Carta ao leitor
 

Um guia para um mundo em mutação

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Leia trechos do livro Seu Futuro Financeiro, de Louis Frankenberg

CAPÍTULO 1
A conscientização

O que é planejamento financeiro pessoal

Planejamento financeiro pessoal significa estabelecer e seguir uma estratégia precisa, deliberada e dirigida para a acumulação de bens e valores que irão formar o patrimônio de uma pessoa e de sua família. Essa estratégia pode estar voltada para curto, médio ou longo prazos, e não é tarefa simples atingi-la.

Por que ela é árdua? Por causa dos inúmeros imprevistos e incertezas da vida e por tantos outros fatores que concorrem para que, ao final da caminhada, apenas pouquíssimos indivíduos tenham conseguido alcançar o objetivo supremo: a completa tranqüilidade econômico-financeira. Entretanto, quando as pessoas são muito conscientes e determinadas, fica mais fácil para elas planejar e seguir uma certa conduta, o que amplia bastante suas probabilidades de concretizar esse sonho.

"Tranqüilidade econômico-financeira" é uma expressão bastante subjetiva, que traduz o estado de satisfação de uma pessoa ao alcançar um objetivo por ela mesma definido como o montante suficiente para manter um determinado padrão de vida. Conceitos como riqueza, conforto, qualidade de vida, bem-estar, sucesso, renda, fortuna etc. definem, em última instância, exatamente a mesma idéia. Conscientemente, o indivíduo estabelece uma linha de conduta financeira que gostaria de seguir e os principais objetivos que almeja alcançar na vida.

O planejamento financeiro de uma pessoa e de sua família para uma vida inteira não é, de maneira alguma, um conceito rígido e inflexível. Ao contrário. Cada um pode estabelecer metas para si próprio. Mas, uma vez que as defina, deve sempre mantê-las em sua mente e lutar com determinação para alcançá-las. Assim como nenhuma empresa pode progredir a longo prazo se não tiver um foco ou objetivo, também o indivíduo precisa saber antecipadamente as metas que pretende atingir.

Isso não significa que, depois de definidas, as metas não sofram alterações. Faz parte do planejamento realizar revisões periódicas - de preferência, pelo menos uma vez por ano, de modo a confirmar se certos investimentos e gastos são realmente necessários ou se deveriam ser eliminados, assim como para redefinir os objetivos de curto, médio e longo prazos. Ou seja, um espírito de autocrítica constante é muito desejável e aconselhável, especialmente quando há mudanças importantes no panorama econômico-financeiro ou quando certas condições pessoais se alteram e assim o exigem.

A ajuda de profissionais competentes e escolhidos criteriosamente, como contadores, advogados, gerentes de contas de instituições financeiras, planeja dores financeiros, pode melhorar em muito o desempenho da planificação a longo prazo, pois eles agregam critérios técnicos e experiência à perseguição dos objetivos do indivíduo, do casal ou mesmo de um grupo familiar.

A escolha do consultor financeiro

A escolha do planejador financeiro pessoal deve ser dada a mesma importância que se dá ao médico da família. Quanto mais ele conhecer você, sua família e suas finanças, melhor. Ele tanto pode ser um gerente de contas ("account manager") de alguma instituição financeira ou entidade de previdência complementar como uma pessoa ou empresa independente. De qualquer forma, conhecimento profissional, idoneidade, experiência, empatia etc. são elementos fundamentais para de terminar a escolha da empresa ou indivíduo que deve cuidar de seu patrimônio.

Talvez um dos tantos aspectos importantes para se tornar um bom planejador financeiro seja o de saber escutar e tentar entender o que o cliente de fato de seja. Também pode facilmente ocorrer que o próprio cliente não saiba muito bem transmitir seus anseios e desejos.

Ora, para conhecer bem os meandros da área financeira, é preciso ter uma só lida formação acadêmica e profissional na matéria, estar em contato diário com os mercados nacionais e internacionais e, em especial, se reciclar continuamente na teoria e na prática.

Consultar ou aconselhar-se com um médico, engenheiro, amigo, parente o vizinho para tomar decisões de aplicações das quais pode depender todo seu futuro financeiro, não é das idéias mais brilhantes.

Profissionais que atuem em companhias de seguro especializadas em seguros de vida e saúde, entidades da previdência complementar privada, analistas gestores de fundos de investimento, entre outros, podem oferecer excelente assessoria.

Planejadores financeiros podem ter formação em contabilidade, economia administração de empresas, advocacia, engenharia etc. Podem ainda ser analistas de diversos setores do mercado de capitais, banqueiros, financistas, administradores de fortunas, atuários, matemáticos, especialistas em seguros etc. A formação acadêmica de um planejador financeiro, entretanto, é menos importante do que sua experiência profissional passada e atual, sua idoneidade e capacidade de compreender as necessidades e as peculiaridades de cada cliente em particular. O planejador financeiro deve ver as necessidades de um cliente holisticamente, como um todo, e não apenas de forma isolada em relação aos predicados do produto ou serviço que pretende aconselhar.

Sempre deveria ser alguém com conhecimento profundo do assunto, que pudesse aconselhar não pensando meramente em seu próprio proveito, mas com sinceridade e isenção, colocando os interesses do cliente em primeiro lugar.

Pessoas que têm ou tenham tido sucesso financeiro na vida têm maior probabilidade de aconselhar do que outros, que há pouco tempo abraçaram a profissão de consultor financeiro.

Consultores que tenham uma vida estabilizada geralmente também são melhores do que aqueles com um passado errático.

Pedir referências a pessoas que já são clientes há algum tempo deve ser considerada uma obrigação, quando se contrata um planejador financeiro independente ou ligado a algum grupo financeiro.

Os planejadores financeiros podem receber honorários fixos, trabalhar à base de comissões ou basear seus honorários numa combinação de ambos. Seja qual for a modalidade, isso deve ser muito bem esclarecido antecipadamente, para nunca haver dissabores e mal-entendidos a posteriori.

Ter um consultor financeiro e, simultaneamente, uma pessoa de sua confiança a quem pedir uma opinião é ter o melhor de dois mundos, e deveria tornar-se uma constante em sua vida, de modo que você sempre possa medir as próprias considerações e deficiências com a opinião destas duas figuras.

Acorde e defenda seus direitos

Em razão dos muitos anos de regime autoritário em nosso país, as pessoas aprenderam a engolir suas mágoas e queixas políticas, econômicas e sociais. Ainda hoje, muitas delas ainda não se deram conta de que aquele tempo já passou. Continuam agindo como se ainda estivéssemos sob o jugo da ditadura militar. Da mesma forma, em decorrência da era da inflação constante, muita gente continua humilde e submissa, sem dar o devido valor ao seu dinheiro - geralmente, ganho a duras penas.

É hora de todos adquirirem uma consciência individual mais crítica, tentando alcançar uma vida melhor e mais digna. Com a democratização do país e a globalização, tudo mudou. Agora, quando não estivermos satisfeitos com alguma atuação dos serviços públicos ou privados, é preciso manifestar vigorosamente esse descontentamento. Somente assim os poupadores, investidores e consumidores vão ter respeitados seus direitos. Entretanto, todo indivíduo deve estar completa e totalmente consciente de que o maior interessado em seus assuntos é ele próprio.

Cada um terá que lutar por si para que a coletividade tenha instituições mais sérias e responsáveis. Na democracia, a força coletiva deveria mudar as regras. Mas, individualmente, ninguém se importará com o que acontece com você. Foi para fazer o leitor se relembrar sempre desse fato que, ao dar título a este livro sobre planejamento financeiro pessoal, introduzimos a frase: "VOCÊ É O MAIOR RESPONSÁVEL".

Em relação às finanças, isso significa dar mais valor ao dinheiro ganho com esforço, jamais aceitar preços exorbitantes, pechinchar, reclamar de erros cometidos, contestar etc.

Agir ou reagir?

Meus muitos anos como consultor financeiro de pessoas dos mais diversos segmentos da população, vendo como cada uma delas se diferenciava da outra (independentemente do grau de riqueza por elas alcançado), fizeram surgir mim a seguinte indagação: "Por que algumas tiveram grande sucesso financeiro e outras, não?" As deduções e conclusões às quais cheguei me conduziram ao seguinte: os que triunfavam sempre tinham reservas financeiras em cadernetas poupança, fundos de investimento ou dispunham de meios onde conseguir c facilidade os recursos necessários; já os membros do grupo menos bem-sucedidos invariavelmente ficavam desesperados diante de imprevistos, pois não estavam preparados para enfrentá-los, e buscavam recursos como podiam - empréstimos caros, cheques especiais e até mesmo agiotas, dos quais dificilmente conseguiam se livrar. Em outras palavras: quando ocorria um incêndio, os primeiros sabiam de cor o telefone dos bombeiros, chamavam por socorro e o fogo era facilmente dominado; os do segundo grupo não sabiam como agir e, assim, as labaredas propagavam. Eventualmente, o incêndio era dominado, mas à custa de sacrifícios enormes.

Os do grupo dos que tinham meios simples e efetivos para superar os problemas imediatos, passei a denominar "os que agem na vida"; aos desesperados, que tinham que empenhar jóias ou pagavam juros escorchantes para c seguir dinheiro, chamei de "os que reagem na vida". Uns tinham um sono pousante, enquanto outros tinham pesadelos dos quais não conseguiam se livrar facilmente.

Poupar para emergências e para o longo prazo

O ato de guardar dinheiro para imprevistos e emergências é de capital importância se você quiser diminuir ou mesmo evitar os empréstimos a juros elevados o perigo dos agiotas. Repito isso porque desejo realçar essa idéia. Quando e conceito estiver arraigado na sua cabeça e for praticado constantemente, terá desenvolvido um hábito positivo e sadio, do qual jamais se arrependerá.

Ao longo do tempo, e desde que esse fundo de emergência não tenha sido dilapidado, essa poupança poderá se transformar pouco a pouco num investimento de peso, e poderá até constituir uma das fontes de renda complementar para a aposentadoria.

Saiba quem você é

Vale a pena identificar o tipo de pessoa que você é, pois isso o ajudará a melhor avaliar os negócios financeiros futuros com os quais irá se deparar. Conhecendo seus pontos fracos, você tomará precauções, evitando maiores danos. Peça ajuda a pessoas de sua confiança, elas poderão auxiliá-lo a superar seus pontos frágeis e a tomar decisões importantes em sua vida.

Você poderá fazer alguns dos testes do Capítulo 2 para entender melhor a si mesmo. Por enquanto, identifique-se, para saber em qual das três categorias a seguir você se enquadra.

O conservador

A pessoa que não gosta muito de alterar hábitos e experimentar idéias e coisas novas é conservadora. Mas isso não deve ser encarado como algo intrinsecamente negativo. Afinal, preferir o terreno conhecido é algo inerente à nossa natureza. E, já que nascemos assim, precisamos conviver com isso - e não tentarmos nos forçar a ser diferentes do que indica nosso íntimo.

Normalmente, a idade nos torna mais conservadores do que quando jovens. Tal mudança muitas vezes é decorrente das experiências da vida. Na área financeira ­ em especial, ser mais conservador do que arrojado pode constituir uma vantagem pois temos menor probabilidade de entrar em negócios mirabolantes e de alto risco.

O arrojado

Gostar de experimentar idéias e coisas novas define a personalidade arrojada, que também é uma característica inata do ser humano e não deve ser considerada de forma negativa. É esse traço que leva a criança a andar e a aprender, assim como faz os jovens quererem conquistar o mundo no menor prazo.

Nas finanças, ser arrojado implica um aumento de risco, pois as decisões tomadas, algumas vezes, sem que se avalie com maior profundidade um negócio proposto. O arrojado tem maiores probabilidades de conquistar o e em prazo mais curto. Por outro lado, a curto prazo, pode perder mais do que o conservador, para quem a segurança e a estabilidade são fatores preponderantes.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra

Ser equilibrado significa ser simultaneamente arrojado e conservador. Pessoas com essa aptidão têm maiores chances de sucesso, pois conseguem analisar melhor as oportunidades financeiras, com suas vantagens e desvantagens, seus riscos e certezas. Com isso, aumentam suas probabilidades de acertar na atitude adequada a ser tomada para cada ocasião, agindo com as características do conservador em certo momento e com as do arrojado em outro. Se você tiver naturalmente essa ambivalência, ótimo. Caso contrário, convém desenvolver essa característica neutra, pois ela irá facilitar sua capacidade de análise e ajudá-lo a tomar as decisões financeiras com maiores probabilidades de êxito.

Quem não arrisca não petisca

Uma boa parcela da humanidade às vezes arrisca mais do que seria racional. Mas o que será melhor, ser ousado ou cauteloso? Arriscando, algumas vezes acertamos; outras, não. Os cautelosos jamais atingirão o ápice, mas também não enfrentarão crises graves ou falências espetaculares. Em última análise, o sucesso financeiro não passa de uma sucessão de episódios em que vence aquele que acertar mais (ou errar menos). Só isso.

Obviamente, mesmo os maiores gurus e as pessoas mais bem-sucedidas também erram - às vezes, de forma bastante infantil. Só não ficamos sabendo disso porque a mídia (imprensa) prefere focalizar apenas os êxitos dessa gente.

Minha experiência, confirmada pela prática em lidar com as finanças dos outros, indica que, em finanças, nunca se deve apostar num cavalo só. Diversificação ainda continua sendo o melhor antídoto para não perder demais num negócio a priori considerado fabuloso ou fadado ao sucesso certo.

Uma dose de auto-estima e outra de humildade

Sabemos que, para vencer em termos financeiros, é preciso ter autoconhecimento, isto é, conhecer nossa própria forma de pensar e ter um completo domínio sobre nossa maneira de agir. Por isso, uma boa dose de auto-estima e outra de humildade são imprescindíveis. Difícil é determinar as doses ideais de cada um desses fatores, pois esse é um coquetel em que os ingredientes dificilmente se traduzem por medidas exatas. Por outro lado, exagerar qualquer das doses estraga a mistura.

Esopo, o fabulista da antiga Grécia, já contava a história do sapo que, de tanto orgulho, foi engordando, engordando, até explodir. As pessoas orgulhosas, posando de donas da verdade, só atraem bajuladores e interesseiros. Por outro lado, quem exagera na humildade toma-se subserviente e perde o respeito dos outros. Portanto, como em tantos setores da vida, equilíbrio é fundamental. Nem o orgulhoso nem o subserviente podem contar incondicionalmente com amigos verdadeiros dos quais ouvir alertas e conselhos. Entretanto, escutar os outros e meditar sobre o que estes têm a dizer é uma arte que jamais deveria ser esquecida, pois ajuda a não cometer erros irreversíveis.

Obter amplas informações sobre assuntos financeiros, especialmente os controvertidos, fará com que cada um tenha uma maior capacitação para tomar decisões adequadas.

Profissão, vocação e finanças

São poucos os jovens que desde cedo têm uma perfeita antevisão de suas futuras profissões. Não é sem razão que, ainda no meio dos cursos, muitos estudantes descobrem que não era bem aquilo o que queriam fazer. Esse conflito é muito mais generalizado do que se pensa, porque é difícil vislumbrar com anos de antecipação a atividade adequada ao nosso perfil. Entretanto, encontrar a profissão adequada é tão importante quanto descobrir a pessoa certa para compartilhar nossa vida e constituir uma família.

Na minha avaliação, o sucesso financeiro passa necessariamente pelo gosto que as pessoas têm pelo que fazem. Não é apenas gosto, mas muito mais: é amor, é paixão. Quem gosta do que faz está sempre procurando se aperfeiçoar, reciclar e tem vontade de se aprimorar. Portanto, cada um deve analisar seus dons, descobrir sua vocação, descobrir as atividades físicas ou intelectuais de que mais gosta, para definir seu rumo profissional. Isso é de fundamental importância para aumentar as probabilidades de sucesso.

Assim como escolhemos a profissão e a pessoa para compartilhar nossa vida, também as nossas ambições em finanças devem ser minuciosamente predeterminadas, para que possamos atingir os objetivos que colocamos pela frente. Uma vez definido o que desejamos, devemos nos atirar com todo entusiasmo à tarefa de construir uma carreira, conquistar um lugar de destaque, formar um patrimônio. Determinação, entusiasmo e vontade de nos aperfeiçoar são aspectos importantes. A dedicação ao nosso próprio negócio ou à carreira são essenciais para o sucesso.