| |
A
cabeça no mundo,
os pés em casa
Os
jovens formam uma tribo planetária, mas
não desprezam as tradições de seus países
Pedro Rubens
 |
| Cidadãos
do mundo: no Rio de Janeiro ou em Pequim, eles compartilham
os mesmos códigos |
Um
dos passatempos favoritos do adolescente chinês Zhu Jiaxi
apresentador de um programa infantil popular na TV de seu
país é ouvir música pop americana. Apesar
de levar uma existência miserável como vendedora de
rua, a indiana Ritu Dass adora navegar na internet. O palestino
Ahmed Hasna admira o futebol brasileiro e é fã de
hip hop e de rock. A francesa Lola Gozlan se irrita quando maltratam
sua língua mas, na hora de ouvir música, gosta
mesmo é de bandas estrangeiras como Radiohead e Nirvana.
A americana Angela Martellaro, por sua vez, faz do engajamento político
sua forma de conexão com o mundo. Esses meninos e meninas,
cujos perfis se encontram ao longo desta reportagem, obviamente
não resumem o que seja a adolescência em seus países,
mas suas histórias apontam para um fato incontestável:
a juventude é o segmento em que os efeitos da chamada globalização
se fazem sentir com maior força. No Rio de Janeiro, em Paris
ou em Pequim, as principais marcas do universo dos adolescentes
se repetem: eles cultuam os mesmos ídolos e modismos pelo
mundo afora e são o grupo social que explora com mais desprendimento
as novas tecnologias. Alguém pode objetar que desde os anos
50, quando a música pop se tornou um fenômeno sem fronteiras,
os jovens do mundo inteiro vêm comungando códigos de
comportamento muito parecidos. Mas a verdade é que a expressão
"tribo planetária" nunca fez tanto sentido quanto nos dias
de hoje, em que a informação circula de maneira cada
vez mais veloz e a indústria cultural se tornou onipresente.
A juventude mundial está ligada não apenas pelo culto
aos artistas ou esportes radicais do momento. As afinidades dos
jovens como consumidores vão muito além disso. Roupas
de certas grifes são objeto de desejo dos adolescentes nos
mais diversos países, assim como celulares, videogames, tênis...
Da mesma forma que criou uma ponte entre os jovens até mesmo
dos locais mais remotos do planeta, a globalização
para muitos deles tornou-se um fator de ansiedade, conforme revela
um estudo da Organização das Nações
Unidas sobre o tema. Como reação instintiva ao temor
da perda de identidade, eles acabam buscando o melhor de dois mundos:
abraçam as possibilidades oferecidas pela tribo planetária,
mas também sentem necessidade de se manter conectados à
cultura local. "É normal que o jovem, quando desorientado
pelo bombardeio de informações do mundo moderno, procure
apoio em suas raízes", diz a psicóloga Ceres Alves
de Araujo, professora da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. Num extremo, essa busca pode resultar em radicalização
pura e simples. Isso explica o recrudescimento do fundamentalismo
religioso em vários países, por exemplo. No mais das
vezes, no entanto, trata-se de algo natural e salutar. Uma pesquisa
de 2002 entre os jovens consumidores japoneses dá uma amostra
disso. Ela demonstrou que a maioria deles idolatra tudo o que diz
respeito à cultura ocidental, mas nem por isso renega os
hábitos e costumes tradicionais de seu país. O chá
verde algo mais tipicamente japonês, impossível
é uma das bebidas prediletas dos jovens do país,
o que deu origem a uma infinidade de produtos do gênero com
apelo para esse público.
No Brasil, não é diferente. Um levantamento realizado
no ano passado pelo instituto Ipsos, no qual foram entrevistados
pré-adolescentes de 11 a 12 anos, mostrou que os brasileiros
assim como os jovens de outros doze países pesquisados
são consumidores vorazes de marcas famosas internacionais.
Eles guardam um lugar no coração, entretanto, para
as grifes locais algo associado ao sentimento de comunidade.
Talvez em nenhuma área a importância da "cor" nacional
seja tão visível quanto na música. No melhor
figurino globalizado, os adolescentes do país ouvem, é
claro, muitos artistas estrangeiros, de Avril Lavigne ao grupo Linkin
Park. Mas o gênero predileto da juventude, de acordo com uma
pesquisa do Instituto Cidadania, é mesmo a velha e boa música
sertaneja.
 |
 |
PALESTINA |
 |
Adolescência
em
zona de
conflito
Ahmed
Hasna, de
16 anos, vive a adolescência num ambiente
de conflito. Ele é palestino e tem seu
cotidiano marcado pela disputa travada entre seus
conterrâneos e Israel. "Odeio a política,
mas ela insiste em invadir minha vida por todos
os lados", diz o jovem. Ahmed mora com os pais
em Jerusalém Oriental e está cursando
o colegial. Ele é apresentador de um programa
de rádio voltado à juventude de
origem árabe dos territórios ocupados.
"Discutimos problemas atuais, como a aids e as
drogas", explica. Para chegar à escola,
distante apenas 4 quilômetros de sua casa,
ele precisa passar por dois postos de segurança
do Exército israelense. Embora viva num
ambiente de alta tensão, Ahmed procura
levar a rotina de um adolescente normal de qualquer
parte do mundo. Das caixas de seu aparelho de
som saem hip hop, rock'n'roll e dance music a
todo o volume. Ele também pratica futebol
e basquete num parque em seu bairro. "Não
diria que tenho amigos íntimos israelenses.
Mas jogamos juntos numa boa", diz ele.
|
|
|
 |
 |
FRANÇA |
 |
Tradicional
e moderninha
Rogerio Altman
 |
Lola Gozlan, de 18 anos, é uma patricinha
à moda francesa. Estudante do último
ano do colegial numa escola de Paris, ela freqüenta
as casas noturnas da moda e é consumidora
de roupas de grife. "Há muita diferença
entre os moradores do subúrbio e os parisienses
de fato. O pessoal da periferia chega aqui mal
vestido e logo chama atenção",
diz a jovem, que tem no guarda-roupa marcas como
a Diesel. Os franceses são conhecidos pelo
nacionalismo e Lola não foge à
regra. "As tradições são
muito importantes. Fico chocada quando ouço
alguém de minha idade maltratar nossa língua",
diz ela. Como nenhum adolescente é de ferro,
a estudante cede à tentação
estrangeira quando o assunto é música
pop. Seus artistas prediletos são Radiohead
e Nirvana. A relação de Lola com
seus pais, que são divorciados, é
bem liberal. Ela tem autonomia para sair e pode
até dormir com o namorado. "Com minha
mãe não há problema. Já,
na casa de meu pai, ele não passa a noite.
Mas é mais por pudor meu", diz Lola.
|
|
|
 |
 |
ESTADOS
UNIDOS |
 |
Ser
jovem é carregar bandeiras
Tammy Ljungblad
 |
A
americana Angela Martellaro, de 16 anos,
pertence a uma categoria ruidosa: a dos adolescentes
engajados em lutas políticas. Vinda de
uma família de classe média do Estado
do Kansas, no Meio Oeste dos Estados Unidos, ela
milita em várias frentes. Pacifista, é
contra a Guerra no Iraque. Representante da Anistia
Internacional em seu colégio, também
está mergulhada na luta pelos direitos
humanos. "Hoje, há abusos em muitos
países e o jovem é uma das maiores
vítimas", denuncia Angela, que participou
da 4ª Cúpula Mundial de Mídia
para Crianças e Adolescentes, realizada
no Rio de Janeiro no fim de abril. Estudante do
ensino médio, ela sonha um dia em trabalhar
como jornalista. Em suas horas de lazer, Angela
freqüenta um bar de adolescentes em que se
ouve punk rock de preferência, com
letras carregadas de mensagem. Suas bandas favoritas
são aquelas que bradam contra o sistema
com o vigor típico dessa fase de ebulição
hormonal, como o Anti-Flag.
|
|
|
 |
 |
CHINA |
 |
Sou
chinês, mas podem
me chamar de Robert
Com apenas 14 anos de idade, Zhu Jiaxi
já é uma celebridade em sua
terra natal, a China. Apresentador de um programa
infantil popular na TV do país, ele chega
às casas de milhões de conterrâneos
todas as manhãs. Mesmo vivendo sob a repressão
de uma ditadura comunista, Zhu leva uma existência
de adolescente globalizado. Ele usa tênis
das marcas internacionalmente conhecidas, escuta
o pop de artistas americanos como Britney Spears
e adora jogar videogame. Além disso, gasta
boa parte de suas horas vagas na internet. Por
meio da rede, conquistou amigos em vários
países, da Itália ao Japão.
Em seus contatos com o exterior, usa um codinome
em inglês: Robert. Zhu faz questão
de manter, por outro lado, uma ligação
forte com suas raízes chinesas. "Aprecio
a filosofia de vida de meu país, pois ela
traz sabedoria e serenidade às pessoas.
E nossa culinária é a melhor do
mundo", diz ele.
|
|
|
|
|