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Com os pés no chão
Como
usar cheque especial, cartão de crédito,
crediário e empréstimos sem perder o controle

Edson
Pinto de Almeida
Já
houve um tempo no Brasil em que um pequeno empresário podia
pegar dinheiro a juros no banco para financiar o deslanche de seu
negócio. Hoje em dia não há negócio
legal que consiga lucro na quantidade suficiente para pagar um empréstimo
bancário. Um empresário já estabelecido, com
reputação de bom pagador e com garantias a oferecer,
pode levantar um empréstimo pagando uma taxa anualizada de
65%. Sem experiência e desconhecido no mercado, um pequeno
empresário de primeira viagem que fizer a loucura de levantar
dinheiro no banco vai pagar por ano de 80% a 90% de juros. Como
um grande pequeno negócio dá em média somente
até 20% por ano de margem de lucro, é fácil
entender que o tomador não conseguirá pagar ao banco.
Para
as pessoas físicas, no entanto, parece irresistível
financiar bens de consumo e tomar dinheiro para pagar viagens de
férias. Com juros nas nuvens, entretanto, é um grande
desafio para qualquer um aprender a usar, com sabedoria, o dinheiro
disponível para empréstimo nas lojas ou nas financeiras
(confira os custos dos diversos
tipos). Mesmo com o vento contra, o crédito
pessoal foi o grande motor do crescimento da economia de varejo
no Brasil nos últimos anos. Nesses tempos de estabilidade,
o país experimentou um período de expansão
dos empréstimos. De julho de 1994 a julho de 2001, segundo
levantamento do Banco Central, o volume de empréstimos para
pessoa física saltou da casa dos 10 bilhões de reais
para bater em quase 70 bilhões de reais. Isso foi possível
com a queda das taxas de juros nesse período, movimento só
interrompido durante as crises de 1997 a 1999 e agora pelos novos
solavancos internos e externos.
"Com
o crédito abundante e a estabilidade econômica, a sociedade
passou a gastar mais", diz o economista-chefe do Unibanco, Eduardo
Figueiredo de Freitas. O outro lado da moeda é que preocupa.
"Há consumidores em número considerável usando
o endividamento como meio de manutenção do padrão
de vida, o que não é sustentável a longo prazo",
enfatiza. Em outras palavras: para muita gente está na hora
de gastar apenas dentro do que o salário permite, como reza
um ensinamento secular. Um dos indicadores de que o sinal amarelo
já está quase passando para o vermelho é o
atraso nos pagamentos. Segundo o BC, a porcentagem de devedores
num prazo superior a noventa dias subiu, em média, de 3,7%
em dezembro de 2000 para 4,6% no último mês de julho.
O maior número de inadimplentes está pendurado no
cheque especial (6,8%), e o menor contingente é formado por
pessoas que compraram carro (2,5%).
Essa
diferença é fácil de explicar. Enquanto os
juros do cheque especial pairam na casa dos 200% ao ano, os empréstimos
para aquisição de veículos em geral
concedidos pelos bancos das próprias montadoras cobram
42%. Isso dá uma diferença e tanto no preço
final do produto e nas prestações. O aumento da inadimplência
também foi constatado pelo Serasa, o maior analista de crédito
do país. A comparação entre janeiro a julho
de 2000 e o mesmo período de 2001 mostra que houve aumento
de 27,7% no volume de protestos em geral. Os títulos de pessoas
físicas, basicamente cheques sem fundos, totalizaram 1,6
milhão e os de pessoas jurídicas, 2,5 milhões.
É
por causa da diferença existente nas taxas de juros, dependendo
do tipo de empréstimo, que o consumidor não deve deixar-se
levar apenas pelo que é mais fácil, pois a conta em
geral sempre fica mais cara. As maiores taxas do mercado são
praticadas pelo cheque especial e pelo cartão de crédito,
segundo levantamento mensal sistemático que faz o Procon.
Uma alternativa de empréstimo mais em conta é a do
crédito pessoal, que pode ser obtido tanto em bancos como
nas próprias lojas. Essa modalidade, embora seja a que tenha
sofrido o maior aumento nas taxas de juros (10,9%) desde o início
do ano, ainda custa a metade do que cobram o cheque especial e o
cartão de crédito com a vantagem de que os
juros são prefixados e as prestações são
fixas, o que facilita o planejamento.
Pressionados
pela ameaça de protesto, muitos clientes deixam de lançar
mão de um recurso disponível para todos negociar
e tentar conseguir melhores condições com o gerente
do banco ou da instituição credora. Seja qual for
o tamanho da renda, um bom começo para não ser tragado
pelo sufoco é ter claras quais são as despesas fixas
em suas finanças pessoais. Para isso, relacione-as uma a
uma e fique atento aos períodos de matrícula escolar,
aniversários na família e outras ocorrências
que podem afastá-lo da rotina. "Em geral, o consumidor tem
medo de olhar de frente seus gastos", diz Vera Marta Junqueira,
do Procon. Como se vê, quando sobra planejamento, nunca falta
dinheiro. Se mesmo assim ainda houver dúvidas sobre o que
fazer com o 13º salário, não
hesite: pague as dívidas.

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