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Persistência,
liderança e envolvimento
Será
que você possui as credenciais para
iniciar seu próprio projeto social?
Bruno Veiga/Strana
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| Rodrigo
Baggio: 285 escolas de informática "popular"
no Brasil |
Criar uma entidade assistencial não é diferente de
iniciar uma empresa. E o empreendedor social, como se pode chamar
esse tipo de líder, não fica a grande distância
de um empresário. Persistência, liderança e
envolvimento com os interesses da comunidade são algumas
das principais características dos fundadores de entidades
filantrópicas.
"O
que diferencia os líderes sociais é que eles têm
idéias inovadoras para as questões tradicionais",
explica Marcos Kisil, presidente do Instituto para o Desenvolvimento
do Investimento Social (Idis). Muitos começam sozinhos, às
vezes contra a vontade dos próprios parentes. É o
caso de Zulmira Petronilia Aguiar, de 69 anos, que há vinte
dedica parte de seu tempo ao trabalho social com mulheres e crianças
da zona de prostituição da cidade de Parnaíba,
no Piauí. Ali funciona a Fundação Ninho, que
começou com uma oficina de costura no bar de um dos bordéis
para oferecer uma opção profissional às mulheres
já não tão atraentes. "Todos achavam que eu
estava louca, inclusive meu marido", conta Zulmira, que hoje administra
uma creche para 260 crianças em idade escolar, filhos de
mães solteiras. Costureira, dona de um pequeno mercado, católica
fervorosa e mãe de sete filhas, Zulmira diz ter-se inspirado
na religião. "Quando perdi um filho, resolvi trabalhar para
os excluídos", diz.
Quando
o nível de preocupação pessoal com uma causa
é maior que o que leva a doar, uma boa alternativa é
assumir responsabilidade maior. Tanto pode ser participando ativamente
em uma instituição já existente quanto iniciando
a própria, desde que se saiba que será uma dura empreitada.
Em São Paulo, a pedagoga Dagmar Garroux criou há sete
anos a Casa do Zezinho, um projeto que hoje oferece educação
a 520 crianças e jovens do Campo Limpo, na periferia de São
Paulo. Os primeiros anos foram duros, sobretudo financeiramente,
mas agora a entidade tem parceiros de peso, como a Xerox do Brasil
e o BNDES. "Era meu sonho tirar essas crianças do convívio
com os traficantes", diz Dagmar. Ela e Zulmira apresentam o típico
perfil valorizado pelas empresas e fundações que costumam
financiar entidades filantrópicas. Mesmo com profissão
e situação social diferentes, elas têm em comum
a sensibilidade para os problemas sociais. Começaram com
um esforço quase anônimo, persistiram e foram conquistando
parcerias.
Antonio Milena
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| A
alemã Ute Craemer (de frente): 1 100 crianças
em projetos nas áreas de saúde e educação
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Esses empreendores são tão difíceis de encontrar
que nos Estados Unidos se criou há vinte anos uma entidade,
a Ashoka, apenas para cuidar da identificação dos
chamados empresários sociais. Em sânscrito, ashoka
quer dizer fim da tristeza. Para a instituição, esses
líderes têm características semelhantes às
dos mais competentes homens de negócios. É gente capaz
de transformar a realidade em que vive. "Os líderes pensam
de forma estratégica e são obcecados pela causa que
abraçam", explica Mônica de Roure, diretora de operações
internacionais da Ashoka. Desde 1996, a entidade vem trabalhando
no Brasil em parceria com a empresa de consultoria McKinsey para
auxiliar as organizações sociais a caminhar com as
próprias pernas. Para tanto foi criado o Centro de Competência
para Empreendedores Sociais (CCES), que promove treinamento, dá
consultoria e ministra cursos que buscam aumentar o impacto social
das organizações e de seus profissionais.
O
empresário carioca Rodrigo Baggio, de 32 anos, está
entre os líderes que receberam apoio da Ashoka. Ele criou
um projeto para levar conhecimentos de informática aos jovens
da periferia do Rio de Janeiro. Com o apoio recebido, estruturou
o Comitê para Democratização da Informática,
hoje com 285 escolas no Brasil. Baggio foi premiado com uma bolsa
de 2 700 reais mensais por três anos, a partir de 1996. Segundo
a experiência da Ashoka, muitos dos líderes sociais
assumem essa condição depois de enfrentar um trauma
na vida pessoal. Pode ser um acidente, uma decepção,
uma separação ou um conflito qualquer. Ou seja, eles
foram impulsionados de alguma forma para uma motivação
que certamente já possuíam. O artista plástico
paulista Eduardo Valarelli mudou sua rotina depois de passar 25
dias no hospital, vítima de um acidente. Ficou impressionado
com a frieza do ambiente e a infelicidade dos pacientes. Criou então
o Projeto Carmim, para ensinar técnicas de artes plásticas
aos doentes.
Para
empreendedores sociais, a capacidade de compartilhar o comando de
seus projetos é até mais importante que entre empresários.
Uma empresa pode ser vendida. Uma entidade não. Para que
ela prossiga, é preciso formar mais gestores. A alemã
Ute Craemer, de 65 anos, teve essa preocupação ao
fundar a Associação Comunitária Monte Azul,
em São Paulo, que atende 1 100 crianças e jovens e
envolve toda a comunidade em projetos nas áreas de saúde,
arte, educação e formação profissional.
Solteira e aposentada, ela se dedica em tempo integral à
associação, mas sabe que há pelo menos uma
dúzia de pessoas em condições de continuar
o trabalho e até dar a partida em outros projetos. "É
preciso encarar uma instituição como uma criança",
ela diz. "É lindo quando a gente percebe que ela aprendeu
a andar sozinha."
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