Índice
Carta ao leitor
Apresentação
  O Brasil já conta com cerca de 20 milhões de voluntários  
  O que leva as pessoas a sair de casa e ajudar o próximo  
  Algumas entidades filantrópicas são maiores que grandes empresas  
  Stephen Kanitz - O importante é começar  
  Iniciativa privada investe na comunidade  
  Mais da metade das companhias já desenvolvem projetos sociais  
  Oded Grajew - O futuro está em nossas mãos  
  A transformação da filantropia ao longo dos séculos  
  Alguns doam uma hora por semana. Outros dedicam a vida inteira  
  Zilda Arns - Os príncipes e os mendigos  
  Com a doação via internet, até os mais preguiçosos podem fazer o bem  
  Comunidade Solidária muda a atuação do governo na área social  
 

Guia rápido da cidadania
. Informe-se sobre a quem ajudar
. Não dê dinheiro apenas. Participe
. Fique de olho nos picaretas

 
  Você possui credenciais para iniciar um projeto social próprio?  
  Atividades artíticas transformam a vida de crianças carentes  
  Principais campanhas filantrópicas nacionais  
  Escolha a quem ajudar na lista de 431 instituições filantrópicas selecionadas por VEJA  
  Milu Villela - Começamos a década do voluntariado  
  Como as pessoas ajudam e como outras são ajudadas  
EXCLUSIVO ON-LINE
  O vale-tudo das entidades para arrumar dinheiro junto à sociedade  
  O terceiro setor tornou-se um mercado de trabalho atraente  
  Dos Estados Unidos à Turquia, cresce a legião de voluntários no planeta  
  Conheça alguns famosos que emprestam sua imagem para impulsionar campanhas filantrópicas, dão contribuições em dinheiro e fundam organizações não-governamentais  
 

 

 
 

Persistência, liderança e envolvimento

Será que você possui as credenciais para
iniciar seu próprio projeto social?


Bruno Veiga/Strana
Rodrigo Baggio: 285 escolas de informática "popular" no Brasil


Criar uma entidade assistencial não é diferente de iniciar uma empresa. E o empreendedor social, como se pode chamar esse tipo de líder, não fica a grande distância de um empresário. Persistência, liderança e envolvimento com os interesses da comunidade são algumas das principais características dos fundadores de entidades filantrópicas.

"O que diferencia os líderes sociais é que eles têm idéias inovadoras para as questões tradicionais", explica Marcos Kisil, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis). Muitos começam sozinhos, às vezes contra a vontade dos próprios parentes. É o caso de Zulmira Petronilia Aguiar, de 69 anos, que há vinte dedica parte de seu tempo ao trabalho social com mulheres e crianças da zona de prostituição da cidade de Parnaíba, no Piauí. Ali funciona a Fundação Ninho, que começou com uma oficina de costura no bar de um dos bordéis para oferecer uma opção profissional às mulheres já não tão atraentes. "Todos achavam que eu estava louca, inclusive meu marido", conta Zulmira, que hoje administra uma creche para 260 crianças em idade escolar, filhos de mães solteiras. Costureira, dona de um pequeno mercado, católica fervorosa e mãe de sete filhas, Zulmira diz ter-se inspirado na religião. "Quando perdi um filho, resolvi trabalhar para os excluídos", diz.

Quando o nível de preocupação pessoal com uma causa é maior que o que leva a doar, uma boa alternativa é assumir responsabilidade maior. Tanto pode ser participando ativamente em uma instituição já existente quanto iniciando a própria, desde que se saiba que será uma dura empreitada. Em São Paulo, a pedagoga Dagmar Garroux criou há sete anos a Casa do Zezinho, um projeto que hoje oferece educação a 520 crianças e jovens do Campo Limpo, na periferia de São Paulo. Os primeiros anos foram duros, sobretudo financeiramente, mas agora a entidade tem parceiros de peso, como a Xerox do Brasil e o BNDES. "Era meu sonho tirar essas crianças do convívio com os traficantes", diz Dagmar. Ela e Zulmira apresentam o típico perfil valorizado pelas empresas e fundações que costumam financiar entidades filantrópicas. Mesmo com profissão e situação social diferentes, elas têm em comum a sensibilidade para os problemas sociais. Começaram com um esforço quase anônimo, persistiram e foram conquistando parcerias.

Antonio Milena
A alemã Ute Craemer (de frente): 1 100 crianças em projetos nas áreas de saúde e educação


Esses empreendores são tão difíceis de encontrar que nos Estados Unidos se criou há vinte anos uma entidade, a Ashoka, apenas para cuidar da identificação dos chamados empresários sociais. Em sânscrito, ashoka quer dizer fim da tristeza. Para a instituição, esses líderes têm características semelhantes às dos mais competentes homens de negócios. É gente capaz de transformar a realidade em que vive. "Os líderes pensam de forma estratégica e são obcecados pela causa que abraçam", explica Mônica de Roure, diretora de operações internacionais da Ashoka. Desde 1996, a entidade vem trabalhando no Brasil em parceria com a empresa de consultoria McKinsey para auxiliar as organizações sociais a caminhar com as próprias pernas. Para tanto foi criado o Centro de Competência para Empreendedores Sociais (CCES), que promove treinamento, dá consultoria e ministra cursos que buscam aumentar o impacto social das organizações e de seus profissionais.

O empresário carioca Rodrigo Baggio, de 32 anos, está entre os líderes que receberam apoio da Ashoka. Ele criou um projeto para levar conhecimentos de informática aos jovens da periferia do Rio de Janeiro. Com o apoio recebido, estruturou o Comitê para Democratização da Informática, hoje com 285 escolas no Brasil. Baggio foi premiado com uma bolsa de 2 700 reais mensais por três anos, a partir de 1996. Segundo a experiência da Ashoka, muitos dos líderes sociais assumem essa condição depois de enfrentar um trauma na vida pessoal. Pode ser um acidente, uma decepção, uma separação ou um conflito qualquer. Ou seja, eles foram impulsionados de alguma forma para uma motivação que certamente já possuíam. O artista plástico paulista Eduardo Valarelli mudou sua rotina depois de passar 25 dias no hospital, vítima de um acidente. Ficou impressionado com a frieza do ambiente e a infelicidade dos pacientes. Criou então o Projeto Carmim, para ensinar técnicas de artes plásticas aos doentes.

Para empreendedores sociais, a capacidade de compartilhar o comando de seus projetos é até mais importante que entre empresários. Uma empresa pode ser vendida. Uma entidade não. Para que ela prossiga, é preciso formar mais gestores. A alemã Ute Craemer, de 65 anos, teve essa preocupação ao fundar a Associação Comunitária Monte Azul, em São Paulo, que atende 1 100 crianças e jovens e envolve toda a comunidade em projetos nas áreas de saúde, arte, educação e formação profissional. Solteira e aposentada, ela se dedica em tempo integral à associação, mas sabe que há pelo menos uma dúzia de pessoas em condições de continuar o trabalho e até dar a partida em outros projetos. "É preciso encarar uma instituição como uma criança", ela diz. "É lindo quando a gente percebe que ela aprendeu a andar sozinha."

 
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