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Falta muito,
mas é um bom começo
Embora
desembolsem pouco na comparação
internacional, mais da metade das empresas
no Brasil fazem algum tipo de trabalho social
Tito Brito

Jovens
que participam de aulas de circo em projeto patrocinado pela
Cesp |
Não
há um único estudo sério mostrando que o consumidor
deixa de comprar um produto ao descobrir que o fabricante não
é uma empresa "cidadã", ou seja, não desempenha
um trabalho social. No entanto, a partir de um determinado tamanho
de companhia, é praticamente inaceitável que o empresário
se diga realizado sem apresentar uma ação filantrópica
associada ao nome de sua organização. Um levantamento
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) coloca
isso em números. De acordo com o levantamento, mais da metade
das empresas no Brasil desenvolvem algum tipo de ação
social. Os pesquisadores constataram um grande incremento de investimentos
privados no setor na última década. Os recursos da
filantropia empresarial já chegam a 4,5 bilhões de
reais por ano, valor comparável ao total dos gastos assistenciais
do governo federal. "Quando você prova que o trabalho social
não é apenas marketing, acaba sendo bem visto por
todo o mercado", afirma o empresário Sergio Amoroso, dono
do Grupo Orsa, que atua nos setores de celulose e embalagens e investe
10 milhões de reais por ano em ações filantrópicas.
"Os próprios funcionários se tornam mais entusiasmados."
Além de um incremento quantitativo, pode-se dizer que a qualidade
do trabalho social das empresas melhorou muito. Antigamente, a filantropia
empresarial estava mais ligada ao trivial assistencialismo. Hoje,
isso mudou. Geralmente, as ações estão voltadas
para educação, promoção da cidadania,
formação profissional, geração de renda
e organização comunitária. A intenção
do empresariado pode ser aferida pela contrapartida governamental.
Os estudos mostram que menos de 10% dos recursos empregados pelas
firmas na área social são reembolsados na forma de
incentivos fiscais. O investimento por parte das empresas é
real.
AE

Protesto
das Apaes: vitória depois de onze anos e verba estadual para
educação das crianças |
Tome-se o caso do Bradesco, um dos precursores da filantropia empresarial
no Brasil e também o que mais investe. Só neste ano,
o banco gastou 113 milhões de reais em ação
social, especialmente na educação. Isso equivale a
8% de seu lucro líquido de janeiro a setembro. A Fundação
Bradesco mantém escolas de educação formal
em 26 Estados, que atendem mais de 100 000 estudantes. No mundo
empresarial, a filantropia foi batizada com o nome de "responsabilidade
social", um conceito cada vez mais difundido no país. Atualmente,
as companhias podem ser avaliadas por seu grau de responsabilidade
social e já existem parâmetros para dizer se uma empresa
é ou não digna de nota nesse campo. Um dos projetos
pioneiros nesse sentido foi criado em 1995 pela Associação
Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq). O selo "Empresa
Amiga da Criança", da Fundação Abrinq
impresso nas embalagens dos produtos de empresas que mantêm
ou apóiam algum projeto de apoio a crianças ,
transformou-se numa espécie de atestado de idoneidade social.
Estimulada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais
e Econômicas (Ibase), uma centena de empresas brasileiras
encampou a idéia de publicar balanços de atividades
sociais em paralelo com os balanços financeiros. Há
ainda o Guia de Boa Cidadania Corporativa, da revista Exame,
que é o maior levantamento de programas sociais de empresas
feito no Brasil (veja
reportagem).
Mila Petrillo

Filhos
de pescadores do Ceará em projeto apoiado pela Natura e Fundação
Abrinq |
"Para
a empresa moderna, tornou-se um imperativo adotar uma postura de
responsabilidade social, o que é considerado hoje um valor
de mercado", diz Oded Grajew, diretor-presidente do Instituto Ethos,
criado há três anos para estimular a atuação
das empresas nesse campo. Alguns fundos de investimento já
condicionam a compra de ações nas bolsas de valores
à boa conduta social das companhias. O Unibanco, quarto maior
banco privado do país, fornece a investidores estrangeiros
informações sobre as práticas sociais das empresas
nacionais. O fortalecimento da imagem das organizações
e do espírito de equipe interno é a maior motivação
da ação social. Muitas delas estimulam os funcionários
a atuar como voluntários. É o caso da subsidiária
brasileira da cadeia de lojas holandesa C&A Modas. Atualmente,
20% dos 7 000 funcionários são voluntários
do Instituto C&A. Cerca de 25 000 crianças são
beneficiadas. O trabalho das empresas já produziu efeitos
notáveis, mas precisa ser intensificado. Dependentes dos
doadores, as entidades filantrópicas estão sempre
precisando de recursos. As Apaes, por exemplo, só conseguiram
verba estadual em São Paulo para garantir a educação
dos portadores de deficiência neste ano depois de uma grande
mobilização para pressionar os deputados. De acordo
com o consultor Stephen Kanitz, colunista de VEJA e um dos maiores
especialistas brasileiros em filantropia, o empresariado nacional
está entre os que menos doam no mundo, com uma média
de 1,5 milhão de reais anuais por empresa quando se listam
as 500 maiores companhias. Os campeões são os Estados
Unidos. A seguir vêm Inglaterra, Alemanha e França.
Como se vê, filantropia tem relação com desenvolvimento
econômico e amadurecimento social.
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