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Garra
de gente grande
No
Brasil, 10,8 milhões de jovens querem ter negócio
próprio e dão mostras de espírito empreendedor
Selmy Yassuda
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| Diego
Assef, de 17 anos (à esq.), e seus sócios:
abajures a partir da reciclagem de garrafas |
A
exploração do trabalho infantil e juvenil é
uma das mais tristes distorções da sociedade brasileira.
Ela priva crianças e adolescentes do estudo e do lazer, que
são seus direitos fundamentais. Mas nem todas as histórias
de gente que começa a trabalhar cedo são tristes.
Em alguns casos, elas são prova de algo bem diferente: a
garra e a criatividade de uma parcela considerável da juventude
brasileira. Segundo dados do Instituto Cidadania, 32% dos jovens
entre 15 e 24 anos já montaram ou desejam montar um negócio
próprio. Em outras palavras, um terço da juventude
brasileira, ou 10,8 milhões de jovens, demonstra espírito
empreendedor. A mesma pesquisa revela que, embora muitos entrevistados
associem o trabalho à necessidade, mais da metade o associa
à independência. "São números muito positivos",
diz o economista Ênio Pinto, gerente nacional de educação
empreendedora do Sebrae.
Oscar Cabral
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| Amanda
Bueno, de 16 anos: loja criada para atender às próprias
necessidades |
Amanda
Bueno, 16 anos, está entre os que tiveram sucesso com o sonho
empresarial. Aos 12 anos, ela não conseguia encontrar roupas
de seu tamanho e gosto. Foi dessa insatisfação que
surgiu a idéia de criar uma loja que atendesse às
necessidades específicas das meninas de sua idade. Com o
apoio da mãe, Amanda montou a Ponto Teen, que hoje já
tem duas lojas no Rio de Janeiro, onde mora a jovem empresária,
e uma em Lorena, interior de São Paulo. A parte financeira
ainda fica por conta da mãe, mas Amanda que planeja
cursar administração de empresas na faculdade
gerencia quinze funcionárias, faz a programação
visual das vitrines e cuida do estoque. "No início, eu ficava
tímida quando procurava os fornecedores", conta ela. A adolescente
que fazia grandes compras no atacado gerava desconfiança.
Com o tempo, conseguiu respeito.
Alberto Cesar Araujo
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| Tiago
Baía, de 17 anos: projetos para ampliar a gráfica
que hoje produz cadernetas |
Tiago Baía e Diego Assef também estão em busca
de independência. O primeiro quer assegurar o "crescimento
do capital" para garantir um empréstimo que permita a ampliação
da gráfica que tem em Manaus. O segundo está "queimando
o estoque" dos abajures que produziu com colegas, no Rio de Janeiro.
Expressões típicas de empresários são
usadas com muita naturalidade pelos dois garotos de 17 anos. Ambos
começaram em um programa educacional que incentiva estudantes
secundários a montar pequenos negócios experimentais
promovido pela associação internacional Junior Achievement.
No programa, as "empresas" são organizadas por turmas grandes.
Vinte e cinco colegas ajudavam a produzir abajures com garrafas
recicladas na empresa presidida por Diego. "Começou a ficar
bagunçado e fiz um corte de pessoal", conta Diego, hoje aluno
do 1º ano de direito. Depois do downsizing, ficaram
cinco colegas, que montam os abajures e os vendem em uma loja do
Flamengo, no Rio.
Tiago
não precisou demitir ninguém: quando acabou o programa,
com duração de quatro meses, foi o único que
se interessou em manter a pequena gráfica produzindo cadernetas
e calendários. "Queremos fazer agora um investimento em equipamento
de cerca de 40 000 reais, para poder imprimir capas de cadernos,
formulários, revistas", sonha Tiago. A gráfica no
momento está em compasso de espera, preparando-se para a
ampliação. Mas já chegou a tirar 1 000 reais
por mês, especialmente no fim de ano, quando muitas empresas
encomendaram seus produtos para distribuir a clientes. O dinheiro
foi providencial para a família Baía: os pais de Tiago
estão desempregados. Eles têm ajudado na gráfica,
e Tiago os inclui em seu sonho de independência. "Não
quero ver meus pais trabalhando para os outros. Quero que trabalhem
comigo", diz. As artes gráficas não são o único
interesse de Tiago, que deseja cursar engenharia da computação.
"No mundo dinâmico de hoje, não podemos ficar em apenas
um ramo", ensina o jovem.
Ana Araujo
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| Lorena
dos Santos Gonsalves, de 16 anos: velas artesanais vendidas
na papelaria da mãe |
Lorena dos Santos Gonsalves, 16 anos, também ficou sozinha
quando o programa do Junior Achievement chegou ao fim em sua escola.
Continuou derretendo glicerina e misturando essências cheirosas
em casa, produzindo de 500 a 700 sabonetes artesanais por mês.
"Minha mãe já tem uma empresa, e eu gosto muito dessa
atividade", diz Lorena, que planeja cursar administração
de empresas. A empresa da mãe, aliás, é uma
papelaria uma das três lojas de Goiânia que comercializam
os sabonetes de Lorena. Nem todos os jovens profissionais conseguem
de início o sucesso de Amanda Bueno. O importante é
que eles já pensam grande.
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