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A
história de uma foto
As
dificuldades envolvidas na revelação
da verdadeira sexualidade, contadas
por quem sabe do que fala
O empresário
paulista Mauro Ferraz, 43 anos, nunca escondeu sua homossexualidade,
mas não costuma alardear sua preferência sexual. Em
função de seu estilo reservado, muitas vezes surpreendeu
amigos para quem, depois de algum tempo de convivência, revelou
ser gay. Alguns deles, após saber da notícia, se afastaram
e o contato com outros ficou restrito a telefonemas esporádicos.
De um terceiro grupo, no entanto, recebeu o tratamento que esperava:
a amizade se manteve inabalada. Quatro de seus amigos verdadeiros
concordaram em se deixar fotografar ao lado de Ferraz para esta
reportagem. A seguir, eles relatam o que sentiram ao saber da homossexualidade
do amigo, no momento em que Mauro Ferraz abriu o jogo, e analisam
como a revelação afetou o relacionamento. Ferraz também
foi entrevistado.
Claudio Rossi
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| Da
esq. para a dir., Tânia, Pedro, Regina, Mauro e Walter: amizade
inabalada depois da revelação |
1.
A ex-namorada
Tânia
Canadá, 39 anos, sommelière
"Conheci
o Mauro por telefone. Quando o vi pessoalmente, pensei comigo: 'É
ele!'. Foi paixão à primeira vista. Mauro é
alto, lindo, doce, culto, carinhoso... Começamos a sair e,
depois de três meses, armei uma festa-surpresa no dia do seu
aniversário. Peguei escondido a lista dos melhores amigos
e a maioria deles era homem. Não suspeitei de nada. Pelo
contrário, achei ótimo não ter outras possíveis
concorrentes no pedaço. No meio da festa, o Mauro me chamou
para o quarto e disse que o amigo que havia me ajudado a armar a
surpresa tinha sido seu namorado por onze anos. Não consegui
ouvir mais nada. Fui embora chorando. Fiquei apavorada e tive pensamentos
contraditórios. Ao mesmo tempo em que senti ódio,
pensei também em reconquistá-lo, pode? Passou-se um
ano sem que nos falássemos. Um dia, resolvi ligar para ele,
marcamos um cinema e saímos de lá amigos."
2.
O melhor amigo
Pedro Mello, 34 anos, empresário
"Conviver
com um gay tem inúmeras vantagens. Os homossexuais são
divertidos, alegres e, principalmente, não falam sempre sobre
as mesmas coisas. Quando homens heterossexuais se juntam, é
para conversar sobre mulher, trabalho e futebol. Descobri que o
Mauro era gay por acaso. Tínhamos amigos em comum e estava
numa roda com eles quando um dos rapazes contou que tinha namorado
o Mauro. Fiquei um pouco surpreso, mas qualquer pensamento sobre
a sexualidade dele parou ali. Continuamos grandes amigos. O Mauro
tem um companheiro muito bacana. Em diversas ocasiões eu
e minha mulher os convidamos para participar de programas típicos
de dois casais que se dão bem: cinema, teatro, restaurante.
Sei que isso não é tão comum e entendo as razões
do preconceito. A amizade entre o homossexual e o hétero
é delicada. Muitos gays ultrapassam o limite e assediam,
mesmo sabendo que você não é do ramo."
3.
A melhor amiga
Regina
Telechun, 46 anos, publicitária
"Certa
vez, durante um passeio com nossos cachorros, o Mauro fez um comentário
sobre um ex-namorado dele. Eu já sabia que ele era gay, através
de um amigo comum. Achei legal o Mauro ter se aberto comigo. Tomei
aquilo como uma prova de que confiava em mim. Ele continua sendo
um dos meus melhores amigos, o único gay. É uma relação
diferente. Certa vez, por exemplo, o pneu do meu carro furou em
uma rua escura perto de casa. Chamei um funcionário do condomínio
para me ajudar. No dia seguinte, comentei o episódio com
o Mauro, que me deu uma bronca por não tê-lo avisado.
Na próxima, vou recorrer a ele. Não chamaria uma mulher
para me socorrer, entende? Como sou separada, recorro muito a ele
quando tenho problema com meu filho de 10 anos. Tenho amigas que
acham isso um absurdo. Falam que ele pode ser influenciado negativamente
pelo Mauro. Puro preconceito. Ninguém vira gay para copiar
alguém!"
4.
O personagem
Mauro
Ferraz, 43 anos, empresário
"Sou
um gay bem resolvido. Já tive casos com mulheres, mesmo convencido
de que meu interesse real é por homens. Aos 19 anos, resolvi
abrir o jogo para o Walter, que é heterossexual e me contou
que já desconfiava de tudo. O bacana é que nossa relação
nunca mudou. Imaginando que a reação das pessoas fosse
ser amena como nesse caso, procurei outro grande amigo. Na hora
de contar, eu gesticulava muito durante a conversa e, sem querer,
minha mão esbarrou na perna dele. O olhar de censura que
ele lançou dispensava palavras. Ele não queria saber
de nada. Felizmente, a reação negativa representou
uma exceção. Sempre fui aceito. As amizades que ficam
depois de um certo tempo na vida são aquelas com as quais
você tem afinidades de fato, independentemente de sua preferência
sexual."
5.
O amigo de infância
Walter
Ponge, 41
anos, professor universitário
"Eramos
adolescentes e estávamos fazendo um curso de pára-quedismo
no interior de São Paulo quando o Mauro chegou para mim e
disse: 'Sou gay'. Eu já desconfiava. Apesar de ser um sujeito
discreto e sem nenhum tipo de afetação, o Mauro começou
a mudar por volta dos 18 anos. Tocava em assuntos relacionados à
homossexualidade e, ao mesmo tempo, a quantidade de gays presentes
a suas festas era cada vez maior. É claro que ter um amigo
assim muda um pouco as coisas. É como se a amizade fosse
colocada à prova algumas vezes. Preocupo-me com isso até
hoje. Não por temer uma cena de assédio por parte
do Mauro, mas por medo de ser confundido com um gay. Certa vez fui
com ele a um parque de diversões em São Paulo. Na
mesma turma havia outros amigos de Mauro, muito mais bandeirosos.
Vi de longe que um grupo de meninas nos olhou e desconfiou. Tive
um impulso de ir até lá para esclarecer a situação,
mas acabei me controlando. É preciso ter sangue-frio nessas
horas e lembrar que uma amizade verdadeira é mais valiosa
do que qualquer tipo de insinuação."
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