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Minidicionário
para entender as crises
Todos
os dias, ao lermos jornais e revistas ou ao assistirmos ao noticiário,
deparamos com uma lista de termos econômicos e financeiros
aparentemente indecifráveis. Para ajudar na "tradução"
de algumas das expressões publicadas com maior freqüência,
Paulo Sandroni*, professor de economia da Fundação
Getúlio Vargas de São Paulo, preparou para VEJA
um glossário. Com suas explicações simples
e claras, ficará mais fácil compreender o que está
acontecendo nesse mercado turbulento
*Autor
dos livros Traduzindo o Economês e Novíssimo
Dicionário de Economia
e criador do jogo em CD-ROM Brincando de Ministro, o Jogo
da Economia Brasileira
ATAQUE
ESPECULATIVO Leões, quando atacam um grupo de
zebras, escolhem sempre a mais lenta, a mais fraca, em suma, a mais
vulnerável e fácil de ser capturada. Com as moedas
acontece a mesma coisa. Se os investidores desconfiarem que o real
vai ser desvalorizado, eles com os reais que possuem
buscarão comprar moeda forte, como o dólar. Com o
aumento da procura por dólar, a cotação da
moeda americana sobe e a do real cai. Para evitar que a desvalorização
aumente mais, o governo usa suas reservas em dólar para aumentar
a oferta e baixar seu preço, valorizando o real. Se as reservas
não forem suficientes, o governo perde o controle da taxa
de câmbio. O leão devora a zebrinha.
AVERSÃO
AO RISCO
É a atitude de quem não quer correr riscos. Mas as
pessoas têm comportamentos diferentes, umas tendem a correr
mais riscos que outras. Os mercados financeiros não funcionariam
se não existissem tais diferenças. Quando a situação
econômica e financeira vai mal e a maioria experimenta perdas,
a aversão ao risco cresce. Os investidores se deslocam para
aplicações em títulos que ofereçam grande
segurança, embora com baixa rentabilidade. No jargão
financeiro, essa postura se chama "dançar com a irmã",
isto é, preferir não correr riscos.
BALANÇA
COMERCIAL
É um dos componentes da chamada Conta do Balanço de
Pagamentos em que são registrados os valores das exportações
e das importações. É importante que as exportações
superem as importações para se obter um superávit
nessa balança. A razão é simples: com esse
superávit, o país torna-se menos dependente de empréstimos
e financiamentos externos. (Leia também Balanço
de Pagamentos.)
BALANÇO
DE PAGAMENTOS É o registro de todas as transações
de caráter econômico-financeiro de um país com
o resto do mundo. É constituído basicamente de quatro
contas ou balanças: a balança comercial (exportações
e importações), a de serviços (fretes, seguros,
viagens internacionais, remessa de lucros, juros etc.), as transferências
unilaterais (envio para o país de dinheiro de brasileiros
residentes no exterior ou envio de dinheiro para o exterior feito
por estrangeiro residente no país, donativos etc.), e o movimento
de capitais (investimentos diretos feitos por empresas multinacionais,
empréstimos e financiamentos obtidos fora do país,
pagamentos de parcelas da dívida externa etc.). Apesar do
superávit na balança comercial, o conjunto do balanço
de pagamentos apresenta déficit, o que torna a economia brasileira
muito dependente de recursos externos.
BRADIES
É o apelido que foi dado aos títulos resultantes da
renegociação da dívida externa brasileira em
1994 logo após a adesão do Brasil ao Plano Brady.
Esse plano foi idealizado por Nicholas Brady, ex-secretário
do Tesouro dos Estados Unidos. O plano conseguiu refinanciar vários
países endividados ao propor aos bancos credores que abrissem
mão de uma parte dos créditos para receber em troca
novos títulos garantidos por papéis do Tesouro dos
Estados Unidos considerados de risco zero pelo mercado. Os
mais significativos são os C-Bonds, tidos como uma espécie
de termômetro da saúde da economia brasileira. (Leia
também C-Bond.)
CÂMBIO
FLUTUANTE
Quando o valor da moeda de um país varia diariamente de acordo
com o valor das moedas fortes dólar, euro com
as quais ela se relaciona, dizemos que esse país tem câmbio
flutuante. O valor das moedas fortes depende da oferta e da demanda.
Se a procura por dólares é maior que a oferta
como tem acontecido em 2002 no Brasil , a taxa cambial sobe,
isto é, para comprar moeda forte há necessidade de
uma quantidade maior de reais. Se a demanda é inferior à
oferta, a cotação do dólar cai. Nesse caso,
o dólar fica mais "barato" e pode ser comprado com menor
quantidade de reais. Mas as flutuações não
ficam exclusivamente por conta do mercado. Quando as oscilações
são muito fortes, o Banco Central intervém vendendo
ou comprando moeda para evitar que as cotações subam
(ou desçam) demasiadamente. E quando há intervenção
do governo diz-se que a flutuação é "suja".
C-BOND
É um tipo de título da dívida externa brasileira
(um documento mantido pelo investidor, que é o credor do
empréstimo, e que lhe rende juros). As cotações
desses títulos indicam a credibilidade dos investidores no
futuro da economia brasileira, na capacidade que o Brasil terá
para pagar a quem investiu num título desse tipo. Quando
a credibilidade diminui, a cotação dos títulos
cai, acontecendo o inverso quando as coisas melhoram. Nos últimos
meses, essas cotações caíram bastante. (Leia
também Bradies.)
CONTAS
DO GOVERNO
Contas nas quais são registradas as despesas e receitas do
governo, tais como os gastos com pessoal, consumo, investimentos,
juros e receitas, como as tributárias (imposto de renda,
IPI, CPMF etc.). A análise das contas é importante
porque os resultados indicam se haverá equilíbrio,
déficit ou superávit.
DEFAULT
Quando um devedor não consegue pagar sua dívida externa
no vencimento e a demora ultrapassa noventa dias, o credor o declara
em "default". Foi o que aconteceu com o Brasil em 1982 e 1987 e
com a Argentina em 2001. Quando isso acontece, ou na iminência
de acontecer, o país solicita um empréstimo emergencial
ao FMI, que poderá ou não ser concedido. Se o país
não receber o empréstimo ou se não conseguir
pagar o que deve, ele fica marginalizado pelo mercado financeiro
internacional.
DÍVIDA
INTERNA
É constituída de títulos da dívida pública
emitidos pelo governo geralmente para cobrir o déficit público
existente em suas contas (já que ele costuma gastar mais
do que arrecada). A alternativa seria emitir moeda para cobrir essa
diferença, mas isso provocaria um aumento da inflação.
Um governo deve evitar que a dívida interna cresça
muito, pois pode-se estabelecer um círculo vicioso: o déficit
exige a emissão de novos títulos, aumentando a dívida
interna. E os juros pagos por essa dívida provocam novo déficit
e assim por diante.
DOW
JONES
Índice utilizado para acompanhar a evolução
dos negócios na Bolsa de Valores de Nova York. Como essa
bolsa reflete em grande medida a saúde da economia dos Estados
Unidos, esse índice dá uma idéia se os negócios
estão indo bem ou mal naquele país. Seu cálculo
é feito a partir de uma média das cotações
entre as trinta empresas industriais de maior importância
na bolsa de valores, as vinte companhias ferroviárias mais
destacadas e as quinze maiores empresas concessionárias de
serviços públicos.
EFEITO
GREENSPAN
Originado no sobrenome do presidente do banco central americano,
significa a influência que as declarações e
ações de Alan Greenspan provocam nos mercados financeiros.
Quando ele anunciava, no final dos anos 90, elevações
das taxas de juro para desaquecer a economia e segurar a inflação,
as cotações das ações na Bolsa de Valores
de Nova York e o Índice Dow Jones tendiam a cair.
EFEITO
MANADA Diante
de um perigo real ou imaginário, as pessoas costumam agir
como o gado que, assustado, desembesta para fora do curral e todo
o rebanho marcha numa direção sem que se saiba o porquê.
Esse comportamento, observado com freqüência nos mercados
financeiros, pode causar grandes estragos, provocando efeitos desproporcionais
às causas reais existentes. O "Efeito Manada" pode, por exemplo,
reduzir as cotações das ações de uma
empresa cujo desempenho não era tão ruim, levando-a
à falência ou um mercado inteiro à depressão.
FRAUDE
CONTÁBIL
Fraudes cometidas na contabilidade das empresas para ocultar grandes
perdas ou para influenciar artificialmente as cotações
de suas ações nas bolsas de valores. Essas fraudes
são muito comuns em momentos de prosperidade. A espuma do
enriquecimento geral muitas vezes encobre o que está realmente
acontecendo com certas empresas. Quando há alguma crise,
essas fraudes costumam vir à tona, provocando grandes abalos
nos mercados financeiros e na confiabilidade das pessoas, como aconteceu
recentemente com a Enron nos Estados Unidos.
Paulo Pinto/AE
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HAJA
CORAΗΓO
O Ibovespa acumulou perdas de 25,1% atι outubro de 2002 |
IBOVESPA OU ÍNDICE BOVESPA
É o índice da Bolsa de Valores de São Paulo.
Ele expressa a variação das cotações
das 55 ações mais importantes e mais negociadas na
bolsa de valores, como as da Petrobras, as da Vale do Rio Doce etc.
O crescimento desse índice significa que as ações
em geral estão indo bem. A diminuição representa
uma queda geral das cotações das ações
mais negociadas na bolsa.
METAS
INFLACIONÁRIAS
Os empresários, investidores e agentes financeiros necessitam
ter uma previsão do futuro econômico de um país
com certo grau de segurança. Entre esses indicadores destaca-se
quanto será a inflação num determinado ano.
Assim, o governo estabelece uma meta inflacionária e isso
serve como referencial para todos os agentes econômicos. No
Brasil, depois da desvalorização do real diante do
dólar no início de 1999, o governo adotou o sistema
de metas inflacionárias. Essas metas foram cumpridas relativamente
bem em 1999 e em 2000. Em 2001, no entanto, a inflação
foi superior à meta estabelecida e provavelmente ocorrerá
o mesmo em 2002.
MORATÓRIA
Declaração
unilateral do devedor anunciando que não pagará uma
dívida nos prazos, nas taxas de juro e nas demais condições
estipuladas nos contratos. Pode começar com o que se chama
de alongamento unilateral da dívida, que é o não
pagamento da dívida no prazo estabelecido. Na prática
é um calote, pois sendo unilateral significa que não
houve consulta ou negociação com o credor para mudar
o vencimento do contrato de dívida. Trata-se de medida extrema
que, em geral, bloqueia novos empréstimos externos para o
país que toma atitude semelhante. (Leia também
Default.)
Stephen Chernin/AP
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NASDAQ
ELETRÔNICA
Considerada a vedete dos anos 90, hoje representa risco |
NASDAQ É
a bolsa eletrônica criada em 1971 nos Estados Unidos. A grande
diferença em relação à bolsa de Nova
York é que nela não existe o pregão, isto é,
não há aquele salão onde os operadores ficam
aos berros vendendo e comprando ações. Os operadores
acompanham as cotações dos títulos em terminais
de computador e realizam suas operações por meio deles.
A Nasdaq se notabilizou pelo seu crescimento vertiginoso durante
os anos 90, pela prosperidade do mercado de ações
em geral e, em especial, pelas operações com as ações
de empresas de internet, as chamadas pontocom. Com a decadência
dessas empresas e de suas respectivas ações, seus
índices caíram na mesma velocidade com que haviam
subido.
PRIME
RATE É a taxa básica de juro da economia
americana. É a taxa paga a quem aplica em títulos
de primeira linha, que têm risco praticamente igual a zero,
como os emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos. Como é
um título muito seguro, seu rendimento é muito baixo.
Ela é usada como referência para o cálculo de
risco de outras aplicações menos conservadoras.
POLÍTICA
MONETÁRIA Medidas adotadas pelo governo visando
a adequar a quantidade de moeda disponível no país
às necessidades das empresas e do público em geral
para realizar seus negócios. Essa adequação
geralmente leva em conta três objetivos: evitar o crescimento
da inflação, impedir que a escassez de moeda eleve
a taxa de juro e manter estável a taxa de câmbio. Na
maioria dos países, o principal órgão executor
da política monetária é o banco central.
REALIZAÇÃO
DE LUCROS
A realização de lucros ocorre quando, numa fase de
alta das bolsas, os investidores se convencem de que as cotações
de suas ações já subiram o bastante e chegou
o momento de vendê-las. A realização de lucros
decorre da apuração da diferença entre o preço
de compra e o de venda.
RISCO
BRASIL
É o risco de o Brasil não pagar sua dívida
externa. Esse risco é medido por meio da comparação
entre a taxa de juro que os investidores exigem para comprar títulos
de nossa dívida externa, como os C-Bonds por exemplo, uma
das mais altas do mundo, e os juros pagos pelos títulos de
dívida emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos, um dos mais
baixos do mundo. O risco Brasil atualmente é um dos mais
altos no mercado financeiro internacional. (Leia também
C-Bond.)
ROLAGEM
DA DÍVIDA
Rolar uma dívida significa na prática empurrar seu
vencimento para a frente. Isso acontece porque muitas vezes o devedor
não consegue pagar a dívida no prazo estipulado
o que não é bom sinal para o credor. Para aceitar
a prorrogação do prazo, o credor, em geral, exige
um aumento das taxas de juro que o devedor terá de pagar.
SUPERÁVIT
PRIMÁRIO
É a diferença positiva entre receita e despesa, sem
considerar o pagamento de juros como parte das despesas. Mas como
o valor desses juros é muito alto, o resultado final das
contas do governo tem sido um déficit, o que tem alimentado
o crescimento da dívida interna. (Leia também Dívida
Interna.)
TAXA
SELIC
A sigla Selic significa Sistema Especial de Liquidação
e Custódia. Essa taxa é uma média dos juros
que o governo paga aos bancos que lhe emprestam dinheiro. Ela serve
de referência para outras operações financeiras
no país e por isso é chamada taxa de juro básica.
Quando o governo quer tirar dinheiro do mercado e dificultar as
operações financeiras especulativas da economia, eleva
a Taxa Selic, pois com isso fica mais interessante investir em aplicações
financeiras que são remuneradas com base nessa taxa de juro.
VOLATILIDADE
Existem produtos que expostos ao ar se volatilizam mudando rapidamente
seu estado, como a acetona, por exemplo. Nos mercados financeiros,
volatilidade significa algo parecido: a intensidade e a freqüência
das alterações dos preços de diferentes investimentos,
como dólar, ações, títulos da dívida
etc. Em épocas de crise ou de repentina insegurança,
a volatilidade aumenta e os índices das bolsas de valores
variam intensamente todos os dias. É exatamente o que tem
acontecido nos últimos meses no Brasil.
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