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TRANSIÇÃO

Jefferson Rudy/Folha Imagem

Os primeiros 100 dias

Como demonstra a história, não
existe um padrão definidor de começo
de governo no Brasil ­ mas desta vez
a transição tem regras claras

Por Alexandre Barros*


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O general João Baptista Figueiredo recusou-se a passar o cargo a José Sarney. Quando chegou sua vez de sair, Sarney decretou o feriado bancário que permitiu a Fernando Collor aplicar o confisco da poupança popular. Itamar Franco assumiu no susto do impeachment de Collor. Fernando Henrique já era da copa e cozinha do Planalto: fora ministro da Fazenda e comandante da implantação do Real. Como se vê, não há um padrão identificável de estréia dos presidentes brasileiros.

Isso se deve principalmente ao fato de que não existem regras escritas nem tradição de passagem do bastão na República brasileira. Na Inglaterra, no Canadá e na Austrália, a tradição britânica da Commonwealth determina um ritual rígido na transição. O partido da oposição monta um ministério paralelo para acompanhar os ministros do governo que sai. Muda o governo, e o shadow cabinet (ministério da sombra, em tradução literal) está pronto para assumir. A burocracia dos ministérios, do secretário executivo para baixo, é composta de profissionais de carreira que permanecem nos postos quando o novo governo assume.

Nos Estados Unidos, as transições estruturadas começaram com Franklin Delano Roosevelt, no princípio dos anos 30. Ele assumiu no auge da Depressão e teve de, logo no começo do governo, convocar o Congresso em sessão especial e fazer passar uma série de medidas que visavam a ventilar um pouco a sufocante situação financeira do país. Deu certo porque ele tinha o apoio da população, que desejava ardentemente que alguém tentasse aliviar a situação. O episódio ficou conhecido como "os 100 primeiros dias da administração Roosevelt". (Vale lembrar que a expressão foi cunhada originalmente para designar um período da história francesa: em 1815, Napoleão Bonaparte levou apenas 100 dias para escapar do exílio na Ilha de Elba e retomar o poder na França, até ser definitivamente derrotado na Batalha de Waterloo.)

Embora desde Roosevelt o rótulo dos 100 dias seja empregado pela imprensa para denominar os decisivos primeiros momentos de um presidente, a história tem mostrado que mesmo na estável democracia americana é muito difícil comparar o período inicial de um governo com o de outro. Jimmy Carter, por exemplo, tentou fazer uma estréia bem estruturada e planejada. Preparou tudo minuciosamente e, no fim, acabou às voltas com problemas de comunicação interna em sua equipe e relações tempestuosas com o Congresso.

Lyndon Johnson tornou-se presidente no susto, a bordo de um vôo do Texas para Washington, logo que foi anunciada a morte de John Kennedy. Durante o mandato, usou bem o capital acumulado em seus 27 anos como parlamentar. Governou com o Congresso e fez uma das melhores administrações recentes. Perdeu-se na Guerra do Vietnã. Ronald Reagan não deu bola para a transição. Eleito, nomeou meia dúzia de auxiliares, tomou um avião e foi para seu rancho na Califórnia. Voltou a Washington para a posse. Teve uma das transições mais bem-sucedidas da história americana. Seus primeiros 100 dias foram gloriosos.

No Brasil, um fator decisivo é o fato de que o novo presidente assume sempre com o Congresso em recesso. No caso do presidente eleito Lula, os novos parlamentares (47% deles caras novas no Congresso) só tomarão posse em 1º de fevereiro. Empossado em 1º de fevereiro, o Congresso só começará a funcionar, mesmo, no dia 15. Há que eleger a mesa do Senado e a da Câmara, estruturar as lideranças, instalar os novos parlamentares em Brasília. Fernando Collor foi o último a assumir com o Congresso funcionando, porque tomou posse em 15 de março. Por isso, ele pôde, rapidamente, promover algumas das melhores e algumas das piores coisas da história do Brasil. O confisco foi a pior.

O presidente Lula poderia, se quisesse, convocar o velho Congresso por um mês. Mas não seria uma boa idéia. Isso equivale a começar uma prova de Fórmula 1 correndo as quatro primeiras voltas com um carro velho. E ainda ter de parar no boxe para trocar de carro.

 

*Alexandre Barros é doutor em ciência política
pela Universidade de Chicago e sócio da
consultoria de risco político Early Warning
 
 
       
         
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