| |
André Penner
 |
É
preciso ter autoridade
"Se
forem omissos por medo de perder o amor
dos filhos, os pais correm o risco de ser
menosprezados e ignorados"
Ser
pai nos dias de hoje não é fácil. O mundo está
cheio de opções, e até tarefas aparentemente
simples, como escolher um tênis para presentear o filho, são
complexas. Trinta anos atrás existiam apenas cinco marcas.
Hoje são dezenas. Na hora de comprar o calçado, o
pai precisará avaliar se ele será usado para correr,
para andar no mato, para sair à noite ou para jogar basquete.
Precisa lembrar se o filho pisa com o joelho virado para dentro
ou para fora, se a perna de impulsão é a direita ou
a esquerda. Esse enorme leque de opções se repete
no processo de educação e formação do
adolescente. Os pais têm de enfrentar desde a escolha do modelo
de escola ideal até o dilema de deixar ou não a namorada
dormir no quarto dele. A boa educação, hoje, implica
ter posição formada sobre cada um desses assuntos.
As variáveis são tantas que os pais precisam ser extremamente
cuidadosos para que a postura adotada com relação
a um aspecto da vida do jovem não entre em contradição
com a adotada em outro. Nesse ponto, a conduta no que se refere
aos filhos é como um bambu. Ele pode ser vergado para cá
e para lá ao sabor das mudanças mas não
pode ser quebrado a toda hora.
Um
aspecto crucial na educação é a autoridade.
Muitos pais temem perder o amor dos filhos se forem firmes nas regras
e nas cobranças. Todo mundo sabe que adolescente contrariado
é encrenca na certa. Como uma criança birrenta, ele
reclama, briga e faz escândalo, dentro de uma escala proporcional
a seu tamanho. Nesse ponto os pais não podem ceder. Precisam
estar conscientes de que, como todo mundo, os jovens não
dão afeto a pessoas que não respeitam. Se os pais
forem omissos e ficarem quietos por medo de perder o amor do filho,
correm o risco de se ver menosprezados e ignorados. Aí o
afeto e a cumplicidade que eles queriam preservar acabam se esvaindo
completamente. Um pai ou uma mãe que engole os próprios
princípios e se cala a cada malcriação dá
um atestado de que não se respeita, e os filhos entendem
isso como um sinal para que não o respeitem também.
Engolir sapo significa deseducar, com grande probabilidade de estar
criando um pequeno tirano dentro de casa.
Exercer
autoridade de pai e de mãe exige sabedoria. Os limites precisam
ser sempre colocados em função de algo e exercidos
visando ao bem-estar de toda a família. Necessitam estar
a serviço da qualidade de vida e da educação
do filho, nunca de um capricho. Muitos pais acreditam que dar o
bom exemplo é suficiente, o que não é verdade.
Sem uma determinação clara, os filhos não o
perceberão e não o seguirão. No outro extremo,
abusar de proibições e punições por
si só também não funciona. Os filhos precisam
aprender, e cabe aos pais ensinar. Se um filho não quer estudar,
não adianta nada os pais se valerem de seu poder, trancá-lo
no quarto e obrigá-lo a sair com a matéria decorada.
O adolescente não vai estudar e pronto. Por outro lado, os
pais podem negociar e dizer que ele vai poder sair, fazer o que
quiser, desde que lhes explique o assunto que precisa estudar com
suas próprias palavras. Ele terá então estímulo
para se debruçar sobre os livros e até se abrirá
um canal para que esclareça dúvidas com a ajuda dos
pais. Muitas vezes o jovem não estuda simplesmente porque
não entende a matéria. Esse é um bom exemplo
em que a autoridade estaria sendo usada para a evolução
do filho. A maioria dos pais, quando exerce autoridade, simplesmente
proíbe o que o filho gosta de fazer. Na verdade, eles deveriam
reorientar momentaneamente a energia que o adolescente gastaria
numa atividade para outra. Sempre é possível mudar
para melhor. O filho pode ser o folgado que se apóia no sufocado.
Nesse caso, a mudança tem de vir do sufocado, pois, se estiver
bom para o folgado, ele irá querer ficar nessa posição
para todo o sempre, amém!
O
ser humano é o único que pode mudar sua história,
pois tem inteligência e criatividade. Basta acrescentar a
motivação.
Içami
Tiba
é psiquiatra e autor de catorze livros,
entre eles Quem Ama, Educa! e Anjos Caídos
|
|