O zagueiro evangélico, que fala alemão,
escreveu um livro e ajuda a campanha da fome

Antenor Nascimento

Morando no exterior como a maioria dos craques da seleção, Jorge de Amorim Campos, o Jorginho, é de longe o que melhor se adaptou à vida fora do Brasil. Foi para a Alemanha em 1989, para um time modesto, o Bayer Leverkusen. Saiu dali, em 1992, para reforçar o meio-campo do poderoso Bayern de Munique. No Bayern, Jorginho transformou-se em ídolo do futebol alemão e hoje tem direito a uma renda anual de 1 milhão de dólares. Aprendeu a falar a língua do país e apresenta um domínio do idioma que surpreende. Auxiliado por um redator profissional, chegou a publicar um livro chamado Steilpass (Passe em Profundidade), no qual arrisca comparações filosóficas entre o futebol e a vida. O resultado não tem a beleza dos textos sobre futebol do prêmio Nobel argelino Albert Camus, que era infinitamente mais competente nas letras do que na bola, mas o interesse de Jorginho pelos assuntos de fora do gramado é sincero.

Foi sua a idéia de levar a campanha da fome do Betinho para a seleção, convencendo os colegas a entrar em campo com uma fita verde no pulso. Também lançou a proposta de os jogadores destinarem uma parcela do prêmio de 150.000 dólares a instituições de caridade. Para Jorginho, que fará 30 anos em agosto, casado, um filho e duas filhas, essa preocupação não é novidade. A casa em que mora, em Munique, é considerada modesta pela imprensa alemã, porque o craque doa parte de seu salário e prêmios para organismos assistenciais no Brasil. No porão, funciona uma entidade que ele fundou e dirige, a Comunidade Evangélica Brasileira de Munique, em que sessenta fiéis se reúnem para ler a Bíblia e conversar sobre o Brasil.

A religião é um traço tão marcante na personalidade de Jorginho como seu vai-e-vem pela lateral direita do campo. Até 1986, ele era um jogador durão e mesmo violento. Converteu-se à fé dos evangélicos depois que assistiu à cura de um irmão alcoólatra nos cultos religiosos. Tornou-se um jogador mais bem-comportado e, há dois anos, até foi eleito o mais disciplinado do mundo pela Fifa. Em campo, ele garante que, agora, tem um olho na bola e outro para Deus. "Como sou religioso, me cobram muito. Se entro duro, dizem que estou em pecado. Não acho. Se sou viril sem ser desleal, fico em paz com minha consciência e com Deus", explica.

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