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Os
códigos do ficar
Dos
primeiros beijos ao
sexo, muita coisa
está
mudando
em ritmo acelerado no modo como
meninos
e meninas se
relacionam
Mario Rodrigues
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Quando
a festa do colégio começou, às 20 horas, Gabriela
Cunha já estava na frente do palco em Canoas, no Rio Grande
do Sul, rodeada pelas amigas. Naquela noite, o plano das meninas
era um só: ficar com alguém. Nos dias que antecederam
a noitada, Juliana Moraes contava os minutos. Com a ajuda de Gabriela,
havia combinado de ficar com um menino chamado Pedro. "Minha amiga
é tímida, então fui até o guri no intervalo
e perguntei se ele queria ficar com ela na festa. Ele topou", diz
a desinibidíssima Gabriela. Conforme a noite avançava,
os casaizinhos começaram a "grudar" pelos cantos. Grudar
é a gíria corrente no Sul para falar de beijos e amassos.
Algumas meninas da turma de Gabriela encontraram seus "ficantes".
Pedro desistiu do combinado com Juliana em cima da hora e
beijou outras três meninas. Pouco depois, dois meninos se
aproximaram de Gabriela. "Tu não queres ficar com meu amigo?",
um deles perguntou. Gabriela disse não. "Não deu vontade.
Ele não tinha nada a ver comigo." Às 11h30, a festa
acabou para Gabriela. Sua mãe havia combinado de buscá-la
a essa hora. Mas a noite de azaração não foi
uma decepção total. Gabriela, que antes daquele dia
já havia ficado com quatro meninos, não acrescentou
um quinto à sua lista, porém descobriu uma nova comunidade
de encontros on-line. "A internet é ótima para planejar
uma ficada", diz ela. Gabriela e suas amigas têm entre 11
e 12 anos.
Liane Neves
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| Gabriela,
11 anos: ela já ficou com quatro, mas preferiria namorar
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Não faz muito tempo, uma cena como essa seria difícil
de imaginar. Não apenas pela precocidade, mas também
porque os códigos do relacionamento entre meninos e meninas
eram bem diferentes. Mesmo entre os mais arrojados, o beijo era
o ponto culminante de um encontro que costumava envolver muita conversa,
uma ida ao cinema ou a uma lanchonete, a dança das músicas
lentas na domingueira. Havia um ritual de cortejo que hoje em dia
foi descartado. Na era do ficar, não se perde tempo com pudor
ou amenidades quando existe interesse físico. Às vezes,
tudo pode ser tão rápido que se torna difícil
entender como acontece: um esbarrão, um braço puxado,
um "grude" e pronto. Algumas boates dão uma mãozinha
aos freqüentadores inventando sinalizadores, como pulseirinhas
fosforescentes de várias cores, para indicar quem está
disponível e quem está fora do mercado. Depois da
ficada, nada mais é certo. Às vezes, a história
não se esgota numa única noite e se repete de tempos
em tempos, transformando-se num "rolo". Aí entram em jogo
outras regras de etiqueta, quase todas negativas: não ligue
para jogar conversa fora, mas apenas para planejar o próximo
encontro (aliás, prefira as mensagens na internet); não
exija atenção no dia seguinte; não tire satisfações
se a pessoa sumir. Enfim, mantenha tudo simples e descompromissado
esta última, aliás, é a palavra que
define a essência desse tipo de relacionamento. "Na única
vez em que tentei namorar, a menina queria saber o tempo todo o
que eu estava fazendo. Não quero nem pensar em fazer isso
de novo", diz o paulistano Rogério Lacorte, que, aos 15 anos,
é um adepto incondicional das ficadas.
Carol Quintanilha
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| Rogério,
15 anos, só quer ficar. Aline e Rafael, 17, namoram.
Nas boates, pulseira verde para quem quer ficar e vermelha para
os que já têm par |
eider
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Alexandre Schneider
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O desembaraço
com que os jovens aprenderam a embarcar em suas aventuras eróticas
pode dar a impressão de que o ficar é uma prática
livre de ansiedades. Mas essa impressão não corresponde
à realidade. Apesar de opiniões como a de Rogério,
o fato é que as opções da ficada e do namoro
vivem em tensão constante na cabeça de muitos adolescentes.
"Sempre quis namorar, mas os guris não topam", diz Gabriela
Cunha. A diferença de expectativas sobre o relacionamento,
sobretudo entre aqueles que têm algum vínculo no cotidiano,
como a escola, também pode provocar confusão e sentimentos
de rejeição. "Porque ganharam a liberdade de experimentar
mais, meninas e meninos às vezes se vêem obrigados
a fazê-lo. Isso pode ter um custo sentimental grande", explica
a antropóloga Miriam Goldemberg. Rafael Coelho e Aline Lessa,
ambos de 17 anos e moradores de Salvador, descobriram quanto o ficar
pode ser estressante e resolveram testar o namoro depois de um mês
do primeiro beijo. Eles formam o único casal estável
de sua turma, mas hoje não se incomodam. "Namorar é
mais sossegado", diz Rafael.
AFP
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| Multidão
de jovens se beijando: o beijo deixou de ser o ponto culminante
de um longo ritual |
A equação
do ficar se torna mais complicada e arriscada quando
o sexo passa a fazer parte dela. Ao contrário do que se imagina,
o sexo não é um elemento essencial do ficar. Aliás,
nem mesmo as carícias pesadas o são: numa enquete
realizada há pouco pela revista adolescente Capricho,
66,7% das meninas entrevistadas disseram que não fazem carinhos
mais ousados no parceiro mesmo quando têm vontade. É
verdade, contudo, que a iniciação dos adolescentes
no sexo está ocorrendo cada vez mais cedo (veja
quadro), e, quando a lógica descompromissada
das ficadas se aplica à cama, aumenta muito o perigo de haver
sofrimento, assim como o risco de contaminação por
doenças sexualmente transmissíveis ou de gravidez
indesejada. É com base nesse temor (fundamentado) que os
pais torcem o nariz para a idéia do ficar. Como os especialistas
não se cansam de lembrar, a melhor solução
para aplacar esses temores e tornar mais seguro o caminho dos adolescentes
na hora da iniciação sexual é a conversa aberta
e sem sermões. "Ao ficarem, os jovens estão buscando
um jeito próprio e mais livre de se relacionar, e não
é preciso ver esse fenômeno apenas sob um prisma negativo.
Mas os adultos não devem abrir mão de dialogar com
eles", diz a socióloga Miriam Abramovay, coordenadora da
Unesco.
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Assim
pega mal |
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Wania Corredo/Ag. O Globo
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Eles puxam o braço
delas. Formam uma rodinha e exigem beijos. Ou
ainda, para usar a gíria corrente, "grudam"
a garota na parede. Cada vez mais os meninos estão
usando a força e nem um pouco de
sutileza para abordar as meninas na noite.
Quem adota esse comportamento geralmente adora
exibir sob a camiseta justa os músculos
que cultivou em horas e mais horas de academia.
"Diria que eles sofrem de complexo de Adônis",
diz a antropóloga Miriam Goldemberg, referindo-se
à compulsão de cultivar um corpo
perfeito como o do personagem da mitologia grega
que representava o máximo da beleza masculina.
"Mas eles acrescentaram um elemento de violência
a esse quadro. Acreditam que ter um corpo forte
e ser agressivo é sinônimo de masculinidade."
No extremo do comportamento violento estão
os "pitboys" cariocas. O rótulo que os
descreve é uma mistura de playboy e pit
bull a raça ultra-agressiva de cães
de rinha. Os pitboys são garotos musculosos
de classe média alta que, depois de algumas
doses de bebida alcoólica, pegam pesado
para o lado das meninas e de quem mais
estiver em volta. Não raro, quando abordados
pelos seguranças das boates, quebram tudo.
Nos primeiros quatro meses de 2004, os incidentes
envolvendo pitboys foram freqüentes e acabaram
até nas páginas policiais. Meninos
e meninas "normais" estão assustados com
a agressividade gratuita que os pitboys demonstram,
e não sabem como reagir. Para eles, a única
dica é: cuidado, pois eles costumam atacar
perto da porta do banheiro feminino.
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