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De passagem pelo Brasil em abril passado, o ator americano Morgan Freeman surpreendeu muita gente ao dizer que sua maior referência do país são as ações que comprou da Embraer. Nos Estados Unidos, comprar ações de grandes empresas, mesmo estrangeiras, é algo tão corriqueiro quanto depositar dinheiro na poupança por aqui. Mais de dois terços dos americanos aplicam em bolsas de valores. Os brasileiros parecem só se interessar por esse tipo de investimento em situações excepcionais. Dois exemplos recentes foram os descontos oferecidos pelo governo para quem quisesse usar o dinheiro do fundo de garantia do tempo de serviço (FGTS) na compra de ações da Petrobras e da Companhia Vale do Rio Doce. Perto de 312 000 pessoas compraram papéis da Petrobras e 728 000 investiram na Vale do Rio Doce. Uma olhada no volume de negociações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) mostra que os negócios com ações têm diminuído no país. O montante de dinheiro que anima os pregões a cada ano despencou de pouco mais de 200 bilhões de reais em 1997 para 150 bilhões em 2001. O fluxo de dinheiro deverá fechar em um nível ainda mais baixo em 2002, já que a média diária da movimentação financeira no primeiro semestre foi menor que a do ano passado. Apesar de todas as dificuldades, muitos especialistas acreditam que o brasileiro pode tornar-se um investidor em ações, desde que seja bem informado sobre esse mercado. "Detectamos que o investidor local precisa de esclarecimento. Até hoje a sociedade enxerga a bolsa como um cassino", diz Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa. Magliano registrou, recentemente, a formação do primeiro clube de operários investidores em ações. O clube foi formado por 53 trabalhadores de fábricas. Cada um investe 29 reais por mês em ações. "Nos Estados Unidos existem 400 000 clubes investindo nas bolsas. Aqui no Brasil, já temos 452. É um bom começo", diz o presidente da Bovespa. Em um clube de investimento formado em São Paulo, dezessete pedagogas aposentadas decidiram aplicar juntas na bolsa com o duplo objetivo de poupar e tornar suas reuniões mais animadas. "Reunir só para tomar chá começou a ficar muito chato", diz Rosegleyde de Souza Rocha, de 57 anos, uma das sócias do clube. As ex-professoras montaram o clube como se fosse um fundo de investimento, do qual elas têm cotas. Uma corretora ficou responsável pela compra e venda das ações selecionadas pelas sócias. Cada uma delas faz contribuições mínimas de 100 reais por mês. O total investido hoje pelo clube já ultrapassa 100 000 reais. "Estamos satisfeitas com os resultados que tivemos até hoje. Nós mesmas decidimos quais ações compramos e quando é hora de vendê-las", conta Rosegleyde. O objetivo agora é abrir espaço para a entrada de mais sócias, para ampliar o volume dos investimentos, apesar de a bolsa vir acumulando perdas nos últimos meses. "Afinal, é na hora de baixa, quando as ações estão baratas, que se deve investir." Para que clubes passem a valer a pena, é preciso ainda desatar alguns nós burocráticos em Brasília. Por exemplo: reduzir o imposto de renda sobre os lucros obtidos com ações. A mordida do Leão, hoje, chega a 20% dos ganhos. Também existem em tramitação no Congresso alguns projetos que visam a liberar o uso do dinheiro do fundo de garantia para que os trabalhadores invistam em ações de sua escolha não apenas em papéis específicos como os da Petrobras e da Vale do Rio Doce. Um desses projetos, de autoria do deputado Antonio Carlos Magalhães Júnior, do PFL da Bahia, prevê a possibilidade de aplicação de 1% dos recursos do FGTS em ações. Magliano encontrou-se com o deputado pela primeira vez durante uma visita à Câmara para pedir o fim da cobrança de CPMF sobre as aplicações em bolsa. "Para derrubar a taxação, falei com nada menos que 480 deputados e sessenta senadores em nove meses", conta Magliano. Uma das estratégias da Bovespa para dar mais credibilidade aos pregões é criar um mercado paralelo, do qual só participariam companhias que atingissem padrões altíssimos de transparência, baseados em critérios adotados internacionalmente. O Novo Mercado, como foi batizado o projeto, não decolou. Apenas duas empresas foram admitidas: a Sabesp, que presta serviços de água e esgotos em São Paulo, e a CCR Rodovias. Por enquanto, a atitude dos brasileiros em relação aos clubes de investimento lembra a famosa frase do comediante americano Groucho Marx: "Jamais pertenceria a um clube que me aceitasse como sócio".
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