Carta ao leitor
 

Um guia para um mundo em mutação

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  Seu dinheiro numa economia de guerra
Investimentos
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  As primeiras lições para a vida financeira
Entrevista
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  ABC do cheque: como é o dinheiro que você mesmo assina
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Plano de saúde
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  Não quebre a cara em contratos obscuros
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Seu dinheiro numa
economia de guerra

O clima de conflito mundial da luta contra o terrorismo
leva os pequenos e médios investidores a buscar mais
proteção para seus negócios

Edson Pinto de Almeida


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Acompanhe a cobertura que VEJA e VEJA on-line está fazendo dos atentados aos EUA, da guerra ao terrorismo e dos ataques biológicos.

Para as finanças pessoais, as crises são como temporais – diante deles, o melhor é se proteger e esperar a incerteza passar. É com essa imagem que Roberto Apelfeld, diretor executivo do Citigroup Asset Management, define o momento atual para os investidores de pequeno e médio porte, neste período de guerra contra o terrorismo. O dirigente da empresa que administra as carteiras de investimentos do Citibank expressa uma opinião praticamente consensual entre os executivos do mercado financeiro ouvidos por VEJA Seu Investimento. As jogadas tradicionalmente arriscadas, como aplicar todas as economias em dólar, na esperança de multiplicar os ganhos no curto prazo, ficaram ainda mais voláteis.

O próprio Alan Greenspan, presidente do banco central americano, compareceu ao Senado, em Washington, em 20 de setembro, para atestar que os atos terroristas terão impacto significativo na economia dos Estados Unidos, no curto prazo. Greenspan avalia que os efeitos serão mais fortes que os que teriam sido provocados por uma onda simultânea de catástrofes naturais, como terremotos, furacões e inundações. Todas as economias modernas exigem confiança em que as instituições do livre mercado estejam funcionando e em que os compromissos assumidos pelos participantes nos mercados hoje sejam honrados, não só no dia imediato de amanhã mas ao longo do futuro. Boa parte da atividade econômica ficou comprometida nos primeiros dias, como as vendas de veículos ou as de produtos de consumo das grandes cadeias de varejo. "A estabilidade precisará ser restaurada na economia americana e em outras ao redor do mundo", disse Greenspan, para quem levará ainda algum tempo até que o ritmo normal da economia se restabeleça. Não muito tempo. Greenspan avalia que o clima de guerra não vai retardar – e pode até apressar – a retomada da economia.

A estratégia recomendada pelos especialistas é a clássica adoção de aplicações conservadoras, a ser empregada principalmente para aquele dinheiro com destinação específica a curto prazo ou que está sendo guardado para eventualidades. A opção mais recomendada nessas situações são os chamados fundos DI – um tipo de fundo de investimento cujo rendimento acompanha a evolução das taxas de juros que os bancos usam entre si (os chamados depósitos interbancários). Eles rendem de 13% a 15% ao ano, bem mais que a poupança, e são mais vantajosos mesmo com a incidência de 20% de imposto de renda sobre os ganhos (confira uma lista de fundos DI mais rentáveis e acessíveis). Das alternativas conservadoras, a mais tradicional é a caderneta de poupança, que rende 6% de juros anuais mais a correção pela TR (a taxa referencial estabelecida pelo Banco Central). Embora a aplicação em imóveis seja vista sempre como alternativa conservadora, traz sempre o inconveniente de ter baixa liquidez, ou seja, caso você precise do dinheiro será difícil reavê-lo com rapidez.

Uma vez adotado esse comportamento mais realista, resta ao investidor torcer para que se confirme uma tendência histórica: a economia sempre melhora na seqüência de sustos como os trazidos pelo ataque terrorista aos Estados Unidos. Sob encomenda da maior corretora on-line do mundo, a Charles Schwab, a empresa americana Ned Davis Research fez um estudo sobre grandes eventos que ocorreram desde a invasão da França na II Guerra Mundial, em 1940, até a crise da Rússia, em 1998. O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, nesses mais de cinqüenta anos, registrou na média uma queda de 4,6% no momento dos eventos e subiu 12,1%, em média, 126 dias depois. Durante a Guerra do Golfo, em 1990, por exemplo, o índice Dow Jones caiu 4,3% no dia 24 de dezembro daquele ano, logo após o ultimato dado ao Iraque, e apresentou ganhos de 18,7% quatro meses depois.

 

Confira a opinião de seis especialistas do mercado financeiro sobre a melhor forma de cuidar das finanças pessoais na atual conjuntura

ROBERTO APELFELD
CITIGROUP ASSET MANAGEMENT

"Aumentou o grau de incerteza, que já era grande em função da crise na Argentina. Temos a nosso favor uma política econômica mais transparente, um parque industrial eficiente e empresas bem gerenciadas. Quem pensa num horizonte além de cinco anos deve aplicar em ações. Já quem está economizando para comprar algum bem dentro de seis meses não deve arriscar. Os fundos DI são mais adequados."

Wagner Avancini

MARCIO VERRI
DIRETOR FINANCEIRO, BANKBOSTON

"O ambiente negativo deverá perdurar até o primeiro semestre de 2002, quando os cenários externo e interno estarão mais definidos. É melhor esperar até as coisas se acalmarem para tentar qualquer coisa arrojada no curto prazo. Uma boa alternativa com risco moderado são os fundos de renda fixa, já que a inflação está num nível comportado e os juros, ao que parece, não devem ficar mais altos."

Antonio Milena

EDUARDO DE FREITAS
ECONOMISTA-CHEFE, UNIBANCO

"O cenário está mais arriscado agora do que antes. Se a situação ficar mais tensa, as maiores conseqüências recairão sobre o mercado acionário. Por isso, o ideal é ser conservador e planejar a longo prazo. Para os que tiverem maior propensão a riscos, é uma boa hora de investir em papéis prefixados de prazo longo porque os juros estão muito altos e não há muito espaço para subir mais."

Antonio Milena

CARLOS MUSSOLINI
DIRETOR DE ADMINISTRAÇÃO DE CARTEIRAS, BANCO ITAÚ

"A situação de guerra fez com que o governo americano baixasse os juros de 3,5% para 2,5%, além de autorizar gastos oficiais de 40 bilhões de dólares, o que poderá evitar uma desaceleração mais acentuada da economia americana. Mas a diminuição do fluxo de capital externo deverá afetar o Brasil. O melhor é ficar nos fundos DI, que acompanham as taxas de juros. Ações só para prazos superiores a três anos."

Missao Goto Filho

GILBERTO POSO
DIRETOR DE OPERAÇÕES COM CLIENTES, LLOYDS ASSET MANAGEMENT

"A retomada da economia americana deverá demorar pelo menos mais nove meses, prejudicando o mercado acionário nesse período. Mas poderá ser um bom negócio para quem puder esperar pela recuperação. As eleições poderão aumentar as incertezas caso prevaleça alguma proposta mais radical. O ideal é reservar 60% para fundos DI, 20% para ações ou fundo de ações e o restante em aplicações atreladas ao dólar."

ALBERTO GÜTH
SÓCIO DA ADMINISTRADORA INVESTIDOR PROFISSIONAL

"A recessão mundial é um risco importante, assim como a situação da dívida brasileira. É preciso jogar de forma conservadora no curto prazo. Mas há oportunidade em 2002 para uma mudança na posição dos investimentos, olhando sobretudo para o mercado acionário. O reposicionamento, porém, terá de ser feito de forma gradual porque ninguém sabe exatamente o momento certo da virada."

Selmy Yassuda

 

 

Teste sua coragem diante do risco

Investir é como se vestir. A moda conta, mas o principal é que a opção sirva ao gosto e às possibilidades de cada um. Algumas sugestões:

1. Estabeleça objetivos claros
É mais fácil começar com metas de curto prazo, que sempre são mais palpáveis. Exemplos: quero trocar de carro daqui a um ano, quero fazer uma pós-graduação daqui a seis meses. Os objetivos mais imediatos se alteram ou se atualizam conforme vão sendo atingidos. Ao contrário das metas de longo prazo, que são mais permanentes, como fazer o plano de aposentadoria. Por isso mesmo exigem mais disciplina para ser atingidas.

2. Olhe para o próprio bolso
Quanto eu tenho para investir? Que parcela desses recursos vou precisar daqui a um ano? Quanto posso reservar para o longo prazo? Essas reflexões são importantes para decidir o tipo de investimento a fazer. Recursos de curto prazo, em geral comprometidos com alguma despesa, não devem correr riscos. Já a parte do dinheiro destinada à aposentadoria pode ser direcionada para opções que tragam maior retorno, embora sejam mais arriscadas.

3. Simule uma situação de perda
Esse exercício é importante para estabelecer seu grau de tolerância a risco. Tente descobrir como seria sua reação se perdesse 5%, 10% ou 50% em seus investimentos. Lembre-se de que só parte de seus recursos deverá ser direcionada para aplicações de risco. Portanto, se você possuir 100 000 reais em fundo DI e 10 000 em ações, a perda, no caso de a Bolsa cair 50%, será apenas de 4,5%, ou seja, de 5 000 reais.

5. Escolha uma boa instituição
Depois de definir seus objetivos e conhecer suas limitações, selecione com cuidado a instituição financeira na qual pretende investir seu patrimônio. Ela deve ser sólida e ter experiência. Feito o planejamento, ficará mais fácil escolher os produtos que o gerente de conta lhe apresentar.