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GÔNDOLAS RECHEADAS (exclusivo on-line)

Quanto mais marcas, melhor

A oferta de marcas diferentes nos supermercados
brasileiros dobrou na última década – isso aumentou
a competitividade e ajudou a segurar a inflação

Por Mikhail Lopes

 
Iugo Koyama
Claudio Rossi
GARANTIA CONTRA INFLAÇÃO
Com poucas marcas, como na década de 70, quem mandava no preço era o fornecedor. Hoje a competição entre marcas dá poder ao consumidor

A variedade de produtos de consumo como xampus, iogurtes e desinfetantes à venda hoje nunca foi tão grande. Uma loja do Pão de Açúcar, a maior rede de supermercados do país, por exemplo, exibia cerca de 5 000 itens em suas prateleiras dez anos atrás. Atualmente, são 12 000 itens. No hipermercado Extra, do mesmo grupo empresarial, o número de produtos subiu de 20 000 para 80 000. De acordo com a ACNielsen, a principal empresa de pesquisa de consumo no mundo, só de 1999 para cá surgiram no mercado brasileiro 100 novas opções de biscoito, doze de leite e sete de pão industrializado. Isso levando em conta apenas as marcas auditadas pela Nielsen, que não incluem pequenos fabricantes regionais.

Novos produtos surgem quando há crescimento de mercado, marcas tradicionais vulneráveis ou consumidores insatisfeitos. Pode-se dizer que a estabilização econômica e a abertura do mercado aos produtos importados provocaram uma conjunção desses fatores na última década. O mercado cresceu porque as classes mais pobres tiveram seu poder aquisitivo aumentado e puderam comprar mais. Os produtos locais ficaram vulneráveis diante dos importados, de melhor qualidade. Os consumidores, expostos a mercadorias melhores, tornaram-se mais e mais exigentes. "No começo dos anos 90, o consumidor passou a ter mais opções e com maior qualidade", diz Antônio Carlos Ascar, consultor da Associação Brasileira de Supermercados. "A indústria nacional teve então de se diversificar."

De fato, grandes fabricantes de produtos de consumo instalados no país, como Nestlé, Unilever e Sadia, tiveram de se adequar aos novos padrões de exigência dos brasileiros. A Nestlé, por exemplo, aumentou sua linha de 400 itens em 1992 para quase 1 100 atualmente. Uma única divisão da empresa, a de refrigerados, abarca hoje 86 produtos como iogurtes, sucos e requeijão cremoso. Dez anos atrás, ela produzia menos da metade desses itens. "Lançamos quatro ou cinco novos produtos refrigerados por ano", diz Gilberto Monaco, diretor responsável pela divisão. "O consumidor está cada vez mais exigente, buscando principalmente alimentos saudáveis, como os dietéticos, e produtos semiprontos, que consomem menos tempo na preparação."

A mudança no comportamento do consumidor é irreversível, mesmo ante a desaceleração econômica que ocorreu nos últimos quatro anos. José Augusto Domingues, diretor da Sense, empresa que pesquisa esse comportamento, diz que nos períodos de retração econômica as pessoas deixam de comprar mercadorias caras, como uma geladeira nova, mas levam para casa itens mais em conta, como alimentos e produtos de beleza, para satisfazer sua necessidade de consumo. "As pessoas sentem necessidade desse tipo de recompensa por trabalharem duro. O valor da recompensa pode mudar, mas elas não deixam de consumir", diz ele.

Que o digam os consumidores de renda mais baixa. Livres do flagelo da inflação, eles adicionaram ao arroz e feijão da lista de compras itens como leite condensado, cereal matinal e iogurte. E não foram os grandes fabricantes os beneficiados por essa revolução no consumo dos descamisados, mas os milhares de pequenas e médias empresas que inundaram o mercado com as chamadas marcas talibãs, que chegam a custar menos da metade do preço dos produtos líderes. Trata-se de empresas como a Xereta, que concorre com a Kellogg's em cereais matinais, e a Cinalp, dona dos achocolatados em pó Chocótimo e Choco-Like, concorrentes do Nescau, da Nestlé. Um estudo dos institutos ACNielsen e CBPA mostrou que entre 1998 e 2000 as marcas líderes perderam para as talibãs participação em volume de vendas em 63% de 157 categorias pesquisadas. As perdas foram maiores nas prateleiras de bebidas não alcoólicas, alimentos doces e limpeza caseira.

Antes da estabilização econômica, não existia espaço para novos produtos porque isso não interessava a ninguém. As indústrias não se preocupavam em criar mercado, já que eventuais quedas nas vendas podiam ser compensadas com reajustes de preço. Os supermercados, por sua vez, criaram um modelo de operação em que muitas vezes vendiam abaixo do preço de custo apenas para colocar dinheiro em caixa e ganhar com aplicações financeiras. "O foco naquela época era vender o estoque rapidamente e receber do consumidor antes de vencer o prazo para pagar a mercadoria. Para isso, não era interessante ter uma grande variedade de produtos à venda", diz Marcos Gouvêa de Souza, sócio-diretor da consultoria de varejo GS&MD.

Apesar da grande evolução na oferta de produtos ocorrida na última década, ainda falta muito para o brasileiro encontrar no supermercado o mesmo sortimento de que dispõem cidadãos de países desenvolvidos. Para ficar num exemplo, as lojas do Carrefour no Brasil aumentaram o número médio de itens expostos nas prateleiras de 50 000 para 80 000 nos últimos seis anos. Já na França, seu país-sede, há lojas da rede que chegam a vender 110 000 tipos de produto.

 
 
       
         
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