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Quando
o dinheiro é da mulher
O
que acontece quando
ela é a provedora
Fotos Pedro Rubens
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Sete
meses atrás, a vida do casal André e Cristina Amato,
de São Paulo, sofreu uma reviravolta inesperada. André,
45 anos, chegou em casa com a notícia de que tinha sido demitido
do banco em que trabalhava havia quase duas décadas. Desde
então, André e Cristina trocaram de papéis
na rotina do casamento e inverteram a lógica convencional
reservada, desde os tempos pré-históricos, a homens
e mulheres. Com um salário equivalente a um terço
do que ganhava o marido, e grávida de sete meses, Cristina,
uma economista de 34 anos, tornou-se a provedora da família.
André passou a dedicar-se a afazeres ainda vistos como tipicamente
femininos, como cuidar da casa e dos filhos, um menino de 4 anos
e um bebê de 5 meses de idade. "Nunca pensei que fosse viver
uma situação semelhante", diz o ex-bancário.
Depois do baque do aviso prévio e do abalo nas finanças,
André e Cristina atravessaram uma fase reclusa de vida social.
Agora, o marido passa parte de suas manhãs numa empresa de
consultoria, onde aprende a recuperar a auto-estima, a melhorar
os pontos fracos e a se comportar em entrevistas de emprego.
Não
há estatísticas disponíveis no Brasil, mas
existem sinais de que o casal Amato é personagem de uma transformação
social silenciosa, que está redesenhando talvez de
forma definitiva a natureza das relações familiares,
a forma como homens e mulheres se relacionam e a própria
imagem que cada um tem de si e de seu papel na sociedade. Certamente
você conhece ou já ouviu falar de algum caso em que
a mulher assumiu as rédeas do lar e é a principal
se não a única fonte de renda da família.
Em tempos de recessão, a tendência se torna mais perceptível
por causa do aumento do desemprego. No decorrer de todo o ano de
2003, o índice de desemprego rondou os 12% nas seis principais
regiões metropolitanas do país. Esse é um problema
que atinge a ambos os sexos e que, na atual conjuntura nacional,
pode ser considerado amplo, geral e irrestrito. Mas há vários
indicadores de que os homens estão sendo mais afetados pelo
pesadelo da falta de emprego que as mulheres, que driblam melhor
a recessão. Em primeiro lugar, como as mulheres chegaram
ao mercado de trabalho mais tarde que os homens, eles ainda formam
a maioria da mão-de-obra e, portanto, são mais atingidos
pelas ondas de corte e terceirização. Além
disso, os setores em que as mulheres predominam, como educação
e cosméticos, tradicionalmente sofrem menos com a recessão.
Por último, embora a diferença salarial esteja caindo,
os homens ainda ganham mais que as mulheres. Quando cortar custos
se torna uma exigência, nada mais lógico do que extinguir
cargos pelo topo.
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O fenômeno
da conversão de famílias a um novo matriarcado vai,
porém, muito além das agruras econômicas conjunturais.
Está relacionado também a uma mudança que vem
fermentando há décadas e se reflete no fato de que
nunca antes uma geração de mulheres esteve tão
preparada para o mercado de trabalho. Atualmente, elas estão
sendo contratadas em maior número que os homens, sobem mais
rapidamente na carreira e chegam ao mercado de trabalho mais bem
preparadas. Em 2001, o número de mulheres que concluíram
o curso universitário foi 66% maior que o de homens. Na seleta
fatia de executivas que ocupam cargos de diretoria e presidência,
a excelência acadêmica das mulheres é ainda mais
notável: 71% delas têm MBA. "A formação
acadêmica deixou de ser uma complementação de
educação e passou a ser encarada pelas mulheres como
uma necessidade para a contratação profissional",
diz a consultora Diana Mochcovitch, do Grupo Catho no Rio de Janeiro,
empresa de consultoria em recursos humanos. Essa extraordinária
ascensão feminina no mercado de trabalho não poderia
deixar de ter conseqüências na organização
familiar, com as mulheres também assumindo o papel de cabeça
do lar. Nos EUA, onde essas mudanças costumam ser detectadas
mais rapidamente, uma recente pesquisa do Bureau of Labor Statistics,
uma espécie de Dieese americano, apontou que 5,6% dos casais
têm uma mulher que trabalha e um homem que está em
casa (no início dos anos 90, esse índice não
chegava a 1%). Se forem considerados os casais em que as mulheres
fornecem mais de 60% da renda familiar, esse porcentual chega a
11%.
No
Brasil, um em cada quatro lares é chefiado pela mulher. O
alto número de famílias lideradas por mães
solteiras ou mulheres abandonadas pelo marido, sobretudo nos segmentos
de renda mais baixa, explica essa proporção mais alta.
A tendência da inversão de papéis no matrimônio,
assim, acaba sendo mais sentida nas classes alta e média.
Um levantamento da empresa carioca Perfil Consultores Executivos
mostra que 33% das executivas ganham mais que o marido e 26% delas
são consideradas cabeça do casal. Ou seja, são
elas que administram o orçamento familiar e decidem até
qual é o melhor investimento no banco.
Em
sua maioria, os homens declaram-se envaidecidos com o sucesso profissional
de sua parceira. Mas o homem colocar-se numa posição
de inferioridade em relação a uma mulher no casamento
é uma situação nova que, naturalmente, causa
tensões e conflitos. Do lado feminino, a responsabilidade
de sustentar a família é uma pressão para a
qual elas não estavam preparadas. Para a maior parte dos
homens, um abalo na imagem do macho provedor parece ser um choque
ainda mais difícil de absorver. O embaraço para eles
é maior se a dependência da mulher tiver sido provocada
pelo desemprego. A falta de emprego vira um estigma, que pode provocar
angústia e queda da auto-estima. A inversão de papéis
pode causar problemas ainda mais delicados que a competição
interna no casal. Sabe-se que as mulheres costumam considerar o
potencial financeiro de um futuro candidato a marido. Se as expectativas
não correspondem, é natural que o casamento passe
por abalos até na vida sexual.
Na
sociedade, por séculos e séculos, dinheiro, poder
e status foram associados à figura masculina. Os especialistas
e os dados indicam, porém, que o poder econômico das
mulheres só tende a crescer. Adaptar-se a essa situação
emergente vai exigir uma mudança de comportamento de homens
e mulheres. "No século XXI, homens e mulheres vão
ter de aprender a conviver com essa nova realidade, e isso vai exigir
de ambos os sexos outras atitudes que contrariam valores profundamente
enraizados e até instintos primários", diz o psicanalista
carioca Joel Birman. Mulheres crescidas e educadas para viver num
escritório e que carregam no DNA a vocação
para o trabalho provavelmente terão de aprender a valorizar
outras qualidades em um homem na hora de escolher o marido, como,
por exemplo, sua habilidade e sensibilidade para cuidar dos filhos.
Do lado dos homens, o potencial financeiro da mulher vai também
subir, com certeza, no ranking dos atributos femininos mais apreciados.
É aguardar para ver.
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