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Política e economia
Abolicionismo de saias

Ao pedirem a emancipação dos escravos,
as associações femininas que saíam às ruas
no fim do século XIX alçaram a mulher
ao mundo do poder


Angela Alonso

Cartaz da Ave Libertas, a maior associação abolicionista do país,
criada em 1884, no Recife

Quem vê Marina e Dilma mal sabe de Maria Amélia, de quem trataremos mais à frente. Hoje parece trivial a candidatura de duas mulheres à Presidência da República. Houve Margaret Thatcher, a dama de ferro na Inglaterra, e há Angela Merkel na Alemanha; Hillary Clinton passou perto da cadeira mais cobiçada do planeta; na Índia, nas Filipinas, no Chile e em tantos outros países, o poder foi ou é feminino. Tudo isso, porém, é história recente.

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No século XIX, a política era aristocrática e masculina. O primeiro bloqueio podia ser quebrado, já o segundo… As mulheres não tinham direito ao voto, que dirá à candidatura. Os homens apregoavam as limitações físicas, os excessos emotivos e a incapacidade intelectual delas. O ideal daquele tempo, cristalizado nos poetas românticos, era a mocinha pudica, pálida e vaporosa – embora roliça, à la Renoir –, que desabrochava em mãe dedicada e esposa cordata, craque em piano e costura e uma nulidade em negócios e política.

Na sociedade aristocrática havia, é verdade, formas assentidas (e uma clandestina, de alcova) de política para senhoras bem-postas no ranking social. Uma possibilidade era nascer princesa em casa sem varão. No Brasil, quase ganhamos uma rainha assim. Isabel não chegou lá, mas quando regente, nas viagens do pai imperador, exibiu todas as constrições tradicionais: católica, avessa a novidades, submetida a políticos experientes e ao amantíssimo marido.

Uma segunda via era a política dos salões, dependente da habilidade pessoal de adentrar a intimidade dos poderosos. A condessa de Barral o conseguiu duplamente, com dom Pedro e sua potencial sucessora. As senhoras de grandes salões, como a condessa, atraíam políticos para seus saraus e lhes sopravam projetos e afilhados ao ouvido. Numa sociedade de cargos preenchidos por indicação, manejavam o estratégico poder de lobby.

Para mulheres sem berço esplêndido, o possível era a nova e antiaristocrática política das ruas. No Brasil oitocentista, muitos homens sem acesso ao Parlamento faziam barulho fora dele, com panfletos e comícios por reformas, especialmente a abolição da escravidão. Mas mesmo nessa campanha engataram só aquelas que fugiam do script tradicional – esposas, irmãs, filhas de parte dos ativistas (nem todos defendiam direitos políticos para as mulheres) – ou as independentes do mando masculino – viúvas; órfãs solteiras com emprego ou patrimônio; e artistas de teatro, rompidas com o casamento.

Três Marias e uma Francisca exemplificam esse abolicionismo de saias.

A primeira Maria, Maria Firmina dos Reis (1825-1917), maranhense, mulata, solteira, era professorinha de província, mas longe de acanhada: defendeu a abolição em jornais, com poemas, charadas, contos, e no primeiro romance brasileiro de autoria feminina: Úrsula (1859). O livro opera a detratação sentimental da escravidão, por meio de uma tríade de personagens escravos – Túlio, o nobre e bom; Antero, decaído no vício; e Susana, vítima do tráfico negreiro:

"Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. (...) Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé (...), vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros a falta de ar, de alimento e de água".

A parteira Maria Josephina, conhecida
como "mulher-homem" pelas feições
e postura, foi a primeira a condenar
o "cancro social" da escravidão


Outra Maria era de ciências. Maria Josephina Mathilde Durocher (1809-1893) veio pequena da França para o Rio de Janeiro, onde ajudou a mãe em uma loja de tecidos até se casar. Logo enviuvada, matriculou-se na Faculdade de Medicina, onde mulher alguma tinha posto os pés. Envergando jalecão, ganhou alcunha de "mulher-homem" e, em 1834, o diploma de "parteira". Com essa rubrica assinou suas Ideias por Coordenar a Respeito da Emancipação, enviadas ao Parlamento. Era 1871, auge do debate sobre o Ventre Livre, isto é, a libertação de escravos nascidos daí por diante. Havia febre de manifestos, mas Josephina foi a primeira mulher a escrever um, apontando o caráter de "cancro social" e "herança colonial" da instituição. Queria a emancipação paulatina, financiada com um imposto "filantrópico" sobre todos os livres.

 

Chiquinha Gonzaga, a criadora
de Ô Abre Alas, vendeu composições
de porta em porta para alforriar um
escravo músico, o Zé Flauta

A Francisca desta história era artista. Nascida em família militar, Chiquinha Gonzaga (1847-1935) se casou com um rico bonito, mas o trocou pelo piano. Apadrinhada pela roda boêmia carioca, escandalizou senhoras por seus modos livres e fascinou senhores, que gracejavam com o título de seu primeiro sucesso: Atraente. Pianista em saraus e teatros, Chiquinha por aí se enganchou nas "conferências-concerto" abolicionistas. Aos discursos políticos se seguia sessão "concertante", com as mulheres em cena: filhas, esposas e irmãs de abolicionistas tocavam piano, atrizes dramáticas declamavam e cantoras líricas entoavam árias contra a escravidão. Chiquinha foi dessa trupe. Varreu teatro, pregou cartaz, leiloou em quermesse, panfletou em cafés. Regia um coro de meninas nas conferências-concerto e vendeu suas composições de porta em porta para alforriar um escravo músico, o Zé Flauta. Em 1885, como maestrina, encenou a opereta A Corte na Roça, na qual se ouvia:

"Já não há nenhum escravo
Na fazenda do sinhô;
Tudo é boliçonista,
Até mesmo o imparadô".

Segundo Edinha Diniz (Chiquinha Gonzaga – Uma História de Vida, 1984), biógrafa de Chiquinha, a polícia mexeu nos versos, sem prejuízo da rima, trocando o "imparadô" por "seu dotô."

A Maria que nos falta é Maria Amélia de Queiroz, de quem pouco se sabe. Professora e abolicionista apaixonada, entrou a sério para a parte política da campanha. Em conferências no Recife, brandia a incompatibilidade entre escravidão e direito civil e natural. Em 1887, conclamou seu gênero:

"(…) que a mulher se convença de uma vez para sempre que já é tempo de levantar um brado de indignação contra o passado ignominioso de tantas raças malditas. A mulher também é capaz de grandes e altos cometimentos. Vinde! Vinde, pois, minhas amáveis patrícias! Vamos!".

Pelo menos 66 mulheres se juntaram a ela na Ave Libertas, a maior associação abolicionista feminina do país, criada em 1884, no Recife. Não que fosse a única. Houve ao menos duas dezenas delas, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Pernambuco, no Rio Grande do Norte, Ceará, Amazonas, nas capitais e cidades pequenas – de que As Baturiteenses Libertadoras dão exemplo. Esse mulherio coletava fundos com rifas e quermesses; fazia visitas de persuasão a proprietários de escravos; e algumas se arriscavam na clandestinidade. Maria Amélia participou da promoção de fugas de escravos para o Ceará, onde a abolição já estava concretizada. Em 1887, escreveu a João Ramos, um dos líderes do movimento, como reporta Luzilá Ferreira (Suaves Amazonas: Mulheres e Abolição da Escravatura no Nordeste, 1999), pedindo, "em nome de seus sentimentos abolicionistas, (…) o obséquio de mandar uma pessoa de confiança assim que tiver condução segura para o Ceará, a fim de salvar um dos infelizes do naufrágio de três séculos".

O ativismo das três Marias e de Chiquinha sinalizou o início do fim da escravidão da porta para dentro e a afirmação das mulheres da porta para fora. Ainda que pedindo emancipação não para si, mas para os escravos, as abolicionistas puseram as mulheres brasileiras na política, coletivamente, de maneira inédita. Por isso me parece difícil pensar em Marina e Dilma sem lembrar Maria Amélia. As oitocentistas prepararam o campo para todas as suas sucessoras, que na virada do século XIX para o XX cantavam em coro a marcha-rancho de Chiquinha: "Ô, abre alas, que eu quero passar".

 

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