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Até o final da década de 80, o terceiro setor nome dado ao conjunto de entidades com ações de promoção social era baseado quase que totalmente na atuação das organizações não-governamentais (ONGs). Essas instituições usavam recursos obtidos por meio de doações de empresas privadas, repasses de órgãos públicos ou captados no exterior para o desenvolvimento de projetos sociais. O trabalho era geralmente feito voluntariamente por militantes que abraçavam causas sociais sem nenhuma remuneração e com o romântico objetivo de contribuir para a transformação do mundo. O nível de profissionalização era baixo e o controle dos recursos e dos resultados quase não existia. Uma
pesquisa feita no ano passado pelo Grupo de Institutos, Fundações
e Empresas (Gife) revelou, pela primeira vez, um perfil dos profissionais
que prestam serviços para programas do gênero. Cerca
de 50% deles têm curso superior, em sua maioria administradores
de empresas, seguidos de contabilistas, advogados, jornalistas,
pedagogos, psicólogos e publicitários. Em geral, eles
são remunerados com salários de mercado, entre 520
e 5 800 reais. Em cargos de direção, os vencimentos
podem ser muito maiores. "A profissionalização dos
projetos sociais é necessária porque as empresas usam
a mesma lógica que é aplicada em seus negócios
para administrá-los", diz Marcos Kisil, presidente do Gife
e do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis).
Estimativas do Idis dão conta de que o terceiro setor já responde por cerca de 1,5 milhão de empregos diretos e indiretos, algo em torno de 2,5% da população economicamente ativa do país. De olho nesse novo filão, muitos profissionais têm migrado da iniciativa privada para o terceiro setor. A baiana Marta de Castro até topou uma redução em seu padrão de vida para entrar nessa onda. Formada em administração de empresas, com pós-graduação em marketing, Marta resolveu trocar o bom emprego que tinha numa agência de publicidade em Salvador para trabalhar na Fundação Odebrecht, o braço social da Construtora Norberto Odebrecht, ganhando um pouco mais que a metade do que recebia antes. "Vislumbrei um mercado emergente, no qual eu poderia me realizar também como cidadã", conta. Atualmente, Marta coordena o setor de comunicação da Fundação Odebrecht e já alcançou no novo ramo um salário equivalente ao anterior. A dentista paulista Juliana Vieira Pinho, 26 anos, formada há quatro anos, também ficou feliz com a opção profissional no terceiro setor. Ela não gostava do trabalho no consultório. Há um ano, passou a integrar uma equipe composta de dentista, médico e enfermeiro que trata de índios de comunidades do Alto Xingu, em Mato Grosso. Mesmo sem o conforto com o qual estava acostumada, ela tem energia suficiente para atender a comunidade todos os dias, inclusive aos sábados e domingos. Seu salário é pago pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e é semelhante ao de um profissional urbano. Além da universidade, a empresa Colgate dá suporte para o projeto com equipamentos e produtos. O Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) aponta a gestão de projetos sociais como uma das carreiras em alta no mercado de trabalho nos últimos anos. Esse potencial já levou diversas instituições a desenvolver cursos técnicos ou de especialização e oficinas para gestores sociais, que formam profissionais e administradores de entidades filantrópicas. A Fundação Getúlio Vargas foi a pioneira. Há seis anos criou um curso de especialização para profissionais interessados em trabalhar nas organizações sem fins lucrativos. "Quando o curso foi aberto, mais de 90% dos alunos já eram dirigentes de associações", explica o coordenador do curso, Luiz Carlos Merege. "Atualmente, mais de um terço deles está migrando para esse setor ou quer conhecer melhor a área." A Universidade de São Paulo e as universidades católicas de São Paulo e do Rio Grande do Sul também estão investindo em cursos de pós-graduação na área social. Fora da formação voltada diretamente para esse tipo de entidade, uma das profissões valorizadas nas instituições é de publicitário. Esse profissional pode dar grande contribuição na divulgação dos resultados obtidos pelas entidades, o que estimula apoios e doações. Outra profissão em alta, que só existe praticamente no mundo da filantropia, é de captador de recursos. Trata-se da pessoa responsável por obter dinheiro ou bens para as instituições. Para tanto, esse especialista cria projetos de geração de renda, que tanto pode ser uma festa no bairro quanto uma proposta de financiamento para empresas. Habilidade com números e com pessoas é um dos requisitos básicos para essa função. |
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