A que move a galera

Os jovens estão fazendo a trilha inversa à
de seus pais: retomaram o gosto por ir à
igreja e hoje fazem dela um ponto de encontro


Montagem sobre foto de Pedro Rubens

A partir dos anos 60, uma vasta parcela da juventude brasileira divorciou a crença em Deus da crença nas religiões institucionalizadas. Pois aquilo que os pais separaram, a garotada de hoje está juntando novamente. Atraídos por missas e cultos que se tornaram mais descontraídos justamente no intuito de cativar novos fiéis, os jovens devolveram à religião o papel de integrá-los socialmente, em vez de apenas alimentar sua espiritualidade. Uma pesquisa nacional sobre a juventude realizada no começo deste ano pelo Instituto Cidadania põe em destaque esse fato. Entre outros dados curiosos – como o de que apenas 1% dos rapazes e das meninas entre 15 e 24 anos se dizem ateus, ou o de que o temor a Deus seria para eles o valor mais cultivado numa sociedade ideal – o levantamento demonstrou que a visita à igreja ocupa o primeiro lugar entre as atividades preferidas pelos entrevistados no seu tempo livre, ao lado da praia e da balada. "As religiões hoje oferecem ao jovem o espaço para que ele encontre sua 'galera' na igreja ou no templo", diz Regina Novaes, antropóloga e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser).

Numa faixa etária ainda mais baixa que a dos entrevistados pelo Instituto Cidadania, os irmãos Úrsula e Alexandre Estefan Alencar Cunha, de 12 e 14 anos respectivamente, confirmam a tendência de retorno à religião e a eficácia dos métodos empregados pelas igrejas para seduzir os mais novos. Os dois vivem em São Paulo com a mãe, que não segue crença nenhuma. Mas eles são membros da denominação evangélica Sara Nossa Terra, cujos cultos incluem bandas gospel com bateria, baixo e guitarra tocando ao lado do pastor. "A música nos leva ao encontro de Deus", diz Úrsula. A música também é um fator importante na experiência religiosa do paulistano Felipe Barreto Rios, de 17 anos. Felipe é católico e vem de uma família católica, mas foi o movimento carismático encabeçado por sacerdotes como o padre Marcelo Rossi que consolidou sua fé. "Eu me identifiquei mais com a Renovação, pois é um movimento voltado para os jovens, com músicas animadas", diz. Com a indecisão típica de quem está acabando o ensino médio, Felipe – que acredita inclusive no poder de cura da oração – coloca a vida eclesiástica ao lado da engenharia como uma possibilidade profissional. Sua vida social é fortemente influenciada pelo catolicismo. Ele gosta de sair com os colegas de aula – mas admite que a conversa no barzinho é mais gostosa quando a turma é de jovens da igreja.

Se a música pop ajuda a atrair os jovens para o culto evangélico ou a missa carismática, Ulisses Sato, de 17 anos, foi "convertido" pelo cinema. Embora Ulisses tenha sido batizado no catolicismo, seu pai hoje é praticante do budismo. O rapaz nunca se interessou em buscar o nirvana – até que soube que o centro que seu pai freqüenta estava promovendo uma palestra sobre os conceitos budistas de Matrix. Fã da trilogia dos irmãos Wachowski, Ulisses foi à palestra, gostou e hoje está dando seus primeiros passos na meditação. "Até a atenção em aula melhora", diz. Ulisses tem apenas um amigo que freqüenta o centro budista – mas os dois têm procurado despertar o interesse de outros colegas pela meditação e pela espiritualidade oriental convidando-os a assistir a palestras. Para eles, mesmo a experiência individualíssima da meditação é melhor quando feita entre iguais.