ENTREVISTA:
PAUL SLOVIC
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Como conviver
com o risco
O
americano sustenta que os governos
têm obrigação de alertar as pessoas sobre
os riscos
financeiros e os de outra natureza
Por
Tania Menai, de Nova York
O psicólogo
americano Paul Slovic não salta de asa-delta nem é
piloto de provas. Mas ele sabe o que significa arriscar-se. Professor
de psicologia da Universidade de Oregon, Slovic é presidente
da Decision Research, organização criada em 1976 para
ajudar indivíduos, governos e diversos setores a entender
os riscos da vida moderna e a lidar com eles. Em seu livro A
Percepção do Risco, ele analisa como as situações
de risco têm impacto sobre nossas decisões, medos e
confiança. Em cidades violentas, o risco de assaltos, roubos
ou seqüestros faz cada vez mais com que as pessoas mudem sua
rotina e passem a investir mais dinheiro do que tencionavam em segurança.
Slovic ainda alerta que é crucial que os governos promovam
campanhas informativas sobre os riscos aos quais as pessoas estão
expostas e sugere que os criadores de leis escutem mais a ciência
e as estatísticas.
Veja
Líderes e responsáveis por decisões
que afetam a vida de milhares de pessoas têm mais percepção
de risco?
Slovic Isso varia de pessoa para
pessoa. Algumas se arriscam mais. Por exemplo, acho que o presidente
George W. Bush se arrisca bastante.
Outros presidentes eram mais cautelosos. Não sei se há
um traço em comum que faça líderes se arriscarem
mais ou menos ou necessariamente os torne bons nisso. Muitos deles
trabalham cercados de consultores então as decisões
são tomadas em grupo.
Veja
Em seu livro, o senhor diz que pessoas com diferentes
níveis educacionais têm diferentes percepções
de risco. Por quê?
Slovic Pessoas que tiveram menos
oportunidade de estudar são mais vulneráveis, ou,
pelo menos, sentem-se assim. Se a pessoa percebe que tem controle
de sua vida, que a sociedade a trata com justiça e que ela
tem oportunidades, ela acaba se dando liberdade de arriscar mais.
As situações não lhe parecerão tão
arriscadas e isso dá mais coragem. Por outro lado, se a pessoa
se sente discriminada e sem controle, o mundo lhe parecerá
bem mais perigoso. Nos Estados Unidos, homens brancos tendem a controlar
a sociedade. Eles criam tecnologia, administram as empresas, obtêm
os lucros e, por isso, sentem-se mais seguros. Quem não tem
essa posição vê maior número de riscos
na vida.
Veja
Pessoas com paixão pelo risco necessariamente têm
personalidade mais forte?
Slovic As pessoas são diferentes
nesse sentido. Muitas vezes, essas diferenças são
internas, associadas à forma como o sistema nervoso é
conectado algumas pessoas têm um sistema nervoso mais
reativo, elas ficam com mais medo e mais ansiosas do que outras.
E isso inibe o ato de arriscar. Outras pessoas já adoram
montanha-russa. Recentemente, um homem bateu o recorde mundial depois
de ficar dias numa montanha-russa. Mas tem gente que nem chegaria
perto de uma. A outra diferença é externa. Um alpinista
aprende técnicas, precauções e, por isso, tem
controle da situação. Ele pode não achar arriscado
o que faz. Quem desconhece as técnicas pode até pensar
que alpinistas estão em constante risco.
Veja
Será que esse controle é o mesmo
de pessoas que têm de tomar decisões milionárias?
Slovic Possivelmente. Depende da pessoa.
Algumas fazem isso o tempo todo e já estão acostumadas.
Elas nem chegam a ver essa situação como risco, apesar
de mexer com imensas quantias de dinheiro. Outras devem gostar de
passar constantemente por situações arriscadas.
Veja
O que faria os investidores se arriscar a colocar dinheiro
na América Latina?
Slovic No mundo da bolsa de valores
há um fenômeno interessante. As pessoas preferem sempre
investir no próprio
país, mesmo quando há excelentes chances de investimento
em companhias no exterior. Isso tem sido mostrado em estudos nos
Estados Unidos e na Europa. Americanos quase sempre investem em
ações de empresas dos EUA e assim acontece
com outros países. Agora que a economia está fraca,
esses investimentos tendem a minguar no próprio país
e simplesmente se extinguir no exterior. Para mudar essa situação,
é preciso uma evidência espetacular o suficiente para
convencer de que tal investimento é atraente. Do ponto de
vista da percepção de risco, entramos no terreno do
conhecido e do desconhecido. Investir em outras economias é
o desconhecido as pessoas se sentem mais confortáveis
com o que elas conhecem.
Veja
Será que os recentes escândalos nas
empresas americanas estão tornando os investidores menos
abertos a riscos na hora de comprar ações?
Slovic Não estudei esses escândalos
de perto, mas tem-se discutido muito sobre quanto esses episódios
abalaram a confiança que as pessoas têm na administração
de muitas empresas gigantes, antes vistas como confiáveis.
Despenca também a confiança nas informações
produzidas por essas empresas. A confiança é um elemento
extremamente importante na percepção do risco. Leva-se
muito tempo para construir confiança e minutos para
destruí-la. Há quem diga que essa é a razão
pela qual os mercados desabaram nos últimos meses. No longo
prazo, esperamos que auditorias e maior controle empresarial ajudem
a restaurar a confiança do investidor.
Veja
Quem tem mais dinheiro costuma arriscar mais?
Slovic Essas pessoas podem até estar
arriscando muito dinheiro, mas, como têm mais ainda, o risco
significa uma pequena porcentagem de suas posses. Contudo, a quantia
pode parecer alta para quem não tem todo esse dinheiro. Isso
levanta uma questão: o que o risco significa para as pessoas?
Não tenho uma resposta simples.
Veja
As profissões que escolhemos têm a
ver com quanto estamos abertos a riscos? Por exemplo, no caso de
pilotos ou cirurgiões.
Slovic Talvez sim. Mas esses profissionais
são altamente treinados para isso. Claro que existem cirurgias
em que é difícil driblar altos riscos. Contudo, essas
pessoas não se vêem lidando com riscos sentem-se
preparadas o suficiente para exercer suas funções.
Elas tentam controlar os riscos.
Veja
Uma situação de risco nos prepara
para outra?
Slovic Podemos aprender se enfrentarmos diversas
vezes a mesma situação. Mas não acho que dê
para transferir o aprendizado de uma situação de risco
para outra experiência. Digamos que você seja um investidor
no mercado de ações. Suas experiências na bolsa
de valores não irão ajudá-lo a lidar com sua
saúde. O aprendizado é bem específico.
Veja
O terrorismo e a consciência do risco alteraram
o comportamento das pessoas nos Estados Unidos?
Slovic O risco é associado às
imagens e aos sentimentos associados a elas. Uma das imagens dominantes
do 11 de setembro, por exemplo, é a vulnerabilidade. Nesse
caso, a nação mais poderosa do mundo foi desestabilizada
rápida e dramaticamente por um número relativamente
pequeno de pessoas. Uma das imagens de risco do século passado
foi aquela imensa nuvem em forma de cogumelo, conseqüência
da bomba nuclear. Essa imagem é tão assustadora que
colaborou para estancar o desenvolvimento do poder nuclear nos EUA
e em outros países. Hoje, as imagens das torres gêmeas
em chamas e, posteriormente, desabando ficarão na mente de
todos por muito tempo. Ainda é difícil prever como
isso afetará nossa vida, mas sem dúvida nos fará
pessoas mais cautelosas tanto nos investimentos quanto nas outras
esferas da vida.
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