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Quermesse,
bingo
e artesanato
O
vale-tudo das entidades para
arrumar
dinheiro junto à sociedade
Antonio Milena

A
socióloga Jane Sieh na oficina de bonecas com as jovens do Grupo
Primavera |
Em
São Paulo, o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança
com Câncer (Graacc) amealha recursos vendendo artesanato feito
pelas mães das crianças doentes e por voluntárias.
No Rio de Janeiro, a Casa do Menor São Miguel Arcanjo, na
Baixada Fluminense, com 900 crianças e adolescentes atendidos,
sobrevive, em parte, com os trabalhos de suas oficinas de reciclagem.
A creche Amélia Rodrigues, de São Paulo, tem entre
suas fontes de recursos a venda de pratos congelados preparados
por voluntárias, como a dona-de-casa Rosa Cordiole, de 77
anos, que também cozinha para as 120 crianças atendidas.
Em Campinas, no interior paulista, o Grupo Primavera vende bonecas
feitas a mão em uma oficina de costura para manter cursos
de profissionalização para 200 jovens.
No
mundo da solidariedade é assim. Cada um arruma dinheiro onde
consegue, da forma e na quantidade encontrada. Em todo o Brasil,
as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes)
movimentam pelo menos 200 milhões de reais por ano, procedentes
de várias fontes. Os centros médicos da entidade cobram
pelo atendimento aos portadores de deficiência, que pagam
de acordo com a renda familiar. Seus laboratórios recebem
de quem pode pagar para fazer o tradicional teste
do pezinho em recém-nascidos. Como principal fonte de recursos,
as quase 2 000 Apaes do país arrecadam donativos em dinheiro
de milhares de colaboradores que todos os meses contribuem para
manter o trabalho. Em outros casos, o dinheiro chega minguado. A
Associação de Ação Comunitária
de Brasília Teimosa, um bairro pobre do Recife, atende 150
crianças. Desde que foi fundada, há dez anos, a instituição
não recebe verba do governo nem de igrejas. Sua renda mensal
vem dos donativos da vizinhança. Entre um extremo e outro,
o mundo da filantropia é uma grande economia paralela, semelhante
à de um país. Existem poucas entidades que conseguem
muitos recursos algumas até em condições
de repassar parte deles a assemelhadas , ao lado de uma maioria
que ordenha o mínimo para sobreviver à base de muita
criatividade. Rifas e bazares beneficentes são os mais conhecidos
métodos. A economia do mundo solidário também
é pródiga na hora de transformar em dinheiro móveis
e objetos usados recebidos de doadores. Os bazares Mercatudo, na
Grande São Paulo, rendem cerca de 360 000 reais por mês
às Casas André Luiz, dedicadas a cuidar de portadores
de doenças mentais de baixa renda. Os bens são revendidos
para garantir o sustento de 1 200 carentes portadores de deficiência
mental mantidos pela entidade.
"Administrar
várias fontes de renda é a melhor saída para
garantir a estabilidade financeira dessas instituições",
diz Célia Cruz, especialista em captação de
recursos para a área social. Professora da Fundação
Getúlio Vargas, em São Paulo, Célia é
coordenadora do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento
Social (Idis), organização que presta consultoria
na área de planejamento de projetos sociais. Com a credibilidade
alcançada ao longo dos anos, algumas instituições
conseguem doadores que nunca deixam de contribuir. As Casas André
Luiz podem, muitas vezes, se dar ao luxo de fazer filantropia a
suas congêneres. "O que sobra nós repassamos para as
entidades menores", conta Zélia Mimessi, vice-presidente
da organização. Há uma verdadeira rede ligando
instituições, como uma espécie de solidarioduto
pelo qual se canalizam recursos que ora sobram aqui, ora quase sempre
faltam ali. Na maior parte dos casos, porém, são os
interessados mais diretos que põem a mão na massa.
Para a maioria das entidades, boa parte das contribuições
tem de ser batalhada em outro nível, entre grandes doadores
ou com o governo. Nesse universo, não pode haver amadorismo.
"A concorrência por financiamentos está cada vez mais
acirrada e somente as instituições profissionalizadas
conseguem patrocínio", afirma Luís Rodovil Rossi,
do Centro de Estudos do Terceiro Setor, da Fundação
Getúlio Vargas. Profissionalizado, nesse caso, quer dizer
com contabilidade em dia, organização administrativa,
projeto consistente e, se possível, assessoria de gente especializada
na captação de recursos. Só assim se pode entrar,
por exemplo, no rol dos atendidos de um organismo como o Unicef,
que financia 200 projetos geridos por governos municipais, estaduais
e entidades filantrópicas. Unicef é a sigla para o
Fundo das Nações Unidas para a Infância, ligado
à Organização das Nações Unidas.
Os recursos da instituição são angariados entre
governos, organizações não-governamentais e
particulares de diversos países. No Brasil, parte do orçamento
anual de 10 milhões de reais resulta da venda de cartões
e brindes de Natal e da campanha Criança Esperança,
promovida pela Rede Globo. A maior beneficiada é a Pastoral
da Criança, que recebe 2,7 milhões de reais por ano.
Até 1997, o brasileiro que fizesse doação em
dinheiro a uma entidade filantrópica podia deduzir o valor
doado de seu imposto de renda. O fim dos incentivos, anunciado como
forma de combater as fraudes, tornou mais difícil a sobrevivência
das instituições.

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