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Aprenda com
eles a ficar frio
Por
treino ou profissão, os especialistas enfrentam
as ondas do mercado com uma calma inexplicável
para a maioria dos mortais
Por
Laura Somoggi
Montagem sobre foto de Claudio
Rossi
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FRIEZA
NECESSÁRIA
O colunista econômico Joelmir Beting consegue ver as flutuações
do mercado sem se deixar contaminar pela temperatura de cada
fato novo |
Todos
os dias, lê-se algo sobre o sobe-e-desce do mercado financeiro,
o medo dos efeitos de uma guerra para a economia mundial e a ameaça
de volta da inflação no Brasil. Na maioria das pessoas
essas notícias provocam angústia e preocupação.
Por treino, formação ou profissão, um grupo
de pessoas muito especiais consegue encarar as ondas do mercado
com uma frieza incompreensível para grande parte dos mortais.
Fazendo uma analogia, seria possível dizer que é o
mesmo que ocorre com um enfermeiro de UTI que sabe diferenciar um
espasmo de um paciente de um caso realmente grave.
Quem
melhor encarna esse dom especial é o colunista de economia
Joelmir Beting. Com quase quarenta anos de experiência no
ramo, consegue ver as flutuações do mercado com distanciamento,
sem se deixar contaminar pela temperatura de cada fato novo. "Procuro
não fazer análises logo que o fato acontece", diz
Beting. "Sou o jornalista do pão amanhecido. Acho melhor
esperar uma semana, um mês até formar uma opinião
a respeito do assunto sobre o qual vou escrever."
A
velocidade, a diversidade, a quantidade e a intangibilidade dos
movimentos do mercado atrapalham a avaliação de curto
prazo. Os mercados funcionam 24 horas no mundo e geram notícias
num ritmo alucinante. O truque de Beting é ignorar a maioria
desses factóides. "Eu nem tomo conhecimento do que dizem
as agências que avaliam o risco do país", afirma. "O
risco país noticiado nada mais é do que o risco de
um título brasileiro negociado lá fora. Ele não
pode ser traduzido como um risco do sistema social brasileiro, dos
bancos ou das montadoras que estão aqui. Não é
o risco de um país, e sim de um papel. O risco Brasil não
pode ser duas vezes o risco Colômbia..."
Mais
do que isso. Segundo Beting, o retrato do Brasil real é,
em geral, muito mais saudável e sólido do que os profissionais
financeiros pensam. "O que acontece é que a expectativa de
crise provoca a crise, o que, por sua vez, sanciona a expectativa",
diz o jornalista. "O problema é que o inverso não
funciona. Como dizia o economista James Tobin (ganhador do Prêmio
Nobel de Economia em 1981, que faleceu em março deste ano),
a grande questão é que o pessimismo contamina os mercados
e obriga os agentes a tomar decisões, enquanto "o otimismo
é contemplativo, e as pessoas não agem motivadas por
ele".
Sergio Castro/AE
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TERMÔMETRO
SEM FEBRE
Os operadores da bolsa se agitam e gritam tanto nos momentos
de calmaria quanto nas crises agudas. A reação
deles não reflete o mundo real |
Outro tipo de profissional consegue manter a calma diante de fenômenos
econômicos que tiram o sono da maioria das pessoas. Esse profissional
é justamente aquele que é notícia, ou seja,
uma pessoa que faz parte do mercado financeiro. Integram esse grupo
executivos de grandes bancos, diretores das áreas de investimentos
e gestores de recursos. Esses profissionais se obrigam a acompanhar
de perto as oscilações dos indicadores da economia.
Afinal, elas servem como base para as tomadas de decisão,
que envolvem milhões de reais. E como será que eles
lêem as manchetes que tanto nos causam apreensão? "O
noticiário, em geral, não traz novidades", diz Geraldo
Carbone, presidente do BankBoston no Brasil. "Os jornais contam
o que ocorreu na véspera, muitas vezes descrevem fatos que
os profissionais do mercado já tiveram acesso nas agências
de notícias no dia anterior."
Quem
trabalha com decisões financeiras no dia-a-dia conhece melhor
os efeitos de uma queda de 5% da bolsa ou da quebra de uma grande
empresa. "Falo com muita gente, leio relatórios de analistas.
A iminência da concordata da WorldCom (empresa de telefonia
americana), por exemplo, era sabida por muitos de nós", afirma
Reinaldo Zakalski, diretor da Boutique de Investimentos, distribuidora
de fundos de investimentos. "Além disso, procuro não
me ater a fatos isolados, mas, sim, a tendências. Depois do
caso da WorldCom, a bolsa já subiu, já caiu e voltou
a subir. Foi um fato importante no dia em que ocorreu, porém
não teve importância como tendência."
E
uma notícia de queda recorde da Bolsa de Nova York com fotos
de operadores de mercado com cara de que estão perdendo a
guerra? Não preocupa esses profissionais? Com a palavra Carlos
Henrique Mussolini, diretor sênior da área de investimentos
do Banco Itaú. "A queda em si não traz grandes conseqüências
para a economia", explica. "Mas, como grande parte dos americanos
investe em ações, se eles perdem dinheiro, tendem
a consumir menos. Conseqüentemente, a economia americana pode
se retrair. Isso, sim, afeta a economia mundial, e logicamente a
economia brasileira. Se a queda da bolsa não mexer no nível
de consumo da sociedade, ela é um fato limitado ao mercado
financeiro."
É
claro que, para quem não tem no mercado o ganha-pão,
essas relações entre os fatos não é
tão evidente. Daí a dificuldade em se manter imune
ao que, num primeiro momento, pode parecer uma catástrofe.
Para Luís Eduardo Assis, principal executivo da área
de investimentos do banco HSBC, uma queda das bolsas é sempre
uma péssima notícia. Mas isso deve ser relativizado,
já que no Brasil o volume negociado nos pregões não
é a maior parte do dinheiro do mercado. "Os grandes investidores
têm, em geral, de 20% a 25% de sua carteira de aplicações
em ações. Os pequenos investidores, muito menos."
Segundo Joelmir Beting, a bolsa de valores representa 5% do sistema
financeiro no Brasil. Nos Estados Unidos, é a metade. Portanto,
a vida do cidadão brasileiro é muito menos afetada
por uma baixa na bolsa aqui que a dos americanos por uma queda por
lá.
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