensivelmente, passamos do sexo proibido ao sexo obrigatório.
A
aids, nos anos 1980, freou o movimento, impondo-nos o sexo seguro em vez do sexo
livre e despreocupado. Com isso, a relação marital e a fidelidade
passaram a ser novamente valorizadas. O risco real de mudar de parceiro e contrair
o vírus levou à contenção, e o casamento renasceu
como uma solução. O seu significado, porém, já
era outro, não implicava necessariamente a constituição
de uma família. Servia de proteção e pode ser comparado
a um refúgio.
A fidelidade é o imperativo dos
tempos da aids, e, ainda que seja rara, é o ideal dos amantes. Por isso,
nos anos 1980, o amor foi entronizado. Ao contrário do que ocorria antes
da revolução sexual, o casamento se tornou indissociável
da satisfação amorosa. O divórcio impôs outra mudança,
porque o amor se quer eterno, mas o desejo sexual é errático,
ele muda de objeto. O amor tem um pavio apagador ou, como escreveu Vinicius
de Moraes, não é imortal, posto que é chama.
O
sentimento amoroso, em um duplo processo, hoje sustenta e ameaça o casamento,
que pode se dissolver com facilidade. O divórcio litigioso tende a ser
evitado e a separação não escandaliza mais ninguém.
Tornou-se uma prática corriqueira. Tendemos a não dramatizar a separação,
considerando que só a felicidade importa e é preciso alcançá-la
como for possível. Essa é a tese de Tudo Pode Dar Certo, o mais recente filme de Woody Allen lançado no Brasil. Não dê
atenção à opinião dos outros. Faça da sua vida
o que for preciso para ser feliz é o que o cineasta bem-humorado nos diz,
fazendo troça dos imperativos do puritanismo americano.
Em
outras palavras, não se pode mais dizer que o casamento é isso ou
aquilo; ele já não é passível de definição.
Cada caso é um caso, e as diferenças precisam ser levadas sempre
em conta. De verdadeiramente novo, o que existe é a obrigação
do respeito entre os cônjuges. Precisamente porque é possível
e fácil se separar. Nesse contexto, o problema da separação
são os filhos pequenos e adolescentes. Eles precisam fazer o luto do ideal
de ser feliz por meio do casamento. Ao mesmo tempo, precisam fazer o luto da presença
contínua do pai e da mãe. Queiram ou não, é com os
menores que os adultos têm de se preocupar. A evolução
dos costumes impõe uma reflexão sobre a dor dos filhos e a melhor
maneira de lidar com o sofrimento deles, a maneira mais humana. Casamento, tudo bem. Separação, também, desde que os dois envolvidos
sejam responsáveis e não percam de vista o futuro dos próximos.
Betty Milan, psicanalista, é colunista de VEJA e veja.com
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