| |
Tão
novos, tão polêmicos
Escritores
jovens causam barulho com livros que
abrem uma janela para o lado secreto da adolescência
Montagem sobre fotos de Juan Esteves e Oscar
Cabral

Da
esquerda para a direita, Nick McDonell, o autor de Doze:
ficção ou verdade?
Lolita e Melissa: relatos sobre sexo e uso de drogas
Simone Campos: desejo de ser escritora desde os 9 anos |
Desde
que lançou o romance Doze, aos 17 anos, o americano
Nick McDonell, hoje com 20, vem sendo abordado por pais preocupados.
Querem saber se os adolescentes de fato freqüentam festas com
drogas e muito sexo, tal como a que é descrita no livro.
A mesma reação escandalizada cerca os livros da francesa
Lolita Pille, 21, e da italiana Melissa Panarello, 18. A primeira
tinha 19 quando lançou Hell Paris 75016, em
que retrata a existência desregrada de uma patricinha parisiense.
Melissa publicou no ano passado Cem Escovadas Antes de Dormir,
acusado de pornográfico por seu relato das atividades sexuais
atípicas (leia-se orgias e sadomasoquismo) de uma adolescente.
Também elas são bombardeadas por perguntas sobre as
loucuras que descrevem. As respostas dos três autores variam.
Melissa e Lolita juram que seus livros são autobiográficos,
enquanto McDonell não tinha experiência com drogas
quando escreveu Doze. Seja como for, os três livros
se alimentam de uma mesma idéia: a de que os adolescentes
formam uma tribo à parte e têm vidas que os adultos
desconhecem. Os escritores jovens fazem barulho ao abrir janelas
para um mundo supostamente escondido de sentimentos e experiências.
Essa
janela literária é relativamente recente. A história
da literatura registra alguns talentos precoces, como o poeta francês
Arthur Rimbaud e, no Brasil, Álvares de Azevedo. Esses autores
não tinham, porém, a juventude como tema central.
Há também uma tradição de obras que
dramatizam a passagem da adolescência para a maturidade. São
os "romances de formação" Os Anos de Aprendizado
de Wilhelm Meister, de Goethe, é o maior exemplo. São
todos livros escritos por adultos. Hoje, pelo contrário,
vêem-se cada vez mais adolescentes escrevendo sobre adolescência.
A vertente mais encorpada dessa literatura é confessional.
Memórias de jovens que viveram situações extremas
ou momentos históricos traumáticos constituem um filão
próprio. O clássico do gênero é O
Diário de Anne Frank, escrito por uma adolescente judia
que morreu num campo de concentração. Há também
Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída, de
1979 mas Christiane não escrevia: o livro é
um depoimento registrado por jornalistas. Na mesma linha, nos anos
90, durante a guerra na Bósnia, uma menina de 11 anos, Zlata
Filipovic, registrou seu cotidiano em Saravejo em outro diário
transformado em livro. No Brasil, pode-se lembrar de Feliz Ano
Velho, escrito por Marcelo Rubens Paiva aos 23 anos, e, mais
recentemente, da ex-menina de rua Esmeralda Ortiz, que contou suas
experiências em Por que Não Dancei.
Lançar
um texto de ficção que desperte algum interesse é
mais difícil e incomum. "Desde os 9 anos eu queria publicar
um livro. Mas precisei crescer antes de conseguir escrever algo
que valesse a pena", conta a carioca Simone Campos, de 20 anos,
que publicou a novela No Shopping quando tinha 17. Ao contrário
do que acontece na música ou na matemática, é
raro realizar feitos literários muito cedo. Tanto assim que
o dramaturgo Nelson Rodrigues, com sua acidez habitual, oferecia
um único conselho aos jovens que desejavam escrever: envelhecer
depressa. Mas, independentemente das limitações que
a crítica e a autocrítica imponha à
garotada com ambições literárias, o mercado
editorial parece ter encontrado um espaço para os seus livros.
A cultura jovem é cada vez mais variada, cada vez mais tomada
por tipos peculiares de música, de gíria, de drogas.
Não faltará lugar para aqueles que proponham abrir
uma fresta para esse mundo com um pouco mais ou um pouco
menos de ficção.
|
|