O desafio
da conversa
Os
pais que foram jovens em
1970 sabem pouco sobre o mundo
das drogas no século 21
Fabiana
Corrêa
O
filme Traffic, vencedor de quatro Oscar, provocou discussão
ao tocar num assunto delicado: como falar de drogas com um filho
adolescente. Na trama, o personagem de Michael Douglas é
destacado para comandar uma operação antitráfico
do governo americano. Desiste quando descobre que não conseguiu
evitar que as drogas entrassem na própria casa. Sua filha
única vicia-se em crack. O
filme contraria o clichê "pais ausentesfilhos drogados".
O personagem de Douglas e a mulher formam um casal exemplar: inteligentes,
abertos ao diálogo, típicos representantes da geração
que foi jovem nos anos 60 ou 70. Ou seja, gente que provou drogas
na adolescência. Curiosamente, mesmo assim, o casal não
consegue falar no assunto com os filhos.
É
um problema mais comum do que se pensa. O mundo das drogas transformou-se
radicalmente e o pessoal com mais de 40 anos se sente desnorteado.
Algumas mudanças:
As drogas hoje são mais fortes e viciam mais. Estudos mostram
que a concentração de tetraidrocanabinol, princípio
ativo da maconha, é muito maior hoje do que há trinta
anos.
Antigamente, a maioria dos jovens começava a tomar drogas
no período de faculdade, ou seja, depois dos 17 anos. Hoje,
a idade média da primeira experiência caiu para 13
anos.
O mundo das drogas desconectou-se da histórica associação
com a rebeldia e passou a ser um negócio pragmático
e próximo da marginalidade. Em Traffic, Michael Douglas
choca-se ao ver a filha dormindo num pardieiro para ter acesso a
entorpecentes.
Diante desse panorama, muitos pais partem para duas soluções
extremas. Ou se tornam repressores e policialescos, ou invocam seu
passado liberal e tentam se tornar "amiguinhos" dos filhos, conversando
sobre maconha e cocaína de forma descontraída. Ambas
as atitudes, segundo os especialistas, estão erradas
especialmente a segunda, que pode levar os pais a perder a autoridade.
Além desses, existem vários erros na abordagem do
assunto drogas que podem ser evitados. Não existe, no entanto,
uma fórmula certa. Cada caso é um caso. Talvez seja
por isso que o filme Traffic deixou os pais de adolescentes
com um frio na barriga.
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