Com determinação de conquistador,
Romário dribla a pobreza, o preconceito e
as regras e se torna o rei da Copa

Flávia Varella

Existe um verso grego que diz que a raposa sabe muitas coisas, e o porco-espinho, uma só. Nos estádios americanos, Romário foi um porco-espinho. Só fez uma coisa, a única que sabe: marcar gols. Na vida, ele é uma raposa malandra que, esgueirando-se por entre as dificuldades, conquista tudo o que quer sem se submeter ao que não quer. Tanto que driblou a pobreza de quem nasceu na favela do Jacarezinho e se criou no subúrbio de Vila da Penha, no Rio de Janeiro, para se tornar um milionário, o rei da Copa. Passando ao largo do bom-mocismo, Romário tornou-se o melhor sem deixar de criticar os esquemas táticos com que não concordava, sem acatar moralismos bestas, sem fingir que gostava de muitos dos seus colegas. Saiu à noite, mas não bebeu nem fumou. Detesta treinos, mas treinou, porque precisava conviver com Parreira. Agiu como uma raposa para atingir o seu objetivo de porco-espinho: ser o ídolo da Copa, mostrar à Vila da Penha e ao mundo que é um vencedor.

"A gente tende a admirar os pretos de alma branca, como o Pelé, que não dá um passo fora do círculo de giz que a sociedade elitista marcou para ele", diz o antropólogo Roberto DaMatta. "O Romário é diferente, faz o que quer." E o que ele quis fazer, desde os 6 anos de idade, foi jogar futebol. Menino, descobriu que era bom de bola. Fez gols no Estrelinha - time que seu pai, Edevair, montou na Vila da Penha -, no Vasco, no holandês PSV Eindhoven, no espanhol Barcelona e na seleção brasileira. Calcula-se que tenha marcado mais de 400 gols. O futebol, seu objetivo de vida, lhe serviu de meio de ascensão social. Uma ascensão astronômica que, no entanto, não significou uma adaptação aos padrões estabelecidos da sociedade rica. "Nunca passei fome, mas cheguei perto, sei o que é ser pobre." Mesmo tendo, aos 28 anos, um patrimônio de 10 milhões de dólares, Romário não esnoba suas raízes. Seus melhores amigos ainda são os de Vila da Penha, gente como Beto Careca, Grilo, Raposão, Miguelzinho e Polícia. Romário tem orgulho do que fez com sua vida. A mulher, Mônica, de 23 anos, diz que o campeão "fica emocionado, até chora, quando escuta uma história de alguém que, como ele, venceu na vida após muita dificuldade". É sem remorsos, sem sentimento de culpa, que se delicia com o que conseguiu. Vai a boates caras, tem uma minicoleção de carros Mercedes-Benz, Mazda e Porsche, 100 pares de sapatos, 150 pares de tênis, quarenta gravatas e 1 700 CDs guardados em seu apartamento de seis suítes na Barra.

"Sou difícil porque sou autêntico", explica Romário. Autêntico na determinação, no individualismo, na autoconfiança. "Eu sou egoísta: se tiver a bola dentro da área e puder fazer o gol, não vou passar a bola", disse certa vez. Também disse, ainda no ano passado, que queria ser considerado o melhor jogador do mundo, e, portanto, o Brasil teria de ganhar a Copa. Queria ser o melhor, em primeiro lugar, para satisfazer a si próprio. Desde muito jovem glorificava a fama - treinava a assinatura para no futuro distribuir autógrafos. Mas também queria ganhar a Copa para levar alegria à Vila da Penha, ao Rio e ao Brasil. Quando classificou o Brasil para a Copa, marcando dois gols contra o Uruguai, disse: "Eu vi o povo brasileiro sorrir. Eu consegui fazer isso". Na Copa, Romário, o impossível porco-espinho-raposa, fez o país sorrir de novo porque é um brasileiro raro: teve certeza absoluta do que queria, e o talento para fazer o que planejou.

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