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Elas
são chefes e eles detestam
Nas
empresas atuais, trava-se uma guerra surda
entre homens em posição de subordinação
e mulheres
hierarquicamente superiores. Eles criticam a arrogância
e a exigência das mais poderosas
Photodisc
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Uma
crença vigente entre diretores de recursos humanos e headhunters
é que a tensão nos escritórios estaria diminuindo
em conseqüência da ascensão das mulheres a postos
de comando e direção nas empresas. As mulheres teriam
algumas qualidades intrínsecas, que faltam à maioria
dos homens, para ocupar cargos de chefia: elas seriam mais habilidosas
e compreensivas, escutariam com mais atenção as queixas
dos subordinados e seriam mais sensíveis para lidar com os
problemas pessoais dos empregados. Tudo isso estaria contribuindo
para uma maior harmonização dos espíritos nos
ambientes de trabalhos. Uma pesquisa Vox Populi, encomendada por
VEJA derruba este mito. Segundo a pesquisa, a maioria dos entrevistados
detestou ser chefiado por mulheres. Onde os consultores vêem
virtudes, a maioria dos homens, pelos resultados da pesquisa, só
enxergam defeitos: as mulheres seriam inseguras, excessivamente
emotivas, competitivas e, acima de tudo, arrogantes. "Alguém
disse que elas são mais inteligentes do que os homens e elas
passaram a se achar o máximo", disse um dos entrevistados
durante o debate.
Nas
empresas, trava-se uma guerra surda entre homens em posição
de subordinação e mulheres hierarquicamente superiores.
O que mais os irrita ao serem chefiados por mulheres é o
grau de exigência feminino quando elas estão na posição
de dar ordens. Na Kodak do Brasil, empresa que implantou há
cinco anos um programa de valorização do sexo feminino,
as reclamações mais freqüentes são que
as chefes "pedem coisas desnecessárias", "são
exigentes demais" e "são muito rigorosas na aplicação
das regras", segundo o diretor de recursos humanos, Cármine
Neto. O programa de incentivo a promoções de mulheres
a cargos de chefia passou a sofrer críticas dos homens porque
seria discriminatório. No ano passado, a promoção
de uma mulher de encarregada para supervisora do controle de produção
na fábrica da Kodak em Manaus foi motivo para um quiproquó.
"O gerente de produção que sugeriu a mudança
de cargo teve que dar várias explicações aos
homens que passaram a ser chefiados por ela", lembra Cármine
Neto.
Outra
fonte de conflito é o comportamento mais emocional das mulheres,
uma qualidade em geral pouco apreciada pelos subordinados em seus
chefes. Segundo uma pesquisa do grupo Catho, empresa de consultoria
da área de recursos humanos, o descontrole emocional é
a terceira característica mais negativa que um chefe pode
ter - só perde para a preguiça e a falsidade. Assim,
a propensão das mulheres às lágrimas - um estudo
feito pelo Dry Ear and Tear Research Center em Minnesota revelou
que 85% das mulheres se sentem melhor depois de chorarem numa situação
de estresse - acaba sendo visto pela maioria dos homens como um
típico chilique ou faniquito feminino. "A combinação
de mais sentimentalidade e menos racionalidade irrita os homens,
que estão vendo as mulheres serem promovidas a cargos de
chefia antes deles. Se ela for mais nova que ele, aí a situação
é de tensão permanente", diz Thomas Case, sócio-fundador
do grupo Catho. Considerando-se que as mulheres estão chegando
aos cargos de chefia mais jovens do que os homens - as mulheres
diretoras têm, em média, 38 anos, contra 41 anos dos
homens - pode-se supor que muitas empresas estão se transformando
em um campo minado.
Um
exemplo dos desencontros trabalhistas entre homens e mulheres, quando
a chefe veste saias, foi vivido pelo consultor autônomo Paulo
Zanzoni Rodrigues, 29 anos. Quando trabalhava na área de
cimentos de uma grande empreiteira nacional, ele foi demitido pela
sua chefe. Segundo reclama Zanzoni, ele entrou em um projeto de
marketing que exigia reforço de pessoal, mas a chefe não
lhe deu suporte. O resultado foi a sua exoneração.
"Ela disse que ia resolver e não fez nada. Era nova
e insegura e não queria assumir nenhum decisão que
pudesse desagradar a chefia. Depois, sem que eu soubesse, ainda
falou mal de mim para outros gerentes, o que me desgastou na empresa",
queixa-se Zanzoni.
Muitas
das reclamações masculinas vêm carregadas de
alguns velhos preconceitos machistas. Além de a ascensão
feminina aos postos de chefia ser um fenômeno relativamente
novo, os homens também estão pouco acostumados a serem
cobrados pelas mulheres, porque costumam esperar delas sempre um
tratamento mais dócil e tolerante. Quando sofrem exigências
mais duras, acham que estão sendo traídos por elas.
Há, porém, também uma parcela de culpa das
mulheres nesse conflito. Afinal não são só
os homens que reclamam da arrogância de certas chefes. Elas
(e como!) também se queixam e, em geral, preferem estar sob
o comando de um homem no escritório. Uma razão para
isso é que mulheres que subiram aos escalões mais
altos de suas carreiras tiveram de adotar um comportamento tipicamente
masculino e ser mais duronas do que os próprios homens para
chegar ao topo. "A mulher que alcança postos de destaque
é realmente competitiva, pois precisa romper regras culturais
que ainda dificultam a sua promoção na carreira",
diz Patrícia Molinos, diretora da empresa de consultoria
KPMG. "Mas ela precisa saber que ao adotar um modelo mais masculinizado
de chefia, estará deixando de lado características
que a diferenciam e que muitas vezes a levaram ao cargo", acrescenta
Molinos.
Um
dos aspectos mais reveladores da pesquisa Vox Populi é que
os entrevistados que declararam ter ótimo relacionamento
com mulheres chefes foram justamente os mais bonitinhos e arrumados
- sinal da reprodução de uma postura antes condenada
como tipicamente machista . Pode-se dizer, de certa forma, que muitas
mulheres que subiram profissionalmente ainda vivem uma crise de
identidade, que se reflete até na maneira pasteurizada como
se vestem. Elas não encontraram um padrão de comportamento
que seja um meio-termo: nem tão agressiva e workaholic, nem
tão compreensiva e vulnerável. Enquanto esse mundo
ideal não chega, a solução para os homens que
trabalham sob o jugo feminino, segundo o professor Júlio
Lobos, autor de 15 livros sobre temas do mundo do trabalho, é
tentar compreender as diferenças entre os chefes e as chefes.
"Se o homem entende e valoriza essas diferenças, ele
passa a respeitar a contribuição que a mulher traz
ao trabalho", diz Lobo. "Mas a verdade é que vai
demorar muito até a igualdade dos sexos chegar às
paredes do escritório", afirma.
É
um sinal dos novos tempos. Com a invasão dos saltos altos
nos escritórios e ambientes de trabalho, homens e mulheres
vêm travando disputas cada vez mais acirradas por cargos,
promoções e prêmios. A novidade é que
agora elas, quase sempre, estão levando a melhor. Segundo
uma recente pesquisa feita em todo o Brasil pelo Grupo Catho, uma
das maiores empresas de recursos humanos do país, as mulheres
estão sendo contratadas em maior proporção
que os homens. Elas já são maioria em muitas empresas
e também são promovidas mais rapidamente do que eles
a cargos de direção em pequenas e médias companhias.
Hoje, 20% dos cargos executivos nas empresas são ocupados
por mulheres. Há pouco menos de uma década, essa proporção
não passava de 13%. Como resultado da inevitável ascensão
feminina, a diferença de remuneração entre
homens e mulheres em cargos executivos, antes de quase 20% a favor
deles, agora está reduzida para cerca de 10%. "Até
os cargos de nível médio, as mulheres demoram mais
a crescer dentro das empresas do que os homens. A partir dali, o
crescimento delas é mais veloz", diz Miriam Adissi,
diretora geral da Catho.
Atônitos,
alguns homens observam o avanço feminino no seu antigo feudo
como uma nova invasão dos hunos. Na pesquisa Vox Populi,
encomendada por VEJA, a maioria dos entrevistados se queixou de
concorrência desleal por parte das mulheres. As reclamações
são de um machismo de doer. Eles dizem que as mulheres costumam
ter um tratamento mais condescendente dos chefes por serem mulheres
e usam os velhos truques da sedução feminina para
conseguir vantagens no trabalho. Se o filho estiver doente e precisar
ir ao médico, ela pode sair mais cedo que ninguém
ficará olhando de esguelha. Mulher pode (não deveria,
mas pode) entrar na sala do chefe em um dia de trabalho infernal
e desabar numa crise de choro - ainda assim não parecerá
um escândalo, principalmente se ela estiver em uma dia de
TPM. Por mais estressado que esteja, o chefe também nunca
vai lidar aos berros com uma subordinada, da mesma forma que poderia
fazer com o colega dela na mesa ao lado. Um certo código
de cavalheirismo ainda vigente entre os homens torna condenável
esse tipo de comportamento.
"A
mulher ainda está cercada por uma redoma protetora dentro
do ambiente de trabalho", observa o engenheiro carioca Felipe
Aragão, que trabalha em um dos poucos ambientes onde ainda
há total predominância masculina: a mesa de operações
de um banco de investimentos. "Se um chefe gritar comigo, no
dia seguinte eu já vou ter esquecido. Com uma mulher, vai
dar uma semana de dor de cabeça e inviabilizar o trabalho.
Por isso, o tratamento com elas tende a ser mais suave e tolerante",
diz Aragão, que acredita já ter sido rejeitado numa
seleção de trabalho porque a empresa tinha preferência
pela contratação de uma pessoa do sexo feminino. Ouvir
esse tipo de lamúria está cada vez mais corriqueiro.
Em processos em que homens procuram a empresa em busca de recolocações
no mercado de trabalho, é comum que executivos se queixem
de que foram preteridos em uma promoção por causa
de uma concorrente feminina. No confessionário da mesa de
entrevista, acabam resvalando para os ataques a supostos golpes
baixos das mulheres, que, armadas do mesmo know-how técnico,
ainda recorrem ao arsenal emocional ou da atração
sexual para ascenderem profissionalmente.
É
obvio que em muitas áreas - marketing, por exemplo - a beleza
ou um simples toque feminino ajuda a abrir portas e facilita contatos.
"Uma mulher bonita ou bem produzida normalmente consegue o
que quer e é atendida com mais boa vontade", reconhece
Guilherme Guimarães, assistente de marketing da Glaxo SmithKline.
Ele já cansou de ver alguma colega obter informações
mais rápido do que ele pelo fato de simplesmente ser mulher.
Na Advice Net Business, todas as funcionárias da gerência
de projetos, área onde é mais estreito o contato com
clientes, são mulheres. Guilherme Iglesias, diretor comercial,
financeiro e administrativo da Advice, nega que a sedução
feminina seja usada como estratégia comercial, mas observa
que algumas "habilidades naturais femininas", como paciência
e atenção a detalhes, são trunfos no relacionamento
com os clientes. "Até a voz é mais agradável
de ouvir", diz. "O executivo que lida com ela também
vai ser mais delicado. Com o homem, um embate de idéias pode
acabar em bate-boca."
Acreditar,
porém, que a ascensão feminina no mundo do trabalho
se deve a um maior traquejo delas com roupas, maquiagem ou o jogo
do charme é uma visão equivocada e cheia de preconceitos.
"O homem ainda não está preparado para competir
com a mulher. Isso fere os seus brios e a facilidade natural da
mulher em administrar o incomoda", diz a consultora Miriam
Adissi. As mulheres costumam ser mais concentradas, dedicadas, atentas
a detalhes e afeitas ao trabalho em equipe, observa o vice-presidente
de automóveis da Seguradora Sul América, Julio Avellar.
Depois de 26 anos de experiência profissional, Avellar aprendeu
a dar preferência às mulheres no trabalho e comanda
um setor onde 60% dos 2 mil funcionários são do sexo
feminino.
Algumas
qualidades inatas contribuem também para que as mulheres
se destaquem cada vez mais no mundo corporativo. Acostumadas a jornadas
de trabalho duplas, até triplas, elas costumam ter uma incrível
facilidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo. É
normal que ao entrar às 9h no escritório, uma mulher
já tenha despachado com a empregada, levado as crianças
à escola e ido à academia de ginástica. Na
hora do almoço, elas comem uma saladinha rápida para
fazer compras no shopping center ou ir ao salão. Com uma
agenda semelhante, os homens simplesmente enlouqueceriam. "Elas
são multi-tarefas, estrategistas natas", brinca Marcelo
Nacif, diretor de planejamento da Advice. Outra virtude - que os
homens costumam atribuir ao pendor feminino pela fofoca - é
a capacidade, desde o primeira dia de trabalho, de tomar conhecimento
de tudo o que está se passando no escritório. "Mas
os homens têm outras qualidades: são objetivos, centrados
e inspiram confiança. Não há porque se estranhar
por isso. As empresas precisam de homens e mulheres com suas características
próprias", Adriana Fellipelli, da sócia-diretora
da consultoria Right Saade Fellipelli.
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