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Libertar pela
arte
Projetos
utilizam atividades artísticas
como
ferramenta de transformação das condições
de vida de crianças e adolescentes
Montagem de Anderson Marçal sobre fotos
de Mila Petrillo
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Eis
uma história do Brasil: aos 9 anos, Claudinei Xavier de Oliveira,
de São Paulo, era considerado um caso perdido. Tinha sido
abandonado pela mãe. O pai, desempregado, era alcoólatra.
Os cinco irmãos estavam em orfanatos. "Eu achava que não
passaria dos 16 anos", conta o rapaz, que um dia foi convidado pelo
músico Flávio Pimenta a participar de aulas de percussão
com outros garotos do bairro. Dinei, como é conhecido, nunca
tinha assistido a uma aula, do que quer que fosse, em toda a vida.
Pegou gosto pela música. E tornou-se um dos integrantes do
grupo Meninos do Morumbi, organização sem fins lucrativos
que dá aulas de música a 1 300 crianças e adolescentes
carentes de São Paulo. Atualmente, Dinei é um dos
funcionários do projeto e recebe 350 reais por mês.
Metade ele entrega ao pai. O restante guarda na poupança
para pagar uma faculdade de música ou de engenharia
cursando a 7ª série do supletivo de 1º grau, ele
ainda não decidiu.
Os projetos que utilizam a arte como instrumento de recuperação
da cidadania estão ajudando a salvar a vida de milhares de
jovens como Dinei. O Projeto Axé, que beneficia meninos de
rua de Salvador, é um exemplo bem-sucedido de trabalho educacional
que usa a arte como fio condutor. Em onze anos, 8 000 crianças
e adolescentes passaram pela instituição. "Não
queremos fazer um projeto qualquer para crianças pobres,
mas garantir uma educação completa com alto nível
de ensino", diz Cesare La Rocca, presidente do Axé. Além
de aulas de teatro, dança, música e artes plásticas,
os jovens têm cursos de informática, inglês,
português, cidadania e higiene.
Utilizando música de capoeira como estímulo à
leitura, o Espaço Daruê Malungo, do Recife, conseguiu
fazer com que 70% dos jovens assistidos ingressassem na escola.
"Não temos a pretensão de formar profissionais na
área artística, mas melhorar a autoconfiança
e desenvolver a consciência crítica", afirma Dora Andrade,
coreógrafa e idealizadora da Escola de Dança e Integração
Social para Criança e Adolescente, que ensina dança
a meninas pobres de Fortaleza. Muitos jovens acabam seguindo carreira.
Os garotos da Banda Mirim Olodum, mantida pelo Grupo Cultural Olodum,
de Salvador, podem integrar a banda profissional depois que completam
18 anos. Há exemplos parecidos, como o do Grupo Cultural
AfroReggae, que começou com oficinas de reciclagem de papel
e outros materiais, dança afro e percussão na favela
de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, e o da Escola Pracatum
de Música, fundada pelo músico Carlinhos Brown, em
Salvador.
O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas,
da Universidade Federal de São Paulo, fez um estudo sobre
a situação de meninos de rua em seis capitais brasileiras
e constatou que menos de 5% mantêm a expectativa de melhorar
de vida. "Eles não conseguem enxergar um futuro digno", afirma
Graziela Bedoian, coordenadora do Projeto Quixote, que em cinco
anos atendeu 1 500 menores de rua de São Paulo. "Por causa
disso, seus desejos são imediatistas." A arte facilita a
comunicação e dá novo sentido à vida
das crianças.
Recentemente, a Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(Unesco) elegeu como modelo trinta instituições brasileiras
que trabalham com arte e educação. Um número
ainda maior de centros de atendimento possui oficinas de artes plásticas,
música e teatro. Segundo o estudo da Unesco, o custo mensal
por jovem nos projetos de arte e educação varia de
50 a 500 reais. Para manter um menor na Febem, o gasto do governo
é de 1 800 reais por mês. Ninguém espera que
a música vá recuperar o garoto que estupra e mata,
mas os números mostram algo importante. Quanto mais a sociedade
se dispuser a investir em projetos sociais na fase inicial da adolescência,
antes que o crime e os criminosos surjam na vida da garotada, menos
riscos os jovens correm de ir parar na cadeia.
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