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DÍVIDAS (exclusivo on-line)

Lições de um convertido

Rodrigo* mudou de país várias vezes
fugindo das dívidas até perceber que
para sair do vermelho tinha de se
submeter a um tratamento

Por Juliana Almeida


Fotos Claudio Rossi
"Eu não tinha consciência do meu problema real. Fugia de um país para outro, mas continuava me endividando."
Rodrigo, profissional liberal


Antes de se livrar de dívidas que não paravam de crescer, o profissional liberal Rodrigo mudou várias vezes de país, está no quarto casamento, teve crises de depressão e até dormiu na rua. Conseqüências de uma vida repleta de dívidas geradas pela incapacidade de manter o controle sobre o dinheiro. "Fiz minha primeira dívida aos 8 anos, quando peguei umas moedas emprestadas com familiares para jogar fliperama e não paguei", brinca Rodrigo. Hoje, esse uruguaio de 42 anos se considera recuperado e próspero. Diz já ter economias para comprar à vista, com sua atual mulher, um apartamento de 40 000 reais num bairro da Zona Sul de São Paulo. Para chegar a esse nível de poupança, no entanto, precisou passar por um lento e doloroso processo de recuperação da auto-estima e, principalmente, de mudança de comportamento.

Rodrigo casou-se pela primeira vez aos 18 anos, no Uruguai. Quatro anos depois, deixou a mulher e uma dívida de 5 000 dólares para trás e veio tentar a vida no Brasil. Casou-se de novo, teve uma filha, fez outras dívidas e, quando a situação estava fugindo do controle, mudou novamente de país – sozinho, mais uma vez. Foi ser garçom em Miami, nos Estados Unidos. "Eu não tinha consciência de que o meu problema era ter dívidas. Por muito tempo nem sabia quanto devia", diz Rodrigo. "Achava que era outra coisa que estava dando errado: o casamento, o país, o bairro em que eu morava."

Segundo conta, quem o alertou para sua compulsão por dívidas foi uma cunhada, que morava nos Estados Unidos e freqüentava as reuniões dos Devedores Anônimos (D.A.), um grupo de auto-ajuda que tem como objetivo recuperar devedores compulsivos (para saber mais detalhes sobre o D.A., veja quadro). Ela o convenceu a participar de um encontro, em 1995. Naquele momento, relata Rodrigo, suas dívidas somavam 20 000 dólares nos três países. "Cada vez que mudava de país para fugir das dívidas me endividava ainda mais", conta ele. "Minha vida boêmia também piorava a situação."

Como todo devedor anônimo, Rodrigo foi aconselhado a fazer um inventário de suas dívidas materiais e emocionais e a anotar todos os gastos diários para visualizar para onde o dinheiro ia. Para o processo de conversão dar certo, ele devia permanecer em abstinência de gastos "um dia por vez", segundo o lema do D.A. "Percebi que gastava para conter minha ansiedade e para tentar preencher o vazio que sentia em minhas relações afetivas", diz Rodrigo. "Para controlar a ansiedade, resolvi até fazer caminhadas num parque."

Ele diz ter começado a dormir tranqüilo e a ser uma pessoa mais feliz conforme foi saldando seus débitos (deixar os cartões de crédito em casa foi outra estratégia que ele diz ter utilizado). Assim que regularizou sua situação nos Estados Unidos em 1998, voltou ao Brasil, retomou o contato com a filha, de 16 anos (para a qual havia deixado de mandar pensão por muito tempo), e hoje, depois de participar de reuniões por sete anos, coordena um grupo de D.A. em São Paulo.

A história de Rodrigo mostra que ter dívidas não é apenas um problema financeiro. É, antes de tudo, algo ligado ao comportamento humano. "Os devedores compulsivos geralmente são pessoas que têm baixa resistência à frustração", explica o psicoterapeuta Marcelo da Rocha Carvalho, do Centro Psicológico do Controle do Stress. "Como não conseguem resolver o problema original, acabam compensando isso no ato de comprar." Segundo ele, a compulsão está ligada a um grau excessivo de stress, causado pela dificuldade de lidar com o mundo. O problema é que o objeto comprado, a bebida ingerida ou a aposta no jogo só saciam o paciente por um período muito curto. Depois vêm a culpa e a necessidade de repetir o comportamento para se sentir novamente satisfeito.

Casos graves como o de Rodrigo devem ter ajuda profissional, incluindo acompanhamento psicológico. No entanto, nem todos os endividados são casos patológicos. Para a maioria das pessoas, a melhor forma de atacar a causa do problema – e se livrar das dívidas – é fazer uma reeducação financeira, uma reflexão sobre quais são os padrões de consumo adequados a sua realidade. "É preciso repensar o valor que se atribui às coisas consumidas", afirma Ricardo Leal, professor de finanças do Coppead (escola de pós-graduação em administração), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mesmo quando a desorganização financeira for apenas momentânea, o ideal é agir rapidamente e envolver parceiro e filhos para que todos estejam cientes da situação. Esconder a verdade, manter o nível de gastos e fingir que o problema não existe só piora o quadro. Infelizmente, não há fórmula mágica.


CAMINHO DA CURA
Grupo de auto-ajuda Devedores Anônimos: auxílio valioso na recuperação de compulsivos

Para o consultor financeiro Louis Frankenberg, a melhor forma para se livrar das dívidas é adotar uma terapia de choque. Em seu livro Guia Prático para Cuidar do Seu Orçamento – Viva Melhor sem Dívidas, ele indica quatro passos para um devedor voltar à solvência. O primeiro deles é estancar imediatamente o endividamento, deixando de assumir novos compromissos. Depois, vender os bens patrimoniais dispensáveis, como aquele terreno abandonado da família a quilômetros de distância. O terceiro passo seria diminuir gradativamente o endividamento, determinando uma quantia mensal destinada a essa finalidade. Em seguida, iniciar um plano de poupança sistemático. Aquela parcela dos rendimentos que ia diretamente para pagar as dívidas agora pode ser economizada.

A questão do endividamento tem uma agravante: por não ser um transtorno físico, como o álcool ou as drogas, ele é difícil de ser reconhecido e tratado. O consumo é estimulado o tempo todo e o crédito está cada vez mais fácil. Para Leal, da UFRJ, a maioria das pessoas que se endividam o faz por falta de controle, e não de informação. São poucos os brasileiros que hoje não sabem que sobre todo empréstimo incidem juros e que as taxas cobradas no cheque especial e no cartão de crédito são exorbitantes (as taxas de cheque especial, por exemplo, podem chegar a 160% ao ano, segundo o Banco Central).

Há, na maioria das vezes, falta de conhecimento sobre o orçamento doméstico. De acordo com pesquisa recente realizada pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), quase um terço da renda familiar é destinado ao pagamento de juros, o que chega a ser superior aos gastos com alimentação ou moradia. Segundo Leal, há também um histórico familiar envolvido. "Filhos de pais consumistas têm a tendência a repetir esse comportamento quando adultos porque não aprenderam a administrar dinheiro em casa", conclui.

 

*Nome falso a pedido do entrevistado

 

Conselhos de quem venceu

Os dez mandamentos dos Devedores Anônimos
para os viciados em gastar

Devedores Anônimos (D.A.) é um grupo de auto-ajuda que nasceu em 1967, nos Estados Unidos, inspirado no programa dos Alcoólicos Anônimos. Seu objetivo é fazer com que os devedores compulsivos reconheçam seu problema e consigam lidar com ele. No Brasil, as reuniões do D.A. começaram em São Paulo, há cerca de quatro anos. Atualmente, há dois grupos atuando na capital paulista e outro que deverá ser formado em breve. Há encontros também no Rio de Janeiro, em Mococa (no interior de São Paulo), Curitiba e Londrina, no Paraná.

Os grupos se reúnem semanalmente para trocar experiências sobre a compulsão do consumo, as dívidas incontroláveis e a culpa de ser um devedor. Coordenadas por um freqüentador mais antigo do grupo, as reuniões são dirigidas a partir de depoimentos pessoais e leituras de textos ligados ao tema. Cada participante tem cinco minutos para se pronunciar. Ninguém interrompe nem há comentários posteriores. O tratamento se baseia na exposição das experiências pessoais e no cumprimento de dez decisões básicas. Como entre os Alcoólicos Anônimos, parte do tratamento tem um aspecto religioso, de submissão a um "poder superior" que seja mais forte que a vontade de gastar.

São elas:

1. Admitir ser impotente perante as dívidas e que a vida se tornou ingovernável.

2. Fazer, sem medo, um minucioso inventário moral e financeiro.

3. Admitir abertamente a si mesmo e perante os outros a natureza exata de seus erros.

4. Estar inteiramente disposto a corrigir defeitos de caráter.

5. Pedir humildemente a Deus (da maneira que cada um acredita) que elimine seus defeitos.

6. Fazer uma lista das pessoas que foram prejudicadas.

7. Reparar os danos diretos às pessoas prejudicadas sempre que possível.

8. Continuar fazendo o inventário pessoal e admitir prontamente os erros.

9. Buscar um melhor contato com esse Deus através da prece e da meditação.

10. Procurar transmitir esta mensagem a outros devedores compulsivos.

 

Telefone do D.A. em São Paulo: (11) 3751-5763

 

 
 
       
         
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