Único presente às quatro conquistas,
Zagalo é obcecado pelo jogo defensivo e
pelo número 13

Eurípedes Alcântara

"Isso se chama triscaidecofobia", diz o supervisor técnico da seleção, Mário Jorge Lobo Zagalo, referindo-se à sua mania pelo número treze. Voz anasalada, cabelos brancos e bochechas vermelhas, Zagalo dá exemplos. "Ganhei pela primeira vez em 58. Cinco mais oito é igual a treze", diz ele. "Vou ganhar em 94. Nove e quatro são treze também", afirmava antes do jogo contra a Itália. Superstição demais? "Esporte não é ciência exata. Há fatores fora do nosso controle. A triscaidecofobia é um deles."

Único esportista presente às quatro Copas conquistadas pelo Brasil, Zagalo tem uma carreira marcada pela sorte, pela crença na sorte e pelo medo do azar. Como jogador, foi o primeiro ponta-esquerda recuado da história do futebol. Como técnico, já definiu 1 a 0 como "vitória avassaladora". Para saber da sorte de Zagalo, pergunte a opinião de Pepe, ex-ponta-esquerda do Santos. Ouvirá três toques na madeira como resposta. Dono da camisa 11 da seleção antes das Copas de 58 e 62, o jogador do Santos machucou-se às vésperas das competições e cedeu o lugar a Zagalo. Deu Brasil nas duas.

Tricampeão em 1970, como técnico, no tetra Zagalo foi uma espécie de leão-de-chácara de Parreira. Defendeu, conseguiu e fez questão de anunciar o corte de Romário da seleção, em 1992, acusado de indisciplina. Trazido de volta por causa da torcida e pelo medo de que em 1994 a seleção não passasse sequer pelas eliminatórias, Romário nunca o perdoou. Refere-se a Zagalo com palavrões e é um dos dois inimigos declarados do coordenador técnico entre os tetracampeões. O outro é o meia Raí, que se considera perseguido pelo supervisor da seleção. "As pessoas me chamam de idiota, retranqueiro e estúpido, mas fico só ouvindo e ganhando títulos", desdenha Zagalo.

Aos 62 anos, Zagalo já não tem a agilidade mental do passado. "Aquele garoto foi sacado do time, aquele meia, o jogador do meio-de-campo", vai tentando, até alguém lembrá-lo de que esse jogador é Zinho. "A inveja anda a cavalo, a caravana passa", diz ele, trocando as bolas de dois ditados populares ao mesmo tempo. Zagalo considerou a vitória sobre a Holanda, nas quartas-de-final, como uma vingança pessoal contra o time que fez 2 a 0 na seleção e tirou o Brasil, dirigido por ele, da final da Copa da Alemanha, em 1974. Apesar da triscaidecofobia, o primeiro gol holandês no jogo de 1974 foi marcado pelo atacante Neeskens, camisa 13.

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