Aprenda a comprar
com quem sabe
Por
Laura Somoggi
Quem
quer comprar um carro costuma pedir conselhos para aquele amigo
que entende tudo do assunto. Mas e se fosse possível falar
com Nelson Piquet, tricampeão de Fórmula 1, antes
de tomar a decisão? Nada mal, não é? Foi exatamente
isso que VEJA fez: ouviu de craques do ofício dicas de compras
daquilo que eles mais entendem. A seguir, suas lições.
Como comprar um carro usado
NELSON PIQUET
Tricampeão
de Fórmula 1 (1981, 1983 e 1987), é um dos grandes
nomes do automobilismo mundial. Parou de correr em 1991, depois
de dezessete anos de carreira como piloto profissional.
Ricardo Stuckert
 |
"Como
todo mundo sabe, adoro carros. Nos primeiros anos da Fórmula
1, na Inglaterra, eu vivia da compra e venda deles. Quando entrei
na equipe Brabham, em 1979, comecei a freqüentar leilões
de automóveis. Aproveitava então para complementar
meu salário que na época era baixinho
negociando carros. Aprendi que o primeiro segredo para comprar um
veículo usado é olhar com critério. Antes de
tudo, é preciso verificar a quilometragem original. Trocar
o velocímetro só para parecer que o carro é
novinho não é difícil. Por isso, é importante
observar se foram feitas todas as revisões e qual a quilometragem
do automóvel em cada uma delas. Deve haver uma coerência
de quanto o carro roda por ano. Eu desconfio do dono de um carro
que rodou 10 000 quilômetros em um ano e só 1 000 no
ano seguinte. É importante também olhar se há
carimbos das revendas nas revisões isso dá
mais segurança de que o histórico da quilometragem
é real.
Para
ver se o carro não foi batido, observe se há massa
nos cantos, se existem diferenças de cores e texturas ou
se tem algum amassadinho. Além disso, deve-se verificar se
a pintura não está queimada e se, em vez do estofamento
original, há uma capa, o que pode ser sinal de mau uso ou
de que o carro está muito velho. Olhar o desgaste da borracha
dos pedais (acelerador, freio e embreagem) e se eles não
têm folga também ajuda a dar uma idéia da idade
do automóvel.
Conferir
a procedência também é importante. Carros de
cidades litorâneas, por exemplo, têm problema de ferrugem.
Carros de cidades como Brasília têm maior desgaste
mecânico porque rodam mais, e assim por diante.
Sempre
que puder, leve o veículo a uma oficina de um amigo especialista.
Ele pode enxergar coisas que você não viu e, se for
de confiança, pode ajudar a evitar um mau negócio.
Por último, algo que vale tanto para carros usados quanto
para novos. Antes de comprar, pergunte a si mesmo: para que é
que eu vou usar esse carro? Não adianta nada ter uma picape
inteirona e pouco rodada se você vai andar só no trânsito
de cidade grande, carregado de gente e sem ter de levar carga nenhuma."
Como
comprar um imóvel
Claudio Rossi
 |
VALENTINA CARAN
Um
dos nomes mais atuantes do mercado imobiliário de São
Paulo, tem um escritório com 120 corretores e é conhecida
como "rainha da Paulista", por trabalhar na região da avenida
há 22 anos.
"Antes
de escolher um imóvel, é preciso bater muita perna,
olhar a rua onde você quer morar durante o dia, à noite,
no fim de semana, descobrir se tem feira obstruindo a garagem, qual
é o sistema de segurança do prédio.
Para
ter uma idéia de preço, pergunte ao zelador por quanto
foram vendidos outros imóveis no mesmo edifício. Se
for uma casa, o ideal é contratar uma empresa de avaliação
para saber se o preço pedido é justo. E, no momento
de negociar o valor, aconselho sempre a oferecer um pouco menos
do que você realmente quer gastar. Se você falar que
pode pagar 400 000 reais, o corretor vai lhe oferecer imóveis
de 500 000. E quem põe à venda por 400 000 vende por
350 000.
Quando
você encontrar o imóvel que é exatamente o que
estava procurando, a negociação não pode demorar
demais para não haver o risco de você perder o que
tanto gostou. Para essas situações, é possível
pedir ao proprietário uma opção exclusiva,
que é uma espécie de reserva para que você possa
estudar a compra. Isso exige um documento assinado pelo dono do
imóvel.
Antes
de fechar o negócio, é preciso verificar toda a documentação
do imóvel. Por isso, eu sempre indico que se procure a ajuda
de um advogado. Para ter certeza de que o imóvel não
está hipotecado, deve-se tirar sua matrícula atualizada
(no cartório onde ele está registrado). Também
é importante saber se contas como água, luz, condomínio,
IPTU etc. foram quitadas. Se o imóvel for de pessoa jurídica,
é fundamental pedir uma certidão negativa de débitos
para se assegurar de que a empresa não tem dívidas
e de que o imóvel não poderá ser usado
para pagá-las.
Em
geral, as chaves só podem ser entregues quando o comprador
tiver pago no mínimo 40% do valor da transação.
Se você der um sinal alto, algo como 50% do preço do
imóvel, o ideal é já pedir a escritura em seu
nome e registrá-la (quem não registra a escritura
não é dono do imóvel). Nesse caso, é
preciso colocar na escritura a chamada cláusula hipotecária,
que descreve qual é o saldo devedor e a forma de pagamento
desse saldo."
Como fazer compras para as refeições da família
Claudio Rossi
 |
RENATA
BRAUNE
Chef
há dez anos, estudou gastronomia na concorrida escola Le
Cordon Bleu, em Paris. Hoje cuida de seus bistrôs Le Chef
Rouge, em dois endereços em São Paulo, e dá
consultoria em outros restaurantes e em hotéis.
"Procuro
um preço médio, tanto para as compras dos meus restaurantes
quanto de minha casa. Aprendi que o mais barato pode ficar aquém
do que você quer, e o mais caro pode decepcionar. Ao comprar,
é bom saber o que é para consumo mais imediato e o
que é para os dias posteriores. É possível
encontrar variedades de alimentos que têm um prazo de validade
maior. Queijos processados, como cream cheese ou requeijão,
por exemplo, duram mais que queijos frescos. Legumes e cereais embalados
a vácuo podem ficar fora da geladeira e também duram
mais que os frescos. E eles têm duas vantagens em relação
aos congelados: conservam melhor o sabor e os nutrientes e, em geral,
têm preço menor. Legumes desidratados também
se conservam por mais tempo. Legumes e vegetais orgânicos
são boas opções. Eles são mais caros
que a salada normal, mas duram três vezes mais na geladeira.
Para
fazer boas compras, gastar menos e ainda preparar pratos saborosos,
você deve explorar ingredientes nacionais como mandioca, inhame
ou batata-doce no lugar de batata-inglesa, por exemplo. Ou, ainda,
fazer seu próprio tempero, comprando os ingredientes em vez
de optar pelos industrializados (é só bater no liquidificador
cebola, alho, ervas e óleo e fazer uma pasta).
Por
último, acho que ninguém deve se iludir com embalagens,
pois muitas vezes pagamos mais por elas. Uma superembalagem não
é sempre de um superproduto. E nem sempre uma grande embalagem
contém mais produto."
Como
comprar uma jóia
Oscar Cabral
 |
ROBERTO
STERN
Dono
e diretor de criação da H. Stern, a famosa rede de
joalherias. Stern é formado em gemologia (estudo de pedras
preciosas) nos Estados Unidos.
"Seja
qual for o orçamento disponível, é melhor comprar
um diamante menor de mais qualidade que um grande de qualidade inferior.
São quatro os atributos de uma pedra: tamanho, cor, pureza
e lapidação. Mas ninguém tem de entender disso.
É preciso pedir explicações para o vendedor
para que você entenda o que está comprando. Além
disso, é fundamental solicitar um certificado que garanta
a qualidade e a veracidade da pedra.
Quanto
ao metal, é bom saber que o ouro padrão usado no Brasil
é o de 18 quilates. Com menos que isso, uma jóia não
é considerada de qualidade. A platina é mais cara
que o ouro, mas sua qualidade não é superior. Já
a prata é um metal mais barato, mas ela oxida, pode provocar
alergia em algumas pessoas e é menos resistente que o ouro.
Recomendo
sempre evitar modelos muito datados. Peças mais clássicas
são indicadas. A compra de uma jóia é, no fundo,
feita na base da confiança. Você precisa acreditar
em quem está lhe vendendo. O vendedor deve ser capaz de apontar
as diferenças entre jóias de melhor e de pior qualidade
e de mostrar o que faz uma ser mais cara que a outra."
Como
comprar um veleiro
Ricardo Benichio
 |
AMYR
KLINK
O
navegador brasileiro ficou célebre por atravessar sozinho
o Oceano Atlântico e o continente antártico. Ele viaja
em superveleiros como o Paratii e o Paratii 2 (este
último tem autonomia para três anos no mar).
"Para
comprar um veleiro é fundamental experimentar. Começar
alugando ou saindo em barcos de amigos. Conheço casos de
famílias que são apaixonadas pelo mar, que sonham
em dar a volta ao mundo, visitam marinas, entram 100 vezes em barcos,
mas quando saem pela primeira vez... enjoam. É preciso começar
a tomar gosto por velejar para só depois comprar a embarcação.
Na
hora da escolha, pense em como o barco será usado. Quantas
pessoas vão velejar? Elas vão dormir no barco? Vão
tomar banho no barco? Você vai levar comida e água
ou vai parar para fazer as refeições fora? Quais são
as características da região pela qual você
vai passear? Por quanto tempo você vai ficar no mar (dias
ou apenas algumas horas)? Essas respostas ajudam a definir que tipo
de veleiro é o mais adequado para cada caso: qual é
o tamanho certo, quanta água doce e comida ele pode levar,
se é melhor o motor elétrico ou o hidráulico
etc. Um barco feito para passear no fim de semana não serve
para quem quer passar vinte dias no mar, por exemplo.
Tem
gente que por desconhecimento escolhe um veleiro supermoderno, mas
que não foi feito para o lazer da família, não
tem conforto, por ter sido desenhado para competições.
Quando isso acontece, é comum que se coloquem vários
opcionais para tentar adequar o barco ao uso que se quer fazer dele:
gerador, uma âncora mais pesada etc. Esse é um grande
erro, que pode até pôr em risco a segurança
da família. É como comprar um carro conversível
e colocar um bagageiro, um trailer. O barco é muito sensível,
os opcionais vão aumentando seu peso e afundando a linha
d'água (faixa pintada ao longo do casco do barco na altura
até onde ele mergulha nas condições comuns
de carregamento).
Para
mim, o ideal é montar um veleiro sob medida para o uso de
cada um. Nem sempre encontramos barcos prontos com tudo o que precisamos.
Uma opção é comprar um sob medida usado. Eu
já vi no Rio de Janeiro barcos usados por 30 000 ou 40 000
reais que serviriam para dar uma volta ao mundo."
Como
comprar uma câmera fotográfica
Claudio Rossi
 |
J.R.
DURAN
O
fotógrafo catalão faz fotos de publicidade e editoriais
de revistas. Pelas suas lentes passaram algumas das maiores beldades
do país, como Scheila Carvalho, Luma de Oliveira e Adriane
Galisteu.
"A
primeira pergunta a ser respondida é: como você quer
guardar suas lembranças: em CDs ou em álbuns? Isso
vai definir se para você é mais indicado comprar uma
câmera analógica ou uma digital. Você gosta de
computador, entende de pixels, quer gastar com impressora? Tudo
isso deve ser avaliado. Outro aspecto fundamental é quanto
você está disposto a gastar. Entre as câmeras
analógicas, é possível encontrar equipamentos
com tecnologia muito avançada num bom preço. No caso
das digitais, isso não é verdade: quanto melhor a
tecnologia, mais cara ela será.
Também
é importante pensar em qual é seu objetivo com a câmera.
Para uso amador, para fotografar festas e férias, por exemplo,
recomendo as automáticas. E não acho que zoom seja
fundamental. Se você quiser que o objeto fique mais próximo,
por que não chegar mais perto dele na hora que estiver fotografando?
Além disso, quanto maior o zoom, maior a necessidade de luz
e de um filme mais sensível (ASA 400, por exemplo). Outros
dois aspectos devem ser observados: o flash e a lente. Para o flash,
vale a seguinte regra: quanto mais barata a câmera, pior será
o flash. Quanto à lente, deve ser normal, entre 45 e 55 milímetros.
Já a abertura para a entrada de luz (diafragma) deve ser
a maior possível: de 2.8 para cima (2.0, 1.4 etc.
quanto menor a numeração, maior a abertura).
Quem
tem maiores pretensões pode investir numa câmera de
lentes intercambiáveis. Mas essas exigem também mais
conhecimento. Para começar, invista apenas em lentes normais.
Não aconselho começar comprando uma teleobjetiva
daquelas que usamos para fotografar Fórmula 1 , pois
há outros estágios antes.
Há
duas dicas que valem para todas as pessoas e todos os equipamentos.
Deve-se escolher uma marca conhecida (Canon, Nikon, entre muitas
outras, têm linhas amadoras) e um modelo que seja fácil
de manusear. E sempre gosto de lembrar que a câmera não
erra, quem erra é o fotógrafo. Portanto, ler o manual
com atenção e conhecer os recursos do equipamento
são quesitos indispensáveis para fazer boas fotos."
|