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Primeiras
lições
A
experiência de pais e colégios que estão adotando
a educação financeira para crianças e adolescentes
Fernanda
Colavitti
Aprender
a administrar o orçamento pessoal é um desafio que
muitos adultos não conseguem encarar com sucesso, pois, além
de responsabilidade e determinação, exige treino,
por mais banal que uma contabilidade doméstica possa parecer.
Que tal ensinar a seus filhos como lidar com o dinheiro desde os
primeiros anos da infância? É claro que não
se trata de dar aulas sobre os rudimentos da matemática financeira
aos 2 anos de idade. Mas, bem cedo, os pais já devem começar
a introduzir na vida dos filhos alguns conceitos relacionados ao
valor e ao uso de cédulas e moedas, bem como à importância
de poupar para o futuro. É um tema cujo interesse vem crescendo
no ensino fundamental dos Estados Unidos e dos países da
Europa na Inglaterra, virou até matéria obrigatória
em muitas escolas. No Brasil, a educação financeira
apenas engatinha, e a experiência já colhe bons resultados.
A primeira iniciativa partiu da cientista política e consultora
Cássia D'Aquino, de São Paulo. Em 1996, ela criou
um programa de ensino destinado a crianças de 2 a 14 anos,
que já foi adotado por diversas escolas de São Paulo,
Rio de Janeiro, Brasília, Rio Grande do Sul e Curitiba. O
objetivo é mostrar à garotada como ganhar, usar e
economizar dinheiro, assim como a ética envolvida nesses
processos. Os alunos da Escola Pacaembu, de São Paulo, pioneira
na implantação do projeto, familiarizam-se com noções
de preço e poupança. "Propomos atividades práticas
em sala de aula e em situações do dia-a-dia, como
um passeio ao teatro ou compras no supermercado", explica a professora
Maria Cristina Sauberlich de Pádua. No Instituto GayLussac,
de Niterói, no Rio de Janeiro, há exercícios
como simular uma situação em que o aluno exerce determinada
profissão e deve apresentar uma planilha de gastos de seu
salário todo mês. Outra experiência, de grande
atualidade depois do apagão, é calcular com detalhes
os custos de energia elétrica de uma família. Segundo
o diretor pedagógico Roberto dos Santos Almeida, os pais
costumam elogiar o programa ao perceber mudanças de hábitos
em seus filhos. "Quando têm noção da dificuldade
de ganhar, os meninos dão mais valor ao dinheiro", diz Almeida.
Mesmo sem a matéria no currículo, os pais podem desde
já iniciar os pequenos no bêbá financeiro
com conceitos bem simples. "O primeiro passo é ensiná-los
a distinguir aquilo de que precisamos daquilo que simplesmente queremos",
explica a consultora Cássia D'Aquino. "Quem não souber
isso dançou. É o caso das pessoas que compram um carro
importado antes da casa própria." Uma boa maneira de fazer
com que seu filho entenda essa diferença é enfatizar
o significado dessas palavrinhas em situações cotidianas,
como dizer que ele precisa tomar banho ou deixá-lo responsável
por checar quais produtos estão faltando em casa e, por isso,
precisam ser comprados. Também é fundamental fazer
com que a criança associe poupança a cuidado e entenda
que se trata de desistir de algo no presente para conseguir um benefício
futuro. "Quem compreender isso de verdade não terá
problemas com cheque especial nem com cartão de crédito
mais adiante", diz Cássia. Repetir-lhe idéias simples,
como poupar o brinquedo para quando quiser usá-lo novamente,
ou poupar um pedaço do lanche para quando tiver fome, pode
ajudar bastante. Dessa maneira, quando começar a ganhar mesada,
fica mais fácil convencê-la da importância de
guardar uma parte.
A
mesada é uma das principais fontes de dúvidas e equívocos
dos pais. "Como eles têm muito prazer em satisfazer os desejos
dos filhos, acabam errando demais. Mesmo que se trate de uma família
de alta renda, não é aconselhável encher o
filho de dinheiro", adverte o psiquiatra Içami Tiba, de São
Paulo, especialista em crianças e adolescentes. Uma pesquisa
realizada no ano passado pelo Cartoon Network, canal de TV a cabo
dirigido ao público infantil, com 1 000 crianças de
6 a 11 anos de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre,
mostrou que 40% delas recebem alguma quantia semanal ou mensal dos
pais. Há regras úteis para encontrar o equilíbrio
entre ser mão-aberta e pão-duro na hora de estipular
o valor (veja quadro). Apesar das divergências quanto
à idade certa para iniciá-la e a quantia ideal, os
especialistas concordam que se trata da principal ferramenta de
educação financeira e, como tal, nunca deve ser vinculada
à realização de serviços domésticos,
bom comportamento ou desempenho escolar.
"O
objetivo é exclusivamente educativo, por isso os pais também
não devem agir como caixa de banco, adiantando o dinheiro
antes da hora combinada, o que esvazia completamente a função
de ensinar a viver dentro de um teto salarial", adverte a educadora
Tania Zagury, do Rio de Janeiro, autora de Limites sem Trauma.
Ela ensina que uma boa maneira para evitar a "falência"
dos filhos é não lhes impor objetivos muito amplos
para a mesada no início do processo, aumentando as responsabilidades
no uso do dinheiro à medida que a criança for se saindo
bem.
Também
faz parte da educação financeira a dissociação
entre dinheiro e afeto, o que significa muita cautela na hora de
dar presentes. A recomendação dos especialistas é
reservá-los somente para datas comemorativas, como aniversário
ou Natal, por mais bem-sucedida que a criança seja na escola
ou na atividade esportiva. Prefira outras maneiras de mostrar-lhe
reconhecimento, como um passeio em família ou mesmo um abraço
e palavras de elogio. É importante que a garotada aprenda
a esperar pela realização de um desejo, mesmo que
se trate de algo barato. "Se uma criança é acostumada
a conseguir tudo o que quer imediatamente, vai se transformar em
um adulto sem limites, daqueles que esbanjam mesmo sem ter dinheiro
para pagar um bom plano de previdência privada", avalia o
planejador de finanças pessoais Louis Frankenberg, de São
Paulo. Ele é contra qualquer tipo de sacrifício dos
pais para satisfazer os caprichos materiais dos filhos. Isso inclui
o tão esperado carro aos 18 anos. "Quem não faz nenhum
tipo de esforço nunca aprende a como chegar lá", explica
o especialista.

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