Carta ao leitor
 

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Um tijolo por vez

Reportagem da Exame Especial: Os melhores fundos
de investimento de 2001, agosto/2001

Kei Marcos Tanaami

Nem renda fixa nem renda variável. Uma aplicação alternativa corre por fora do mercado financeiro e tenta conquistar espaço na mente – e no bolso – do investidor. São os fundos imobiliários. Sua proposta é unir o melhor de dois mundos: a segurança dos imóveis, que cala fundo no imaginário dos brasileiros, e a facilidade de operação das aplicações financeiras.

É um produto recente, e o número de projetos ainda é pequeno. Desde o lançamento do primeiro fundo imobiliário, em meados de 1999, somente cinco empreendimentos foram destinados a pessoas físicas. O patrimônio total dos fundos de varejo é de 180 milhões de reais, menos da metade do dinheiro que circula num único dia – ruim – na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Três desses fundos ainda estão abertos ao público, todos ligados a empreendimentos imobiliários em São Paulo.

Apesar do ainda baixo cacife, os participantes do mercado apostam alto no produto. "O brasileiro sempre investiu em imóveis", diz Leandro Bousquet, do banco de investimentos carioca CR2, que organiza fundos imobiliários. "É inevitável que ele busque uma forma de investimento mais moderna."

Se depender da experiência internacional, os profissionais da área têm razões para otimismo. Incluindo os projetos lançados exclusivamente para investidores institucionais como fundos de pensão, já foram criados 54 fundos imobiliários no Brasil até hoje. Seu patrimônio total é de 1,4 bilhão de reais, segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No mercado americano, os fundos somam 300 bilhões de dólares de patrimônio.

Um fundo imobiliário funciona da mesma forma que um fundo de investimento. A diferença é que, em vez de comprar ações ou títulos públicos e vender cotas (ou fatias) desse bolo aos investidores, um fundo imobiliário oferece ao mercado as cotas de um empreendimento em construção ou já construído.

Os valores variam. O menor valor já oferecido foi de 5 000 reais e o maior foi de 70 000 reais. Quando compra uma cota, o investidor passa a ser um dos "donos" do empreendimento, que pode ter os mais variados usos. Pode ser um prédio de escritórios, um shopping center, um hotel, as agências de um banco ou até mesmo um hospital (veja tabela).

O rendimento do fundo depende, basicamente, do aluguel do prédio após o término da obra civil de construção. Para atrair clientes, os fundos têm garantido uma remuneração mínima durante certo tempo. O Continental Square Faria Lima – um projeto que inclui seis andares de um prédio comercial classe A e um hotel da rede Cæsar Park – oferece aos compradores rendimento de 12% ao ano durante dois anos. O Centro Empresarial Água Branca, formado por duas torres comerciais classe A, garante 1,25% ao mês (16,1% ao ano) por três anos.

O mercado apregoa que as vantagens sobre o investimento imobiliário tradicional são várias. Talvez a mais evidente seja a possibilidade de o pequeno investidor participar de um grande projeto. Construir um prédio de última geração, com ar–condicionado central, heliponto, piso elevado e lajes enormes para abrigar amplos e modernos escritórios, é coisa para gente grande. Esses espaços ainda estão em falta em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o que tem jogado o preço dos aluguéis para o alto. "Um empreendimento desses pode ser mais acessível que um flat", diz Sergio Belleza, da corretora paulista Coinvalores, que vende cotas de fundos. "Você também corre menos riscos no fundo."

Porém, um fundo imobiliário oferece riscos como qualquer investimento. Uma crise inesperada (provocada por um apagão, por exemplo) reduz o crescimento econômico. As empresas podem encolher e precisar de menos espaço, o que deixa os donos dos escritórios na mão. Outro problema é a falta de liquidez das cotas. Trocando em miúdos: se você for dono de um flat ou de um pequeno escritório e precisar vendê–lo, sabe o que fazer. Coloca um classificado num jornal ou num site de imóveis e espera o telefone tocar. Com uma cota de um fundo imobiliário, não há o mesmo mecanismo. "A falta de mercado secundário, onde se negociariam as cotas, é um dos entraves para o crescimento dos fundos", diz Renato Ventura, superintendente de negócios imobiliários do Unibanco. "O lugar ideal seria a bolsa de valores, como acontece em outros países."

Além de levar os fundos imobiliários para a bolsa, outra meta dos gestores é ampliar o universo de possíveis clientes. Hoje, quem compra as cotas é o investidor do mercado imobiliário. Tanto que, apesar de os organizadores dos fundos serem instituições financeiras (a atividade é fiscalizada pela CVM), todos os empreendimentos são vendidos com a ajuda de uma boa e velha imobiliária. Seu cadastro de clientes tem sido insubstituível. No futuro, a tarefa é atrair outro tipo de investidor. "O mercado financeiro ainda está muito distante do produto", diz Fábio Nogueira, da Brazilian Mortgages, consultoria que estrutura projetos imobiliários. Mas o maior fator de atração situa–se em outra esfera. "O mercado depende da baixa das taxas de juro", diz José Manoel Lopez, diretor da consultoria imobiliária Jones Lang LaSalle. Ou seja, trata–se de conquistar não a mente do investidor mas sim a do governo.