Hoje milionário e ídolo na Espanha,
Mauro Silva já foi dado como
acabado para o futebol

Julio Cesar de Barros

Mauro Silva revelou-se o homem de ferro da seleção. Regular como um relógio suíço, sempre esteve entre os melhores em campo. Atarracado como um touro, nunca sentiu faltar-lhe o gás nos últimos minutos da partida. Foi o campeão no desarme, deu passes e até bons chutes a gol - o que não é sua especialidade nem obrigação. Aos 26 anos, 1,78 metro de altura e 78 quilos, ele é um sucesso milionário. Em 1991, trocou o Bragantino, de São Paulo, pelo La Coruña da Espanha. Chegou ganhando 500.000 dólares por ano, mas em pouco tempo recebeu um aumento, passando a embolsar 150.000 dólares a mais. Seu contrato foi prorrogado até 1997 e, caso uma das partes queira rompê-lo antes do prazo, terá de arcar com uma bela multa de 20 milhões de dólares.

Mauro Silva só fez carreira no futebol porque é teimoso. Aos 18 anos, com apenas dez partidas como profissional no Guarani de Campinas, arrebentou o joelho esquerdo, foi para a sala de cirurgia e ficou dois meses no estaleiro. Em seguida, teve de fazer uma operação no púbis, onde sofrera uma pancada. Mais quatro meses parado. Considerado bichado, termo que na cruel linguagem do futebol define o jogador incapacitado para correr os noventa minutos, acabou sendo despachado, praticamente de graça, para o Bragantino. Convencido de que não havia mais nada a esperar daquele médio volante que não saía do hospital, o Guarani entregou Mauro Silva e outros seis jogadores em troca de Vitor Hugo, que, hoje em dia, ninguém sabe por onde anda. O drama não terminou. Na quarta partida pela nova equipe, foi o outro joelho que estourou. Com diploma de técnico em informática pela PUC de Campinas, parecia mais do que recomendável iniciar, na mesma hora, a transição para outra profissão. Mauro Silva preferiu insistir. "Ele é uma das pessoas mais determinadas que conheço", diz Jesus Chedid, presidente do Bragantino e prefeito da cidade.

No Bragantino, Mauro Silva chegou ao título de Campeão Paulista em 1990 e foi vice-campeão brasileiro em 1991 e só saiu do time para ganhar a Europa. O La Coruña, que é o Bragantino da Espanha, passou seus 90 anos na rabeira do campeonato de seu país e acabou vice-campeão neste ano, depois de liderar a disputa até a última rodada. Uma façanha para a qual ele e Bebeto, outro ídolo do clube, muito contribuíram. Na pequena cidade espanhola, Mauro Silva é reconhecido nas ruas e festejado por todos. Um verdadeiro herói, apontado como exemplo de dedicação e empenho.

A seriedade com que joga futebol e que agrada aos torcedores espanhóis e ao técnico Parreira é reflexo de seu comportamento social. "Ele é muito atento à partida e um homem de uma lealdade impressionante", derrete-se o técnico. "Ele é meticuloso e exigente", afirma a sogra, Yuki Jino, descendente de japoneses, mãe de sua mulher, Terumi, que o conhece desde criança. Filho de um eletricista, nascido no ABC paulista como caçula de três irmãos e simpatizante da seita Testemunhas de Jeová, Mauro Silva é um sujeito caseiro, não gosta de badalação e leva uma vida regrada. "O Mauro sempre foi muito estudioso. Era o primeiro da classe", diz dona Luzia, sua mãe. Discreto e metódico, usa um computador IBM-486 para administrar seus negócios e, enquanto outros jogadores usaram um dia de folga para divertir-se na Disneylândia, aproveitou para comprar um scanner de última geração para armazenar imagens digitalizadas em seu micro.

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