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Guia
rápido da cidadania.3
Fique de olho
nos picaretas
Eles
são minoria, mas podem levar o seu dinheiro
e abalar
a credibilidade de quem trabalha seriamente
Negreiros
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Apenas
2% das entidades beneficentes do país são inidôneas,
segundo avaliação do consultor Stephen Kanitz, um
dos maiores especialistas brasileiros em assuntos do terceiro setor.
Mas, desde que explodiu o caso de desvio de recursos na Legião
da Boa Vontade, uma das maiores do país, aumentou a preocupação
de quem doa com a possibilidade de ser enganado. Basta essa pequena
parcela de picaretas, porém, para fazer um enorme estrago
na imagem da imensa maioria de associações honestas.
O supervisor de obras Joaquim Rodrigues Neto, 36 anos, de São
Paulo, caiu numa dessas arapucas. Ele nunca se recusou a ajudar
quando procurado por alguma entidade. Recentemente, comprou a rifa
de um veículo para auxiliar um asilo chamado Casa do Ancião.
Dias depois, leu no jornal que a Procuradoria do Idoso do Estado
vistoriou a instituição e achou sessenta velhinhos
em péssimas condições, num local com higiene
inversamente proporcional à riqueza dos proprietários.
"Foi uma decepção", recorda Rodrigues. Cerca de 170
operadoras de telemarketing arrecadavam mais de 120 000 reais por
mês para a Casa do Ancião, cujos dirigentes respondem
agora por estelionato e formação de quadrilha. "Proporcionalmente,
as entidades filantrópicas são mais bem administradas
e corretas do que as empresas comerciais comuns", diz Kanitz. "Mas
mesmo assim é bom usar critérios que minimizem o risco
de acabar doando para a entidade errada."
Um
dos maiores problemas das organizações que desenvolvem
trabalhos sociais é a indignação provocada
pelos casos de falsidade em nome de crianças, idosos, doentes
ou deficientes. Os doadores sentem-se duplamente enganados. Não
só pelo dinheiro que perderam mas também porque imaginavam
estar oferecendo apoio a causas realmente nobres. Foi em março
passado que um relatório do Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS) apontou irregularidades administrativas na Legião
da Boa Vontade. Entre outros problemas, havia pagamento de salários
indevidos e mordomias como a manutenção de
imóveis luxuosos S ao presidente da LBV, José
de Paiva Netto, e a outros dirigentes. A entidade foi excluída
do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) e perdeu
o certificado de instituição filantrópica.
Só no INSS a LBV recebia isenção da ordem de
13 milhões de reais por ano. Para tentar evitar que as entidades
que se desviam da filantropia continuem atrapalhando as instituições
sérias, o CNAS ampliou a fiscalização. "Estamos
procurando fazer uma depuração no cadastro de entidades
filantrópicas", afirma o presidente do conselho, Antônio
Brito.
Atualmente
existem cerca de 7 000 instituições com o registro
do conselho, em um total de 14 000 cadastradas. Essa inscrição
isenta a entidade do recolhimento do INSS. O valor que o governo
deixou de arrecadar é de 1,8 bilhão de reais em 2001
e deve chegar a 2,2 bilhões em 2002. Para evitar que a desonestidade
de algumas contamine o trabalho de todas, as instituições
que desenvolvem trabalhos sérios preferem que os interessados
em contribuir se informem muito bem a respeito de quem vai receber
o dinheiro. "Quando a instituição é realmente
séria, ela faz questão de que o doador a visite",
afirma Gino Pereira dos Reis, presidente da Federação
de Obras Sociais. "Se houver alguma restrição, o doador
tem todo o direito de desconfiar." Há entidades que acabam
vítimas, elas próprias, de terceiros desonestos. É
o caso daquelas que, por falta de estrutura interna, contratam empresas
de captação de recursos que recebem comissão
sobre os valores arrecadados. Algumas empresas de telemarketing
podem ficar com até 7 de cada 10 reais recolhidos, sem que
o doador saiba disso.
Preocupados
em moralizar o setor, especialistas em angariar recursos para as
causas sociais criaram, há um ano, a Associação
Brasileira de Captadores de Recursos, organização
que orienta o trabalho das instituições e fiscaliza
a área de captação de todas elas. "Esse trabalho
não pode virar corretagem em cima da filantropia", comenta
Custódio Pereira, presidente da associação.
É exatamente assim, por meio da organização
de arrecadadores, doadores e voluntários, que a pilantropia
pode ser eliminada do mapa.
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