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Gigantes do
bem
Há
entidades filantrópicas com estrutura
maior que
a de algumas grandes empresas
Antonio Milena

Piscina
de bolinhas na Apae de São Paulo. A entidade atende 200
000 crianças no país |
Algumas
entidades filantrópicas tornaram-se tão organizadas
e cresceram tanto que atualmente funcionam de forma profissional,
como uma empresa. Aliás, em muitos casos, as operações
que desenvolvem mobilizam mais gente que o efetivo das maiores companhias
brasileiras. A campeoníssima Pastoral da Criança tem
um quadro de voluntários de 150 000 pessoas. É mais
gente que o total de metalúrgicos em todo o país.
E presta serviços a 1,5 milhão de pessoas, mais do
que a população da cidade do Recife. A Associação
de Assistência à Criança Deficiente (AACD),
que trabalha com portadores de deformidades físicas, tem
um corpo relativamente enxuto de voluntários. São
apenas 1 200. Em compensação, arrecada mais de 40
milhões de reais por ano para ajudar a garotada. Isso dá
mais de 800 reais por criança todos os meses. Com meio século
de existência, a AACD tornou-se uma referência no tratamento
de deficiências. Com o dinheiro recebido, a entidade consegue
atender a três quartos de seu público de graça
ou de forma subsidiada. Há um excedente de caixa, dinheiro
que é reinvestido na construção de unidades
de atendimento. Nos últimos dois anos, foram abertas filiais
em Uberlândia, Recife e Porto Alegre.
As
empresas podem ser medidas segundo indicadores econômicos
claros e, em geral, tamanho é documento. Onde é
mais seguro colocar seu dinheiro? Num banco grande, de preferência.
E a melhor construtora para comprar apartamento? Também é
melhor escolher a maior. No mundo da caridade é diferente.
As organizações que crescem mais estão geralmente
ligadas a causas mais populares e genéricas. O Grupo de Apoio
ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc)
movimenta 12 milhões de reais por ano quase três
vezes mais que a entidade Médicos sem Fronteiras, seção
Brasil, que tem apenas 160 voluntários. E é normal
que seja assim. Existem causas que sensibilizam mais (câncer)
e causas que sensibilizam menos (doentes no Paquistão). Um
exemplo: entidades que cuidam de crianças recebem mais dinheiro
que aquelas dedicadas a idosos.
Antonio Milena

Robson
Amaral com os amigos em uma das Aldeias SOS: "Eles são
minha família" |
Ocorre
que o trabalho social, ao contrário do das empresas, não
pode ser medido pelo tamanho, mas pela seriedade, apenas. Há
diversas organizações que, independentemente de ser
desconhecidas do grande público, desempenham um trabalho
de ótimo padrão. Só não arrecadam muitos
recursos em razão da menor visibilidade. Abandonada pelos
pais, criada na Febem e aposentada por invalidez, a deficiente visual
Iraci de Jesus, de 50 anos, só tem um lar graças a
uma dessas pequenas instituições. A Sociedade Assistencial
para Cegos Bom Jesus, em São Miguel Paulista, Zona Leste
de São Paulo, é um exemplo da eficiência dos
pequenos. A entidade funciona em uma casa de três quartos
alugada por 570 reais. A fundadora, Lina Sibien, de 73 anos, também
cega, abriu a instituição para ajudar outros cegos
que conhecia. É ela quem faz as compras semanais e administra
a única funcionária. A sociedade abriga apenas cinco
cegas e tem orçamento mensal de 1 000 reais. O índice
de satisfação da clientela é total. Em uma
instituição muito maior, como a Aldeias Infantis SOS,
que atende 4 000 crianças e adolescentes em dez Estados brasileiros,
a satisfação dos beneficiados pode ser equivalente
à encontrada na casa administrada por dona Lina. A entidade
foi criada na Europa, para amparar órfãos da II Guerra
Mundial. Depois, ampliou-se muito e já existe no Brasil há
34 anos. Em casas alugadas, as crianças vivem com uma mãe
social, uma profissional paga para lhes dar carinho e atenção.
"Eles são minha família", afirma o paulista Robson
Luiz Amaral, de 22 anos. Auxiliar de escritório e músico,
órfão de pai e mãe, ele morou até os
18 anos em uma das Aldeias Infantis SOS. Amaral costuma voltar para
visitar aqueles que considera seus familiares. "Eles me ensinaram
muito. Não sei o que seria da minha vida sem essa ajuda",
diz.

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