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Você
também pode mudar o mundo
O
exército de voluntários
no Brasil
já atinge a casa dos 20 milhões
E. Queiroga/Luumiar

A
voluntária Márcia Pires e os jovens que estudam música de graça
em Natal: "Sinto-me recompensada" |
A
agricultora Maria Neusa Gomes, paranaense de Borrazópolis,
é bóia-fria em Corumbiara, no Estado de Rondônia.
Até seis anos atrás, ela vivia com o marido, Osmar,
e quatro filhos desnutridos num barraco de um cômodo. Sem
condições de higiene, a família não
tinha dinheiro para remédios nem para as roupas das crianças.
"Eu só pensava em morrer", diz a agricultora. A história
de Maria Neusa e de sua família começou a se transformar
no dia em que bateu à sua porta uma voluntária. Ela
pesou as crianças, ensinou Maria a preparar o soro caseiro
para evitar a desnutrição e ajudou Osmar a arrumar
emprego. Até então, a esperança de Maria Neusa
era de que o governo fizesse alguma coisa. Atualmente, ela pensa
completamente diferente. Vendo a mudança ocorrida em sua
casa, Maria decidiu entregar-se àquele que é no presente
o maior movimento de combate à mortalidade infantil
a Pastoral da Criança. Como assistida, tinha seus filhos
entre o conjunto de 1,5 milhão de crianças com idade
até 6 anos visitadas todos os meses pelas voluntárias
da Pastoral. Agora, Maria Neusa é uma das 150 000 voluntárias
mobilizadas para a tarefa.
Existem hoje no país cerca de 220 000 organizações
não-governamentais, a maioria dedicada à filantropia.
Algumas são portentosas, como a Pastoral da Criança.
Outras são mínimas, como a Serra Acima, que mantém
quarenta crianças carentes da cidade de Cunha, no Vale do
Paraíba, interior de São Paulo, e conta apenas com
uma assistente social e meia dúzia de colaboradores, todos
voluntários. Independentemente do tamanho de cada batalhão,
o fato é que o exército da boa vontade é integrado
atualmente por cerca de 20 milhões de pessoas. Esse número
é espetacular e fica ainda mais espantoso quando se leva
em conta que 47 milhões de brasileiros são crianças
até 14 anos e 14 milhões têm mais de 60 anos.
Ou seja, há 100 milhões de brasileiros entre 15 e
60 anos destes, um em cada cinco está dedicando algumas
horas do dia para ajudar alguém.
Ana Araújo

A
voluntária Araci, num hospital de Brasília: visitas para cortar
e pentear o cabelo dos doentes da ala pediátrica |
Os soldados desse bom exército estão em todos os lugares:
em ruas, escolas, associações, clubes e organizações
não-governamentais. Em cada instituição, eles
assentam alguns tijolos que ajudam a construir um Brasil solidário.
Nos últimos anos vem crescendo o número de pessoas
que entendem que é possível fazer diretamente, com
as próprias mãos, alguma coisa pelas vítimas
da miséria, do abandono, das doenças e do preconceito.
Essa corrente solidária manifesta-se em uma quantidade crescente
de projetos em favor de crianças de rua, populações
carentes, portadores de deficiência e idosos.
Há uma pesquisa realizada pela universidade americana Johns
Hopkins com o Instituto de Estudos da Religião (Iser) que
indica a existência de pelo menos 9 milhões de brasileiros
atendidos por ano pelas instituições filantrópicas.
Considerando-se que existem mais de 20 milhões de brasileiros
vivendo com menos de 1 dólar por dia, a turma da boa vontade
tem dado conta de assistir quase metade da camada mais carente da
sociedade. Diferentemente da maioria das pessoas, aquelas que arregaçam
as mangas se envolvem em trabalho assistencial na exata medida em
que vão percebendo quanto o drama social do país é
maior que a capacidade governamental de gerar respostas. A melhor
maneira de enfrentar esses problemas parece ser ir à luta
em vez de procurar os culpados. Um dos precursores dessa mobilização
foi o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que virou símbolo
da campanha contra a fome. Lançada em 1993, ela apontou o
caminho da solidariedade como única saída para dar
aos mais carentes uma condição mínima de cidadania,
no caso a própria sobrevivência. Claro que não
basta ajudar os outros e deixar de pressionar os governantes, que
arrecadam um terço do dinheiro dos brasileiros na forma de
impostos, mas consomem boa parte dos recursos apenas para fazer
funcionar o próprio corpanzil. É preciso votar direito
e cobrar desempenho. Não há dúvida a respeito.
A questão, no entanto, é que só reclamar já
não basta. É preciso fazer.
Divulgação

Dentista
examina os dentes de um garoto xavante, em Mato Grosso. A retribuição
é um sorriso |
Oito anos depois de iniciada a campanha contra a fome, hoje é
possível encontrar muitos exemplos de ações
sociais transformadoras, que contribuem para atenuar os efeitos
da desigualdade e abrem novas perspectivas de vida para os sem-esperança.
Ninguém se engana com a idéia de que a filantropia
e o assistencialismo, isoladamente, poderão eliminar a pobreza
e a má distribuição de renda. Mas o trabalho
de voluntários pode ajudar a diminuir o sofrimento de milhões
de pessoas e salvar muitas vidas. Voluntários anônimos
como Maria Neusa Gomes, bóia-fria de Rondônia que não
tinha nada e hoje adiciona esperança à vida de quem
não tem nada. Atualmente, a família de Maria Neusa
mora em uma comunidade chamada Adriana, nome que homenageia uma
das crianças da região salvas pelo trabalho da Pastoral.
Mensalmente, os menores recebem atendimento com técnicas
simples, como o soro caseiro um
pequeno milagre que fez despencar a mortalidade infantil no Brasil.
Nas comunidades atendidas, morrem no máximo dezoito crianças
a cada 1 000 nascidas vivas. Antes do início dos trabalhos,
a média era duas vezes maior.
Quando se buscam as razões que levaram os voluntários
a entregar parte de seu tempo livre (ou todo ele, em muitos casos)
a uma causa, surgem explicações variadas, em geral
ligadas ao passado de cada um. Há os que perderam um amigo
devido à Aids e agora assistem portadores de HIV, há
os que tiveram um filho com síndrome de Down e fizeram da
assistência aos portadores da deficiência uma meta de
vida, não importa. Em comum, no entanto, todos estão
preocupados em melhorar o futuro do Brasil a partir da melhoria
da qualidade de vida daquele pequeno universo onde atuam. Outra
preocupação coletiva é sentir-se bem. Isso
mesmo. Na maior parte dos casos, a atitude solidária transforma
e dá sentido à vida não apenas dos beneficiados
como também à dos que estendem a mão. A violinista
Márcia Maria Pires, por exemplo, dá aulas gratuitas
de música a mais de 100 crianças de Natal, no Rio
Grande do Norte. "Sinto-me recompensada em ajudar, assim como já
fui ajudada um dia", diz Márcia. Aos 14 anos ela também
teve aulas de graça. Hoje é integrante da Orquestra
Sinfônica do Estado. A professora Araci Meirelles Silva, de
Brasília, também atua como voluntária. Ela
vai quatro vezes por semana ao Hospital de Base para cortar e pentear
os cabelos e fazer as unhas dos pacientes das alas pediátrica
e psiquiátrica. "Às vezes volto para casa cansada,
mas sempre muito satisfeita", confessa a professora.
Antonio Milena

Alberto,
o tratorista, dá aula de equoterapia a Amra: divisão de tarefas
e auto-suficiência |
Trabalhos como os de Márcia e Araci podem não mudar
estatísticas, mas não é para isso que eles
se realizam. A ação direta não existe para
acabar com a miséria. O objetivo é mudar para melhor
a vida daqueles que precisam de auxílio imediato. E a cada
dia surgem novas formas de colocar essa idéia em prática.
Em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, a Aldeia da Esperança
desenvolve há sete anos um conceito inovador de moradia individual
para adultos com deficiência mental. São 45 residentes
numa comunidade onde todos dividem as obrigações.
Alguns trabalham fora, em uma lavanderia ou como lavadores de automóveis
em uma concessionária. O projeto foi inspirado em uma comunidade
de Israel onde 180 pessoas com distúrbio mental sobrevivem
numa área que possui um hotel para animais e uma miniindústria
de plástico. No Brasil, onde existem cerca de 4 milhões
de portadores de deficiência mental, a idéia ainda
está engatinhando. Os residentes cultivam uma propriedade
de 17 hectares. Cerca de 30% não podem pagar e são
mantidos por voluntários que contribuem com dinheiro e organizam
eventos beneficentes. Alberto Aliperti Soares, um dos moradores,
trabalha como tratorista e cuida de nove vacas e três cavalos.
Ele também dá aulas de equoterapia aos colegas. A
técnica de reabilitação à base de cavalgadas
ajuda a relaxar e a desenvolver a força muscular, a coordenação
motora e o equilíbrio. Amra Dragus, uma das alunas, pinta,
tece e trabalha como auxiliar numa miniindústria de sacos
de lixo, que colabora para cobrir os custos da comunidade. "Com
apoio adequado eles podem se tornar auto-suficientes", comenta Anna
Schvartzman, presidente do Centro Israelita de Assistência
ao Menor, que mantém a Aldeia da Esperança e também
o Centro de Educação e Desenvolvimento, com 110 crianças
carentes. "Minha alegria é ver que as pessoas começam
a aceitar a idéia da inclusão dos portadores de deficiência
no mercado de trabalho, pois eles são capazes e podem ter
uma vida digna", afirma Anna. "Eles namoram, casam e são
felizes."
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