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Maurício Cardoso E se o técnico Carlos Alberto Parreira tivesse optado pelo decantado futebol-arte? E se ele tivesse ouvido as sereias e deixasse de lado aquela sua mania de fazer esqueminhas de ataque e esquemões de defesa? E se Parreira não fosse Parreira? Nunca se saberá, essa é a verdade. A vantagem dos times e dos esquemas táticos ousados que as pessoas escalam na imaginação é que essas equipes jamais enfrentam o teste da vida real. Carlos Alberto Parreira, 51 anos, enfrentou. E venceu. Existem várias formas de ganhar uma Copa do Mundo. Para ganhar este tetracampeonato, o Brasil utilizou a forma Parreira de vencer. Não é a mais espetacular nem a que mais agrada ao torcedor. Mas o resultado final está aí, sendo comemorado por 150 milhões de técnicos do país do futebol. Parreira cumpriu a promessa de levar o Brasil ao título que perseguia há 24 anos. Para quem sofreu com alguns daqueles resultados francamente magros que o Brasil arrancou em jogos sem brilho, nunca é demais lembrar: Parreira nunca prometeu que sua seleção faria exibições de gala. Nunca disse que aplicaria goleadas retumbantes. Parreira é realista, eis uma de suas qualidades. Constatou a escassez de jogadores talentosos em seu time e decretou o fim do sonho e da magia no futebol. Com essa receita sem charme, a seleção brasileira nunca se pareceu tão pouco com uma seleção brasileira. Foi submissa e dependente em tudo do treinador. Mas Parreira nunca foi tão Parreira como nos dois anos e dez meses em que esteve à frente da seleção. Em 1958, quando o Brasil conquistou seu primeiro título mundial, na Suécia, dizia-se que o técnico Vicente Feola dormia no banco de reservas enquanto Didi e Bellini resolviam as melhores opções táticas para o time. Em 1962, no bicampeonato do Chile, foram também os próprios jogadores que impuseram ao técnico Aymoré Moreira a escalação do zagueiro e capitão do time Mauro, em substituição a Bellini. Em 1970, foi sob pressão de jogadores como Pelé, Gérson e Carlos Alberto que Tostão e Everaldo ganharam seus lugares como titulares. Nesta Copa, nenhum jogador teve tanta ascendência para impor seu ponto de vista ao técnico, e não havia um time tão extraordinariamente bom como no passado para prescindir da orientação do treinador. Assim, Parreira acabou montando um time à sua imagem e semelhança: metódico, conservador, preferindo sempre a segurança da defesa à ousadia do ataque. Interpelado por um jornalista francês que às vésperas da grande decisão com a Itália reclamava que o time do Brasil era "exageradamente disciplinado e organizado", Parreira experimentou um raro momento de exaltação: "Entendi. Vocês querem o velho Brasil desorganizado e improvisador. O que há de errado em se organizar? Pelo menos no futebol, se depender de mim, vocês nunca verão um Brasil desorganizado". Parreira está filosoficamente convencido de que a defesa é o melhor caminho para vencer um torneio. Como discutir neste momento com Parreira? Mesmo com seu excessivo zelo defensivo, a seleção brasileira é a que tem o melhor ataque da Copa - onze gols marcados antes da final. Foi também a que mais vezes chutou a gol - 104, 22 a mais do que a vice-campeã Itália. Em conversa com jornalistas americanos, o técnico brasileiro confessou ter ficado encantado quando, na partida final do campeonato de basquete dos Estados Unidos, ouviu a torcida gritando "defesa, defesa". "Ela sabe o que está se passando dentro de campo. Um dia, talvez nossa torcida de futebol também entenda que defender não é um mal." Não seria de todo mau se Parreira não acreditasse que, no futebol, o gol é apenas um detalhe, como ele já admitiu. Contra o pragmatismo de Parreira existe uma longa tradição do futebol brasileiro que além de simples vitória sempre exigiu espetáculo de qualidade. A melhor imagem do futebol brasileiro até a última vitória contra a Itália, no domingo, era a da seleção tricampeã, em 1970, que sabia aliar resultados positivos com abundância de gols e estilo refinado de tocar a bola. Depois disso, outra boa recordação foi a seleção de Zico, Sócrates e Falcão, que disputou a Copa da Espanha, em 1982. Eliminada na segunda fase, ainda assim ela transformou o técnico Telê Santana no queridinho da torcida e gerou um falso dilema. Desde então passou-se a acreditar que em futebol só existem duas opções: ou se joga bonito, como a seleção de Telê, e se perde. Ou se joga feio e se ganha. Já houve times que venceram jogando bonito e outros que perderam jogando feio. Mas Parreira apostou na segunda opção. O time de Parreira é produto das circunstâncias. Por um lado, ele segue o figurino predominante no futebol mundial, que põe maior atenção e coloca mais jogadores na defesa e no meio-de-campo, deixando apenas um ou dois no ataque. "Se todo o mundo joga assim, por que eu tenho de jogar diferente?", pergunta o técnico, numa resposta aos que andaram pedindo, antes da Copa, que ele colocasse três atacantes em campo. Pediriam, caso soubessem do resultado final da competição? Ousar não é com ele. Romário chegou a dizer: "O Parreira tem de ganhar a Copa, por isso ele arma o time à sua maneira. Não é necessariamente a que eu ou a torcida gostamos". O técnico argumenta em defesa de seu estilo que o Brasil não tem mais jogadores como Pelé, Tostão, Rivelino ou Zico. É o caso de perguntar: e se tivesse atacantes como esses à sua disposição, o que faria Parreira? "Colocava todos em campo e ganhava todas as Copas", apressa-se em esclarecer. Chegou-se a alegar, injustamente, que o treinador brasileiro é intelectualmente limitado. Parreira pode ser diferente daquilo que muitos gostariam de ver no comando de uma seleção brasileira, mas não é obtuso. Expressa-se com precisão, tem opinião formada sobre o mundo em que vive e ainda se dá certos requintes. É um amante da pintura, gosta de visitar museus, discute escolas e pinta seus quadros nas horas vagas. Sua formação acadêmica é mais do que adequada para desempenhar a tarefa de técnico de futebol. Formado em Educação Física pela antiga Escola Nacional de Educação Física do Rio de Janeiro, fez estágios em universidades da Alemanha e da Inglaterra. É também um estudioso que devora revistas e livros sobre futebol publicados em todo o mundo. Em dezembro passado, Parreira causou boa impressão no americano Scott Lettelier, o segundo homem na organização da Copa nos Estados Unidos, ao fazer uma palestra sobre futebol em um congresso para treinadores organizado pela Fifa em Dallas. "Sua apresentação, acompanhada de um audiovisual com slides, vídeos e gráficos, foi de longe a mais didática e mais convincente de todas a que assisti", diz o americano. Lettelier ofereceu 500.000 dólares pelo audiovisual de Parreira. "Não vendo nem por 1 milhão", respondeu o treinador brasileiro. Ainda agora nos treinos da seleção nos Estados Unidos Parreira era visto com freqüência empunhando sua Nikon F4 para fotografar jogadas que se desenhavam no campo. Também não faz justiça ao temperamento dócil e educado do treinador o epíteto de teimoso que lhe é atribuído nas mesas-redondas dos bares e da televisão em que se discute futebol. Como o ministro da Fazenda, o técnico da seleção sempre está errado para uma parcela da população. Em geral, para a maioria. Se fosse atender os descontentes, Parreira jamais teria conseguido armar um time, tantas eram as reclamações e tão disparatadas as soluções propostas. "Esta é minha quinta Copa do Mundo e fui a duas Olimpíadas. Não vai ser uma socialite, um comediante ou cantores de rock que vão dizer o que devo fazer. Não são eles que vão mudar minha cabeça", argumenta o técnico dono do caneco que o Brasil acaba de ganhar. Não que Carlos Alberto Parreira seja aquele tipo de homem envolvente que é capaz de convencer audiências de alguma coisa que elas não pensavam antes. Não, ele não é um tipo intelectual. Também não cativa pelo humor, ou pela ironia dos espirituosos. Outra coisa que não tem é a audácia dos grandes líderes e dos loucos. Mas, falando francamente, alguém acha que um técnico de futebol deveria ser um sujeito metido em filosofias ou jogos de espírito capazes de embatucar de espanto a turma dos Gaviões da Fiel ou a galera da Raça Rubro-Negra? Parreira, ao contrário, é metódico, cuidadoso. Precisa de treino consigo mesmo, até para dominar um esquema mental qualquer. Costuma preparar-se com antecedência para suas tarefas, seja um bate-bola da seleção, seja uma saída de casa com a família. Nesse último caso, pode entrar em transe histérico quando marca a hora com a mulher e as duas filhas e - como é natural - elas não estão prontas. "Ele não se atrasa. Nossas únicas brigas são por isso", diz a mulher, Leila, com quem está casado há 22 anos. "Nessas horas ele fica com a respiração forte, com um suspiro profundo." Na Copa, Parreira sentava-se à noite em seu quarto com uma prancheta repleta de anotações. Planejava o treinamento do dia seguinte. Nessas vigílias, ele organizou no papel quinze jogadas ensaiadas de cobrança de falta. Quando chegava ao campo de treino da Universidade de Santa Clara, sabia exatamente cada detalhe do lance que ia ensaiar. Antes de cada partida do Brasil, Parreira reunia seus jogadores e exibia para eles seus slides e os vídeos com as jogadas mais utilizadas e mais perigosas do adversário, previamente preparados por seus auxiliares "espiões", o ex-jogador Júnior e o funcionário da CBF Jairo dos Santos. "Sei que jogador não suporta assistir a um jogo inteiro na seleção", conta Parreira. "Por isso fazíamos os compactos." Com vídeos e anotações os jogadores acabavam executando em campo exatamente o que o treinador havia planejado para cada um. O pragmatismo de Parreira chegou a tal ponto que ele quase lamentou o gol marcado pela seleção logo no início do segundo tempo do primeiro jogo contra a Suécia. "Coloquei o Mazinho em campo para aumentar a pressão no ataque. Como o gol saiu logo, minha tática ficou prejudicada", explicou-se. Terminada a Copa, Parreira troca a seleção pelo Valencia, da Espanha, onde o aguarda um contrato para receber 100.000 dólares por mês, o equivalente ao que ele ganhava por ano da CBF. Tanto quanto o título, vale também como um reconhecimento ao vencedor mais contestado no mundo do futebol. Leia também: |
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