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OPINIÃO
. Zilda Arns
Os príncipes
e os mendigos
Cada
um de nós poderia trocar de casa
com
um miserável por três dias
A
miséria é a pior criação do ser humano.
Deparo com ela constantemente e a sinto como uma chaga social sem
explicações, prova concreta do egoísmo e do desatino
da sociedade. Uma sociedade que nem consegue ver o prejuízo
com a exclusão social de pessoas que poderiam ajudar no desenvolvimento
social e econômico e que não o fazem por falta de alternativas
de sobrevivência. Somos uma sociedade que prima pelo fosso entre
ricos e pobres. Ignoramos que a concentração de renda
é o indicador fiel da violência. Por que não reverter
a situação com a prevenção, gerando igualdade
de oportunidades e condições de vida digna? A miséria
é como uma sombra que me acompanha: sinto-me atraída
por ela desde a adolescência. Nasci em zona rural, no interior
de Santa Catarina, em Forquilhinha, onde em meu tempo não havia
miséria e todas as crianças freqüentavam a excelente
escola Sagrada Família, de origem alemã. O esporte,
o coral e a arte faziam parte de nosso lazer. Talvez por isso e pela
minha formação cristã, nunca pude entender por
que não se investe mais na pessoa, centro da criação
divina, para quem todos os interesses deveriam convergir. Para o equilíbrio
da família e do país, todos os esforços deveriam
se articular para que as pessoas fossem felizes e solidárias
umas com as outras. As classes sociais, os partidos políticos,
as religiões e todas as raças deveriam se inclinar diante
da dignidade das pessoas, especialmente das crianças.
Alê Setti
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Em minha missão de médica, pediatra e sanitarista,
e ainda como coordenadora da Pastoral da Criança, defronto
permanentemente com a miséria absoluta nos bolsões
de pobreza onde nossos mais de 130 000 líderes comunitários
atuam, apoiados por 6 414 equipes de coordenação e
capacitação. Há muitos lugares em que a condição
de vida é aviltante. Pessoas vivem como farrapos humanos.
Como podemos achar isso normal? Às vezes penso que cada um
de nós poderia trocar de casa com um miserável por
ao menos três dias, como na história do príncipe
e do mendigo. Com certeza passaríamos a ser mais ágeis,
encontrando soluções para melhorar a qualidade de
vida de todos. Como médica, trabalhando em hospital de indigentes,
administrando postos de saúde na periferia de Curitiba, sempre
via que as mães voltavam com suas crianças por causa
dos mesmos problemas, que elas poderiam prevenir. Sentia que lhes
faltavam orientação, educação, carinho,
noções simples e básicas de higiene, alimentação,
cuidados com o filho. Eu tinha certeza de que essas mães,
devidamente orientadas, poderiam mudar a história de sua
família e do país a partir da criança. Esse
é o verdadeiro milagre da Pastoral da Criança: transformar
essas mulheres em heroínas de nossos dias. Uma das coisas
que têm a magia de me animar é ouvir testemunhos pessoais
diariamente. Eu penso sempre: "Isso não é obra minha,
foi Deus que me inspirou. É obra dele, fui apenas seu instrumento".
É assim que me sinto, olhando para mais de 1,5 milhão
de gestantes e crianças acompanhadas por 150 000 voluntários
em 3 334 municípios.
O Brasil pode acabar com a miséria. Basta que haja uma decisão
política para um trabalho conjunto articulado e planejado
entre governo e sociedade. Mas qualquer projeto de combate à
miséria só vai dar certo se os próprios excluídos
se tornarem autores de sua ação libertadora. Eles
devem ser sujeito, e não objeto, das ações.
Não adianta fazer algo por eles. É fundamental que
eles tomem parte ativa no processo. Eles começam a ganhar
auto-estima, a sair de uma condição de passividade
para acreditar e lutar pela mudança da própria vida
e da vida de sua comunidade. Essa é a maior revolução
de que o Brasil precisa. E os excluídos são capazes
disso e de muito mais. Necessitam apenas de capacitação,
orientação e acompanhamento. Só assim poderão
recuperar o valor humano latente.
Doutora
Zilda Arns Neumann
Médica, pediatra e sanitarista, fundadora e coordenadora
nacional da Pastoral da Criança representante da CNBB no
Conselho Nacional de Saúde e conselheira da Comunidade Solidária
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