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Saudade
para quê?
Zé Paulo Cardeal/Rede Globo/divulgação
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| Serginho
Groisman é apresentador do programa Altas
Horas, da Rede Globo |
Existem
jovens que sentem nostalgia por não ter sido jovens em gerações
passadas. Saudade do enfrentamento com os militares dos anos 70,
da organização estudantil nas ruas, do sonho socialista-comunista-anarquista-marxista-leninista.
Ter saudade da ditadura é ter saudade de conhecer a tortura,
o medo, a falta de liberdade e a morte. Ser jovem naquela época
era coexistir com a morte, ver os amigos ser tirados das salas de
aula para o pau-de-arara, para o choque elétrico, para as
humilhações. Da mesma forma, quem sente nostalgia
dos anos 80 se esquece do dogmatismo limitante das tribos daqueles
tempos, fossem punks, góticos ou metaleiros. Hoje, é
a vez dos mauricinhos-patricinhas-cybermanos-junkies, das raves,
do crack, da segurança dos shoppings e do Beira- Mar. Um
cenário que pode parecer aborrecido ou irritante para muita
gente que tem uma visão romântica de outras décadas.
Mas nada melhor que a liberdade que temos hoje para saber qual é
a real de uma juventude e de uma sociedade. Hoje, a juventude é
mais tolerante com as diferenças. Hoje, existem ferramentas
melhores para a pesquisa e a diversão. Hoje, a participação
em ONGs é grande e isso mostra um país que trabalha,
apesar do Estado burocrático. O país está melhor.
Falta muito, mas o olhar está mais atento, e até o
sexo está mais seguro. Não temos hinos mobilizadores,
mas nem precisamos deles.
O jovem
de hoje não precisa mais lutar pelo fim da tortura ou por
eleições diretas, pois outras gerações
já fizeram isso. Se o país necessitar, é verdade,
lá estarão eles de cara limpa, pintada, o que for.
Mas é bobagem achar, como pensam os nostálgicos, que
tudo já foi feito. Há muito por realizar pelo país.
Seria bom, por exemplo, se a juventude participasse de forma mais
efetiva na luta pela educação e pela leitura. Sim,
porque lemos pouco, muito pouco. Ler mais vai fazer a diferença.
Transformar a chatice da obrigação de ler Machado
de Assis no prazer absoluto de ler Machado de Assis. Repensar a
escola também é fundamental. Dar ao aluno mais responsabilidade
pelo próprio destino e a chance de se auto-avaliar e avaliar
seus professores. Reformular o sistema de avaliação
e transformar a escola numa atividade de prazer: trazer para dentro
dos colégios os temas da atualidade, além de transformar
numa atividade doce o trinômio física-química-biologia.
Vivemos
num país que mistura desdentados com marombados, famintos
com bad boys, motins em prisões com raves na Amazônia,
malabares nos cruzamentos com gatinhas tatuadas, crianças
com 15 anos na Febem e outras com 15 na Disney. É Macunaíma
dando passagem aos tropicalistas, numa maçaroca que é
o samba-enredo chamado Brasil. É um país com muitas
diferenças e acabar com elas é papel dos jovens.
A juventude deve, acima de tudo, saber desconfiar das verdades absolutas.
Desconfiar sempre é ser curioso, pesquisador, renovador,
transgressor. Seja intransigente na transgressão. Sempre
diga não ao não e desafine o coro dos contentes.
Negreiros
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