Índice
Carta ao leitor
Apresentação
  O Brasil já conta com cerca de 20 milhões de voluntários  
  O que leva as pessoas a sair de casa e ajudar o próximo  
  Algumas entidades filantrópicas são maiores que grandes empresas  
  Stephen Kanitz - O importante é começar  
  Iniciativa privada investe na comunidade  
  Mais da metade das companhias já desenvolvem projetos sociais  
  Oded Grajew - O futuro está em nossas mãos  
  A transformação da filantropia ao longo dos séculos  
  Alguns doam uma hora por semana. Outros dedicam a vida inteira  
  Zilda Arns - Os príncipes e os mendigos  
  Com a doação via internet, até os mais preguiçosos podem fazer o bem  
  Comunidade Solidária muda a atuação do governo na área social  
 

Guia rápido da cidadania
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  Você possui credenciais para iniciar um projeto social próprio?  
  Atividades artíticas transformam a vida de crianças carentes  
  Principais campanhas filantrópicas nacionais  
  Escolha a quem ajudar na lista de 431 instituições filantrópicas selecionadas por VEJA  
  Milu Villela - Começamos a década do voluntariado  
  Como as pessoas ajudam e como outras são ajudadas  
EXCLUSIVO ON-LINE
  O vale-tudo das entidades para arrumar dinheiro junto à sociedade  
  O terceiro setor tornou-se um mercado de trabalho atraente  
  Dos Estados Unidos à Turquia, cresce a legião de voluntários no planeta  
  Conheça alguns famosos que emprestam sua imagem para impulsionar campanhas filantrópicas, dão contribuições em dinheiro e fundam organizações não-governamentais  
 

 

 
 

Libertar pela arte

Projetos utilizam atividades artísticas como
ferramenta
de transformação das condições
de vida de crianças e adolescentes

 
Montagem de Anderson Marçal sobre fotos de Mila Petrillo

Eis uma história do Brasil: aos 9 anos, Claudinei Xavier de Oliveira, de São Paulo, era considerado um caso perdido. Tinha sido abandonado pela mãe. O pai, desempregado, era alcoólatra. Os cinco irmãos estavam em orfanatos. "Eu achava que não passaria dos 16 anos", conta o rapaz, que um dia foi convidado pelo músico Flávio Pimenta a participar de aulas de percussão com outros garotos do bairro. Dinei, como é conhecido, nunca tinha assistido a uma aula, do que quer que fosse, em toda a vida. Pegou gosto pela música. E tornou-se um dos integrantes do grupo Meninos do Morumbi, organização sem fins lucrativos que dá aulas de música a 1 300 crianças e adolescentes carentes de São Paulo. Atualmente, Dinei é um dos funcionários do projeto e recebe 350 reais por mês. Metade ele entrega ao pai. O restante guarda na poupança para pagar uma faculdade de música ou de engenharia – cursando a 7ª série do supletivo de 1º grau, ele ainda não decidiu.

Os projetos que utilizam a arte como instrumento de recuperação da cidadania estão ajudando a salvar a vida de milhares de jovens como Dinei. O Projeto Axé, que beneficia meninos de rua de Salvador, é um exemplo bem-sucedido de trabalho educacional que usa a arte como fio condutor. Em onze anos, 8 000 crianças e adolescentes passaram pela instituição. "Não queremos fazer um projeto qualquer para crianças pobres, mas garantir uma educação completa com alto nível de ensino", diz Cesare La Rocca, presidente do Axé. Além de aulas de teatro, dança, música e artes plásticas, os jovens têm cursos de informática, inglês, português, cidadania e higiene.

Utilizando música de capoeira como estímulo à leitura, o Espaço Daruê Malungo, do Recife, conseguiu fazer com que 70% dos jovens assistidos ingressassem na escola. "Não temos a pretensão de formar profissionais na área artística, mas melhorar a autoconfiança e desenvolver a consciência crítica", afirma Dora Andrade, coreógrafa e idealizadora da Escola de Dança e Integração Social para Criança e Adolescente, que ensina dança a meninas pobres de Fortaleza. Muitos jovens acabam seguindo carreira. Os garotos da Banda Mirim Olodum, mantida pelo Grupo Cultural Olodum, de Salvador, podem integrar a banda profissional depois que completam 18 anos. Há exemplos parecidos, como o do Grupo Cultural AfroReggae, que começou com oficinas de reciclagem de papel e outros materiais, dança afro e percussão na favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, e o da Escola Pracatum de Música, fundada pelo músico Carlinhos Brown, em Salvador.

O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal de São Paulo, fez um estudo sobre a situação de meninos de rua em seis capitais brasileiras e constatou que menos de 5% mantêm a expectativa de melhorar de vida. "Eles não conseguem enxergar um futuro digno", afirma Graziela Bedoian, coordenadora do Projeto Quixote, que em cinco anos atendeu 1 500 menores de rua de São Paulo. "Por causa disso, seus desejos são imediatistas." A arte facilita a comunicação e dá novo sentido à vida das crianças.

Recentemente, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) elegeu como modelo trinta instituições brasileiras que trabalham com arte e educação. Um número ainda maior de centros de atendimento possui oficinas de artes plásticas, música e teatro. Segundo o estudo da Unesco, o custo mensal por jovem nos projetos de arte e educação varia de 50 a 500 reais. Para manter um menor na Febem, o gasto do governo é de 1 800 reais por mês. Ninguém espera que a música vá recuperar o garoto que estupra e mata, mas os números mostram algo importante. Quanto mais a sociedade se dispuser a investir em projetos sociais na fase inicial da adolescência, antes que o crime e os criminosos surjam na vida da garotada, menos riscos os jovens correm de ir parar na cadeia.

 
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