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As
três faces da traição
Mesmo
que estejam em relações estáveis,
algumas pessoas se sentem compelidas a
manter um envolvimento afetivo e sexual paralelo. VEJA destacou
três dos
relacionamentos que mais se repetem:
busca do sexo sem romance, em geral
com prostitutas; o sexo com romance,
o adultério; e a paquera de escritório,
via e-mail, normalmente sem sexo.
A seguir, três homens e três mulheres
contam suas experiências e
expõem seus
pontos de vista sobre cada uma das situações.
SEXO
SEM ROMANCE
Prazer à venda
Por
que eles gostam de garotas de programa e
elas
detestam a idéia de fazer sexo com um michê
Divulgação
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| Cena
do filme Despedida em Las Vegas: o personagem vivido
pelo ator Nicolas Cage se apaixona pela prostituta interpretada
pela atriz Elisabeth Shue |
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Luiz
Antunes
33
anos, personal trainer
Fotos Claudio Rossi
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''Sempre gostei de garotas de programa. Elas são
divertidas e compreensivas. Com elas, as fantasias correm
à solta. Não só as fantasias sexuais.
Sinto que posso contar qualquer coisa, porque elas já
viram e ouviram de tudo, e por isso jamais me julgariam.
Isso dá uma sensação muito boa.
Já me aconteceu de pagar por um programa e passar
o tempo só conversando. Eu revelo coisas que
jamais falaria para amigos. Talvez eles até entendessem
o que tenho a dizer, mas me sinto mais à vontade
com essas estranhas. É óbvio que o sexo
conta muito. Com elas, não me sinto cobrado a
ter uma performance fora do normal nem a aparentar ser
alguém diferente do que sou. Já cheguei
a gastar 2 000 reais por semana em programas em locais
de luxo. Sim, só tenho relações
sexuais com essas garotas universitárias que
vêm para a capital estudar e pagam a faculdade
com esse bico. Tenho medo de doenças.
Sou uma pessoa muito sexualizada. Desde que comecei
a me exercitar de forma inclemente, meu interesse pelo
sexo explodiu, principalmente sobre o que é proibido.
O sexo pago é algo que sempre vai estar envolto
em uma aura de mistério e transgressão.
Quanto mais seguro com minha aparência física,
mais pronto para transgredir eu achava que estava. E
isso se tornou um círculo vicioso. Depois de
algumas vezes, você acaba se acostumando. E gostando.
Não há cobranças, não há
passado, não há nada. Só o prazer
da hora.
Nos últimos tempos, a freqüência de
meus encontros diminuiu. Eu estou casado. Sim, minha
mulher sabe de tudo. Nós levamos muito tempo
para alcançar um grau de maturidade que nos possibilita
um entender e aceitar a necessidade do outro. Conseguimos
afastar do casamento toda a insegurança, o ciúme
e as cobranças. Acho que a traição
só acontece quando você se envolve com
outra pessoa. E isso comigo nunca ocorreu. Acredito
que variar parceiras melhora o casamento. E vale para
ela também. Claro que dá certo ciúme.
Mas estamos além disso. O sexo é uma parte
fundamental do casamento. Amo minha mulher, mas a fidelidade,
do jeito como a entendemos, é imposta pela sociedade.
Então, se é imposta, eu posso negá-la.
É dessa maneira que me sinto o mais verdadeiro
possível comigo mesmo. Por mais constrangedor
que isso possa parecer aos outros."
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Néia
Sampaio
33 anos, empresária
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''Pensar
em uma relação com um garoto de programa
provoca em mim uma sensação dúbia.
Um misto de curiosidade e repugnância. Mas, antes
de qualquer coisa, acho que é uma questão
de vergonha. Há um preconceito perverso com as
mulheres. Imagine o que vão falar de você
se descobrirem que pagou por sexo? Os tempos mudaram,
mas, quando o assunto é sexualidade (principalmente
a feminina), tudo ainda é muito parecido com
a época de nossas avós. Também
acho que o ato em si tem muito mais graça como
fantasia do que como vida real. A idéia de pagar
para fazer sexo só tem graça se você
imaginar que o sujeito vai ter a cara do Brad Pitt,
jamais a de um homem comum, desses com quem a gente
cruzaria num ponto de ônibus. Para pagar, precisaria
ter glamour. E não tem. Eu temo a violência.
Temos menos força física para nos defender.
Isso é um ponto crucial: michê dá
medo. Outro ponto são as doenças. Eu acredito
que a maioria desses caras seja bissexual e tenha uma
rotatividade de parceiros imensa. O risco de transmissão
de alguma coisa é alto. Mesmo com camisinha há
riscos.
O terceiro aspecto é o da afetividade. Mulheres
têm dificuldade em separar sexo de amor. No caso
de uma relação sexual com o prostituto,
como seria a reação? Ficaria esperando
o cara ligar no dia seguinte? Sinto-me muito satisfeita
com minha vida sexual. Sobretudo quando resolvi começar
a falar do que gosto e do que quero na cama. Não
é toda mulher que consegue isso. Então,
deve ser mais fácil pagar a alguém do
que romper a barreira da inibição. Eu
prefiro criar um relacionamento aberto com meu namorado
e propor fantasias criativas e seguras. Quem tem uma
vida sexual satisfatória não precisa pagar
por sexo. Se isso acontece, algo está errado."
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SEXO
COM ROMANCE
Coração à deriva
Por
que alguns homens e mulheres são sempre infiéis
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Aldemar
Furtado
54
anos, engenheiro
Selmy Yassuda
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''Fui um traidor compulsivo. Durante anos, traí
minha ex-mulher. Com quantas? Não sei. Lembro-me
da maioria por características físicas
ou pela roupa que usavam, do tipo: 'A loira da fila
do telefone público' ou 'A morena que chorava
na boate'. Traía a qualquer hora, em qualquer
lugar, mesmo que eu não estivesse com muita vontade.
Aquilo fazia muito bem para minha auto-estima. Eu me
sentia desafiado, como um caçador que precisa
enfrentar uma fera. Aprendi que não existe mulher
inatingível, o que existe é mulher mal
cantada. Com tato e experiência, até a
Sharon Stone vai para a cama com você. Pode demorar,
mas com paciência dá certo. A grande coisa
é elogiar. Falar qualquer coisa. Sobre a roupa,
o cabelo, a voz. É preciso imprimir certa sinceridade.
Para mim, era fácil. Eu realmente era verdadeiro.
A diferença é que eu tinha um objetivo
em mente: queria levá-las para a cama a qualquer
custo.
Em certo momento, eu tinha três namoradas, fora
minha mulher. Um de meus aniversários foi comemorado
com quatro bolos, feitos por cada uma delas. Ao trair,
nunca pensava em minha família. É balela
dizer que a gente leva a mulher e os filhos para a cama
quando está com outra. Isso acontece nas primeiras
vezes. Depois, você nem se dá conta. Nunca
tive crises de consciência, achava que fazia todas
as mulheres com que eu estava felizes, sempre. Para
mim, era fácil, porque, em função
de meu trabalho na época, acabava freqüentando
muito a noite, indo a jantares, festas e churrascos
nos fins de semana. Minha mulher nunca me acompanhava.
Ou seja, eu estava sempre disponível. Acho que
ela desconfiava, mas nunca abriu a boca. Isso me dava
a segurança de que o casamento ia se manter independentemente
das besteiras que aprontava fora de casa. Durante dez
anos de união, só fiquei sete meses fiel.
Mas, em certo momento, ela não suportou mais
ser tão enganada. Já conversamos muito
sobre tudo isso, e ela diz que até me entende
e perdoa. Acho que tudo poderia ter sido diferente.
Hoje vejo que fiz sofrer todas as mulheres, e isso nunca
foi minha intenção. A infidelidade não
é inata. É um estado de espírito.
Por isso, penso que não há culpados. Nem
eu nem o relacionamento que tive. Estou casado pela
segunda vez, e agora mais calmo."
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Maria
Christina Dias
35 anos, agente
de viagens
Fernando Vivas
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''Não sei se nunca amei de verdade ou se é
mesmo essa dificuldade em me manter fiel que me afasta
de um romance que valha a pena que é o
que todo mundo sonha na vida. Mas tenho uma queda indiscutível
pelo proibido. Isso tudo me atrai e me excita muito.
Sempre emendei um namoro no outro. E emendava porque
um namoro começava antes de o outro terminar.
Preciso me sentir interessante, desejada, perceber que
eu chamo a atenção dos homens. Não
me contentaria com apenas um par de olhos. Ser cobiçada
sempre me levantou o moral. Quando meus relacionamentos
me deixavam com a auto-estima baixa, saía sozinha
atrás de aventuras. Era eu mesma que tomava a
atitude. Se ele me interessava, não me fazia
de rogada. Ia lá e dizia. Gosto disso até
hoje.
Minha relação mais séria durou
treze anos e terminou por causa de minhas sucessivas
traições. E começou também
com infidelidade. Eu era a outra dele. Quando o início
é assim, acho que você sente uma desobrigação.
É aquele tipo de pensamento: 'Se ele fez com
a outra, fará comigo'. E assim você constrói
uma rede de justificativas para se convencer de que
trair não tem nada de errado. De fato, penso
que trair não é a pior coisa que se pode
fazer com uma pessoa. Eu, por exemplo, nunca fiquei
com a consciência pesada. Ao contrário
do que dizem várias mulheres, sei muito bem separar
amor de sexo. No fundo, acho que todas sabem. Mas ainda
há essa expectativa sobre as mulheres, que não
podem assumir sua sexualidade.
Para trair, você tem de pensar, contar histórias
que façam sentido e, principalmente, nunca se
esquecer do que diz. Mas a coisa não é
fácil assim. Fiquei muito arrependida quando
meu namorado sério terminou comigo. Um caso que
não havia significado nada para mim teve aquele
resultado. Quem trai sabe que em alguma hora será
pego. Enquanto não é, vai se arriscando.
Quem é 'pego' se sente meio tolo. Você
pensa: 'Acabei com tudo por causa daquilo?'. Acho que
todo mundo vive essa tensão entre monogamia e
infidelidade. Quem é infiel é porque não
tem a relação que espera. Sei que, quando
a pessoa certa chegar, é só a ela que
vou querer. Difícil é saber se ela um
dia vai aparecer."
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ROMANCE
SEM SEXO
Intimidade virtual
Como
uma simples troca de mensagens
pode
significar um namoro para alguns
Divulgação/Universal Pictures
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| Cena
do filme O Diário de Bridget Jones: a personagem vivida
pela atriz Renée Zellweger manda e-mails para o personagem interpretado
pelo ator Hugh Grant |
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Daniela
Oliveira
25 anos, administradora
de empresas
Fotos Claudio Rossi
 |
''Eu estava numa relação havia quatro anos. Naquela
fase em que seus parentes e os dele perguntam a toda
hora quando sai o casamento. De meu lado, eu sentia
que o amor estava cada vez mais adormecido. Já profissionalmente
atravessava uma boa fase. Lidava com muitas pessoas
e era sempre requisitada para diversas reuniões de trabalho.
Ali, conheci o Pedro. Começamos a trocar e-mails de
trabalho, depois de filmes, depois de restaurantes e,
quando me dei conta, falávamos de nossa vida privada.
Isso do e-mail é uma coisa curiosa. Como não há o cara-a-cara,
você fica ousada, fica corajosa e audaciosa para paquerar.
Eu contava as horas para chegar ao trabalho e checar
minhas mensagens. Passei a me produzir só para ler os
elogios que ele me mandava. Em determinado momento,
passamos a ter um tratamento de namorados sem que absolutamente
nada tivesse acontecido entre nós. Essa engrenagem só
funcionava de segunda a sexta-feira. No fim de semana,
era como se não existíssemos um para o outro. Até então,
não havia parado para pensar em meu namorado. Várias
vezes ele me ligava e eu não atendia porque estava no
e-mail com o Pedro. Eu dizia que estava falando com
meu chefe ou com uma amiga. Ele acreditava. Em nenhum
momento me senti culpada. Não havia planejado nada daquilo.
Era como se, ao chegar ao trabalho, eu assumisse outra
personalidade. Acho que fiquei apaixonada. Dois meses
depois, terminei o namoro. Foi então que pensei que,
livre e desimpedida, poderia viver com ele o que só
estávamos ensaiando desde então. Eu já nos sentia como
namorados, mas nunca sequer nos havíamos tocado. Hoje
vejo como essa situação é esdrúxula. Como cheguei a
pensar assim? Um dia, por e-mail, sem nunca ter trocado
uma palavra sobre nosso relacionamento, combinamos de
nos encontrar em um motel à noite. Foi a única vez.
Quando acabou, era como se o encanto tivesse ido embora
junto. No dia seguinte nos ignoramos. A partir dali,
nenhuma gota de intimidade, só questões de trabalho.
Como se nada tivesse acontecido. Hoje, vejo que criei
muita coisa. Mas ele também estimulou a situação. Meu
caso terminou em sexo. Ou o sexo terminou com meu caso.
Não importa."
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Luis
Alcântara
25 anos, jornalista
 |
''Ela me mandou um e-mail para me dar uma força depois
da bronca do chefe. Até então, nunca a havia notado.
Dei uma resposta lacônica, mas a partir dali passamos
a trocar muitos e-mails. Uma fofoca de trabalho, uma
reclamação do colega ou uma mudança de tempo, tudo era
motivo para uma mensagem. Tudo o que eu via mandava
para ela. E ela para mim. Curiosamente, eu me esquecia
de enviar esses e-mails para minha namorada. Era como
se fosse muito mais interessante compartilhar essas
coisinhas com ela do que com a garota com quem me relacionava.
Eu esperava ansiosamente pelas mensagens. Chegamos a
trocar mais de vinte e-mails em uma única tarde. Pelo
computador, fala-se qualquer coisa. Até aquelas que
não se sentem. É um exercício de poder e conquista sem
a exposição de uma paquera em um bar ou coisa assim.
Um dia, ela me chamou de Lu no e-mail. E foi ali que
as coisas mudaram. Passamos a ser íntimos. Era uma intimidade
que só ocorria na tela do computador. Porém sabíamos
que havia algo entre nós, mas o que era? Se não havia
beijos, sexo, nem mesmo uma conversa frente a frente,
não tinha nada de mais, eu pensava. Um mês depois, ela
me manda um e-mail muito insinuante. Eu a convidei para
almoçar num lugar distante de nosso trabalho. Seria
nosso primeiro encontro a sós para falar de algo que
nunca tínhamos pronunciado. Trocamos carícias e nos
beijamos. Daí em diante, passamos a almoçar juntos em
dias alternados. Nosso contato físico se resumia a carinhos
e beijos na mesa dos restaurantes. E e-mails. Muitos
e-mails. A relação com minha namorada já não era a prioridade.
Fiquei confuso. Fui indagar minha amiga 'virtual' sobre
nossa 'relação'. Friamente, ela disse que não tínhamos
relação, que ela jamais trairia o namorado. E que, aliás,
era bom a gente cortar a amizade. Amizade? Ela era louca?
Dali em diante, cortamos e-mails, conversinhas, tudo.
Realmente, fiquei muito chateado. Acho que ela quis
me usar, ver até onde chegava a brincadeira. Coincidentemente,
meu namoro terminou. Lamento ter enganado minha namorada.
Aprendi que traição não se resume a sexo. Trair é fazer
algo escondido. Não interessa se você só beijou ou se
fez sexo selvagem. No momento em que esconde de sua
companheira pensamentos ou ações sobre uma terceira
pessoa, você está traindo, sim. Quem diz o contrário
mente."
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