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Fala
sério!
Pedro Rubens  |
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| Trechos
do debate em vídeo: | | | | | Os
quatro jovens da foto acima foram convidados por VEJA para um debate. Todos eles
são paulistanos e têm a mesma idade: 17 anos. Mas Isis, Ricardo,
América e Antônio vêm de camadas sociais diferentes e têm
cada qual seu modo de encarar a vida. Durante duas horas, eles discutiram seu
dia-a-dia e suas expectativas em relação ao futuro. À transcrição
da conversa entre os quatro, VEJA acrescentou comentários de seis adolescentes
de outras regiões do país. O resultado mostra como as diferenças
de origem marcam a vida dos adolescentes brasileiros mas também
revela que eles compartilham muitas preocupações e interesses. Entre
os assuntos desse bate-papo estão a escola, as dúvidas e os temores
em relação à carreira e ao mercado de trabalho, temas nacionais
como o perigo das drogas e a violência e detalhes do relacionamento dos
jovens com seus amigos e os pais. Veja
Vocês quatro estão saindo ou acabaram de sair da escola.
Qual o maior desafio que encontraram lá dentro? Isis
Meu maior desafio é conseguir "agüentar" as imposições
da escola [Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros]. Por exemplo,
faltei uma semana para participar da Cúpula Mundial de Mídia para
Crianças e Adolescentes. Quando cheguei, escutei "Você está
com falta", em vez de "Isis, onde você estava, o que estava fazendo?". A
escola não admite que é possível aprender fora dali.
América Mas numa escola tem muita gente. Como eles vão
diferenciar quem está fazendo uma coisa boa de um vagabundo que foi para
a praia? Isis Aí é que está: o papel da
escola é conhecer o aluno, não é ter um monte de pintinhos
para criar. Ricardo Para mim, o desafio foi conseguir aprender
o que não aprendia nas aulas. Não saí da escola [Estadual
Pedro Taques, em Guaianases] preparado para enfrentar nada, nem o mercado
de trabalho nem o vestibular. América Será que
alguém sai preparado? Ricardo Conheço pessoas
que estudaram em colégio particular e saíram. Minha escola era abandonada.
O professor não dava aula, o diretor não dirigia, o aluno não
aprendia. Até tinha sala de informática, mas a gente não
podia usar.
Veja Por quê? Ricardo
O diretor alegava que o governo dá os computadores mas não
dá o curso preparatório para um monitor de informática. Tentei
brigar por isso, mas, toda vez que queríamos entrar na sala, onde estava
a chave? O diretor tinha levado. Isis Existe um laboratório
de informática que é público, mas a chave desse laboratório
é privada, é do diretor. Antônio Na minha
escola, que é particular [colégio Pueri Domus, em Aldeia da Serra],
vivi a mesma coisa, justamente no centro de informática. Estava lá,
mas ninguém podia usar. "A gente precisa usar para fazer trabalho", dizíamos.
Mas só as crianças pequenas e o pessoal do colégio podia,
porque dá para vigiá-los o tempo todo. América
Eu gostei muito da minha escola [PlayPen, nos Jardins. Hoje, América
está no ensino médio na Fundação Armando Alvares Penteado,
Faap]. Fui a várias exposições de arte, cursos de redação,
feira do livro. Ricardo Na minha escola, a única excursão
era para o Playcenter. Isso é horrível. Veja
O que a escola despertou de melhor em vocês?
Antônio
A vontade de aprender. Alguns professores fazem a diferença.
Eles passam matérias de um jeito especial e você fala: "Nossa, esse
negócio de física é legal, tenho de aprender". América
Comigo também já aconteceu de ter um professor muito
bom, que me estimulou a me aprofundar numa coisa de que eu não gostava.
Ricardo Resolvi encarar as deficiências da minha escola como
um desafio pessoal. O que ela não me desse, eu ia conseguir sozinho. Decidi
entrar num curso técnico de eletricidade no Senai. Era uma prova difícil,
mas estudei por minha conta, inclusive coisas que não tinha aprendido na
sala de aula, até conseguir passar. Isis Uma coisa que
aprendi e tento levar para outros lugares é que a escola propicia um convívio
com o mesmo grupo durante muito tempo, em diversas situações, o
que é uma coisa muito legal. Quando a gente estuda, não tem só
de estudar. Tem de brincar também, tem de fazer outras coisas. Quando trabalha,
não tem só de trabalhar. Veja
A América está pensando em cursar direito. O Ricardo
vai prestar arquitetura. O Antônio quer estudar administração
pública e a Isis, geografia. Quais os obstáculos para vocês
chegarem aonde planejaram? Ricardo
O maior obstáculo é o dinheiro. Se eu tivesse dinheiro
agora, faria um bom cursinho e, por conseqüência, passaria no vestibular.
Isis Para mim, o vestibular. Escolhi geografia como um curso "portal",
que me apresenta várias áreas que quero descobrir e conhecer. Não
estou atrás de profissão. América Eu gostaria
muito de entrar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que
dizem que é a melhor do país e tem uns professores bicudos [muito
bons]. Meu pai nem cogita que eu faça outra faculdade. Ele acha que
é fácil entrar na USP. Esse é o meu obstáculo: tenho
uma cobrança e preciso estudar muito para conseguir entrar naquele curso
em particular. Veja
Alguém mais se sente pressionado pelos pais?
Ricardo
Minha mãe também acha que é fácil entrar
na faculdade e arrumar emprego. Se eu me esforçar, até é
possível. Mas o problema volta a ser o dinheiro. Na USP, o curso de arquitetura
é integral. Não dá para fazer faculdade o dia inteiro e trabalhar
para me sustentar. Veja
Vocês acreditam que exista hoje em dia um desafio comum a
todos os jovens brasileiros? Ricardo
Conseguir o primeiro emprego é um desafio para todo mundo. Mesmo
que você faça a melhor faculdade, é difícil entrar
no mercado. Vejo pessoas que se matam de estudar, se formam e depois não
conseguem nada. Isis O maior obstáculo, de que muitas
vezes ninguém se dá conta, é encontrar o que realmente se
quer fazer, e não aquilo que o pai cobra ou que dá dinheiro. Vejo
isso na minha escola. Todo mundo quer conseguir um emprego, não importa
qual. Essa realidade de não conseguir o primeiro emprego é da classe
social menos favorecida. Antônio Não acho. Tenho
uma amiga que faz direito na Faap, uma faculdade cara e respeitada. Mas ele também
tem dificuldade para conseguir um emprego. Veja
Conseguir o primeiro emprego, então, é a idéia
que assusta? Isis
A mim, não. Porque eu já trabalho, estou há vários
anos na ONG Cala-Boca Já Morreu. América Acho
que consigo, mas fico com medo. Ricardo O primeiro emprego
é por influência, pelo "QI", o "quem indica". Eu fiz Senai, que é
uma boa escola técnica. De todos os colegas da minha classe, só
dois conseguiram estágio. O pai de um e o conhecido do outro trabalhavam
na empresa em que eles conseguiram a vaga. Eu me sinto bem preparado e mesmo assim
não consigo emprego.
Veja Antônio, sua família tem uma das maiores empresas
do Brasil, o Grupo Votorantim. Isso faz com que você se sinta seguro com
relação ao primeiro emprego? Antônio
Os valores da minha família são os mesmos da empresa
e me identifico com eles. Não quer dizer que estou predestinado a trabalhar
lá. Estamos na quarta geração, muitos bisnetos. A política
da empresa não é contratar todo mundo. Se eu for um cara bom no
mercado, capacitado, eles me chamam.
Veja Vocês se comunicam bem com a família? Ela
entende suas vontades, gostos, hábitos?
América
Minha mãe teve uma juventude insana. Por tudo que ela viveu,
ela me entende. Antônio Em casa, acontecem conflitos na
questão ideológica. Outro dia tive aula sobre a Revolução
Cubana, a guerrilha de Che Guevara e Fidel. Meu pai começou a falar um
monte, que eles mataram muita gente, e eu dizendo que queria ser guerrilheiro.
Isis Eu aprendi até a trabalhar com meus pais, então
dá para falar sobre tudo numa boa. Veja
Tudo mesmo? Isis
Bom, nem tudo. Na hora de falar sobre relacionamento, é mais
complicado. Por exemplo: eu estava namorando um menino de Brasília. Era
para eu ter passado o Carnaval lá, mas aí veio um "Não, você
não vai ficar na casa do seu namorado". Veja
Para vocês, o que é se divertir? Isis
Para mim, não importa onde esteja, se for com pessoas de que
eu gosto, num clima bom, já está legal. Dançar é um
prazer, o flamenco na academia e o forró na balada. Computador também
é divertido. Tenho muitos amigos de longe e fico na internet com eles o
dia inteiro. Antônio Sair com os amigos e com a namorada,
ir a um restaurante, ao cinema. E tocar. Os ensaios com a banda eram bem divertidos,
todo fim de semana a gente tocava em bares. Gosto de dançar na balada,
mas parei um pouco para estudar. América Estar com a
galera onde for. O melhor lugar é a Praia da Baleia, aqui no Litoral Norte
de São Paulo. Ricardo Prefiro me divertir sozinho, em
casa, desenhando, lendo e vendo televisão. Às vezes vou ao shopping
ou ao cinema. Veja
Vocês são viciados em celular? América
Imagina, você acha? Uso o dia inteiro. E não é
seguro uma menina em São Paulo sem celular, incomunicável com a
mãe. E se acontece alguma coisa comigo? Isis Esse aqui
é a minha vida! Todas as minhas informações importantes estão
aqui. Mensagens e joguinho também, é o tempo todo. Ricardo
Quando eu estiver trabalhando, pretendo comprar um. Antônio
Não dá para viver sem. Veja
Quem é o grupo de amigos de vocês?
América
Essa história de tachação é muito tosca.
As pessoas acham que porque você estuda na Faap é páti [patricinha].
Tenho amigas pátis que são fúteis e outras não. Minha
amiga com a cabeça mais insana é uma perua. E daí?
Isis Todo mundo fala: "Você é do grupo dos politicamente
corretos, é ativista". Não é assim! Eu sou normal. Não
vivo só para trabalho. Eu e meus amigos temos em comum o interesse em participar
de discussões mais sérias, que as pessoas de nossa idade não
estão a fim. Ricardo O pessoal da minha rua não
quer saber de estudar ou trabalhar. Eles me chamam de careta: "Em vez de ficar
aqui na rua zoando, fica indo atrás de curso, maior trouxa". Antônio
Eu era do grupo dos metaleiros. Agora estou no grupo da Isis, quero
discutir as coisas. Às vezes me chamam de "menino ONG", e isso me irrita.
América O meu é o grupo dos "sussas" [sossegados].
A gente conversa de vários assuntos, gosta de ir à praia, gosta
de sair. Mas a balada em São Paulo está muito ruim...
Veja Vocês
ficam preocupados com a violência quando saem de casa?
América
Um pouco. Outro dia a bruxa estava solta. Meu amigo teve a casa roubada
de manhã. À noite, um outro amigo foi assaltado dentro do carro
na minha frente. Isis Já fui assaltada duas vezes e
não sou nem um pouco neurótica por causa disso. Ricardo
A minha história é diferente. Numa escola em que estudei sempre
teve droga e violência. Um aluno ameaçou o diretor de morte. Minha
mãe queria me tirar de lá a qualquer custo. Veja
Agora que você não está estudando mais nessa
escola, ainda se sente ameaçado? Ricardo
Mais ou menos. Porque você liga a televisão à tarde
e vê: "Estudante é morto por policial". Dá um pouco de medo,
sim. Antônio Uma vez, me assustei. Uns hackers entraram
no site da minha banda e deixaram uma foto de caras armados e encapuzados, com
um texto do tipo "Riquinhos têm de morrer". Acho que era coisa do cara que
tinha sido expulso da banda.
Veja O fato de não ter alguma coisa material já causou
angústia em vocês? Antônio
No caso do celular, sim. Todos os meus amigos tinham, menos eu. Estava
na minha cabeça: "Preciso comprar um celular, preciso". Acho que tinha
um pouco de pressão do grupo e da mídia. América
Vejo roupas maravilhosas o dia inteiro, as mais lindas e caras. Tem
dias em que penso: "Se estivesse usando aquilo, eu ficaria muito melhor".
Veja
Quais os planos de vocês para o futuro? Ricardo
Já tentei planejar meu futuro, mas depois olhei a realidade
e percebi que meu plano era fantasia, ilusão. Isis Já
fiz muitos planos e mudei todos. Parei com essa nóia [paranóia]
de falar: "Pronto, decidi, vou fazer isso". Sei o que quero fazer, mas não
sei quando vou fazer. Antônio Fiz planos com a ajuda
da caçadora de talentos da empresa do meu avô. No 3º ano da
faculdade quero fazer intercâmbio para aprender francês. Também
pretendo dedicar um ano ao empreendedorismo social e depois procurar emprego na
área de recursos humanos de uma boa empresa. Quero fazer pós-graduação
em administração de negócios no exterior. Pensar no que vou
fazer daqui a cinqüenta anos me ajuda a saber qual o meu sonho. Depois a
gente vê a realidade. Sonhar o impossível e fazer o possível.
Quem foi que disse isso mesmo? | |