Por que no futebol nenhum país nos supera?
As explicações podem ir da ginga dos
negros ao bom uso da ciência

Roberto Pompeu de Toledo

Por que diabos, entre todos os povos do mundo, de todos os continentes e ilhas, entre as civilizações avançadas e atrasadas, presentes e extintas, entre os 184 países representados na ONU e os 191 representados na Fifa, o Brasil, no futebol, é o melhor? Brasileiro é assim: cheio de dúvidas sobre si próprio. Por que diabos ainda não vencemos problemas tão comezinhos como a fome, a educação e a distribuição de renda? Inversamente: por que, apesar de ainda tão em falta conosco mesmos nestes itens cruciais, há um em que brilhamos tanto, como o futebol?

Acostumamo-nos, especialmente nos últimos anos, sob a pressão de flagelos como a inflação, a miséria, a dengue, a corrupção e a violência, a nos considerar um povo assoberbado de fracassos. Não na bola. Por quê? Por que somos tão ruins em outras coisas e tão bons dentro das quatro linhas do gramado, como dizem os cronistas esportivos? Ali somos os mais respeitados e os mais temidos. Ficamos 24 anos sem ganhar uma Copa do Mundo, mas não houve uma das cinco Copas realizadas de 1974 a 1990 em que não entrássemos como favoritos. Mesmo sem ganhar, ninguém nos roubou a mística. Por que somos tão bons?

Observe-se o cidadão de nome Romário de Souza Faria. Ele nasceu na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, numa época em que a fantasia de versos como Morro, eu conheço a tua história/ Um passado que é só glória (Billy Blanco) ou Quem nasce lá no morro/ Já vive pertinho do céu (Herivelto Martins) estava prestes a ser definitivamente desmoralizada pela brutalidade das guerras entre traficantes, não bastassem as privações habituais. Foi criado na Vila da Penha, um lugar só um pouco melhor. Tem 1,68 metro de altura, instrução rudimentar, a pele escura característica do "Homo brasilienses". Quer dizer: tudo conspirava contra. Ele nasceu no bairro errado, com a pele errada, do lado errado da contradição social. O fato de ter dado certo, ter virado campeão e milionário, é um fenômeno que nos remete de volta à pergunta: por que será que o Brasil, tão errado em outras coisas, acabou dando certo no futebol?

Um primeiro ensaio de resposta é: porque o futebol aqui, como poucas outras coisas, é levado a sério. Outra é: porque no futebol, como em poucas outras coisas, talvez nenhuma, mesmo aos despossuídos está aberta a possibilidade de ascender. Mas antes de chegar a essas considerações há uma questão prévia a examinar: por que o futebol caiu tão no gosto do brasileiro? Como foi que um esporte inventado longe, pelos louros ingleses - o esporte bretão, como se dizia a sério, e hoje se repete com ironia, fazendo uso de um sinônimo de "britânico" só encontrável nessa expressão -, foi-se aclimatar tão bem a estas tropicais paragens, melhor ainda talvez do que o café e sem dúvida muito melhor do que as leis, para citar dois outros artigos igualmente transplantados de fora?

O futebol é um jogo simples, e esse seria o primeiro motivo pelo qual ele teria caído tão no gosto dos brasileiros. "Os meios e os fins são claros, as regras são poucas e as condições do desempenho todos compreendem - o que deve ser feito e como deve ser feito", escreveu o sociólogo Arno Vogel (O Momento Feliz - Reflexões sobre o Futebol e o Ethos Nacional). As meninas, que ainda hoje se costuma manter à parte, enquanto os meninos jogam bola, podem, quando crescem e se interessam pela Copa do Mundo, ter dúvidas sobre a regra do impedimento, mas as demais elas aprendem depois de cinco minutos de jogo. Outra característica do futebol que facilitou sua aclimatação ao Brasil é que não exige um equipamento complexo para ser praticado. Um espaço para correr, uma bola, nem que seja de meia, e dois pauzinhos de cada lado para delimitar os gols, eis tudo o necessário. E outra característica ainda a seu favor é que não se trata de esporte que pressupõe uma compleição física avantajada. Para ter sucesso no basquete ou no vôlei é preciso ser grande e forte. No futebol pode-se ser pequeno e franzino.

Mais do que em qualquer outro terreno, o Brasil se espelha no futebol. Outros países podem-se ver espelhados na literatura que produzem, no cinema ou nas conquistas científicas e tecnológicas. O Brasil se espelha no futebol. Há um trânsito contínuo de expressões que surgem do futebol e invadem a vida, prova de que o futebol é uma metáfora em que os brasileiros se vêem, a si e às suas venturas e desventuras. "Vestir a camisa", "ter jogo de cintura", "jogar para a arquibancada", "suar a camisa" - as pessoas usam expressões como essas no seu dia-a-dia. Também há provérbios que, forjados no futebol, passaram a servir de regras de vida aos brasileiros: "Em time que ganha não se mexe", "Quem não faz gol toma". Outros países podem gostar tanto de futebol como o Brasil. Em nenhum a vida se confundirá com o futebol como no Brasil.

Se é assim é porque o futebol mais do que caiu no gosto - impregnou-se na vida dos brasileiros. Quem viaja pelo país pode sentir falta de boas estradas, mas nunca de um campo de futebol. Trata-se de um signo característico da paisagem brasileira, tão assíduo como as palmeiras nas praias do Nordeste. Na época do milagre econômico o Brasil da enfatuação fez reproduzirem-se os estádios para dezenas de milhares de pessoas, todos com nomes terminados em ão - o Pelezão, o Castelão, o Arrudão. O Brasil oficial pegava uma carona no Brasil real para dar vazão ao ataque de grandeza que então o vitimava, mas o resultado foi uma geração de monstros, como costumam ser as criaturas nascidas de delírios. O Brasil oficial entrava em campo de salto alto, na época, para usar outra expressão futebolística. Tinha vestido o escafandro. A máscara. Em comparação, a singeleza do campo de futebol que se entrevê pelos caminhos do Brasil afora - as brancas traves, o espaço entre elas, gramado ou não - parece tão comovente quanto a cruz que se vê nas curvas da estrada, sinal de que alguém um dia morreu ali.

Se é assim, se o futebol caiu tão no gosto dos brasileiros a ponto de lhes impregnar a vida e a paisagem, foi porque as regras são fáceis, o equipamento exigido é pouco e a compleição física do praticante pode ser modesta, mas isso não é tudo. Há, como conseqüência desses pilares, o fato de que o futebol é aberto a todas as classes sociais. Não é como o automobilismo, que para começar exige automóvel para ser praticado. Não é à toa que, no automobilismo, entre o farto elenco de pilotos já produzido pelo Brasil, não haja nenhum de pele escura. Nesse esporte, não se nasce como Romário. É nula a possibilidade de que Jacarezinho ou a Vila da Penha venham a fornecer algum ás para as pistas.

Nem sempre foi assim. Na verdade, o futebol nasceu elitista, tão elitista como a Fórmula 1 ou o tênis, trazido pelos ingleses que no Brasil exploravam as ferrovias ou as fábricas de tecidos e, nos fins de semana, o praticavam em clubes fechados. Os outros olhavam de fora, mas, como não precisavam mais do que uma bola para jogar o mesmo esporte, logo estavam reproduzindo, na rua, o que entreviam pelas frestas dos muros dos clubes. Temos aqui, como nota outro sociólogo, Gilson Gil (O Drama do "Futebol-Arte": O Debate sobre a Seleção nos Anos 70), um dualismo social simbólico: a rua e o clube. O mesmo autor acrescenta: "O clube seria um espaço para os brancos, que precisariam aprender a jogar. O mulato, o negro e o branco pobre vinham das ruas e não tinham instrutores, desenvolvendo suas habilidades naturalmente, sem grandes racionalizações ou sistematizações, confiando sempre na naturalidade e ingenuidade de seu talento".

Estamos entrando num terreno que desde sempre acompanhou as cogitações sobre futebol: o da influência de um certo "jeito de ser" negro ou mulato na conformação desse esporte, tal qual é praticado no Brasil. Gilberto Freyre, o grande apóstolo das virtudes da miscigenação brasileira, argumentou sem meias palavras que a composição racial é a principal responsável pelo estilo que o futebol acabou assumindo no Brasil. Freyre escreveu, em 1938, a propósito da atuação da seleção do Brasil na Copa do Mundo daquele ano, realizada na França:

"O nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades, de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de brilho e de espontaneidade individual (...). Os nossos passes, os nossos pitus, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, o alguma coisa de dança e de capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e às vezes adoça o jogo inventado pelos ingleses e por eles e por outros europeus jogado tão angulosamente, tudo isso parece exprimir de modo interessantíssimo para os psicólogos e os sociólogos o mulatismo flamboyant e, ao mesmo tempo, malandro que está hoje em tudo que é afirmação brasileira do Brasil. Acaba de se definir de maneira inconfundível um estilo brasileiro de futebol; e esse estilo é uma expressão a mais do nosso mulatismo ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas ou em músicas as técnicas européias ou americanas mais angulosas para o nosso gosto: sejam elas de jogo ou de arquitetura".

Ao expor a influência do "mulatismo" no jeito brasileiro de jogar futebol, Freyre desbravava um terreno que seria repetidas vezes percorrido. O cronista esportivo e ex-técnico da seleção João Saldanha atribuía a superioridade do jogador brasileiro às suas "origens africanas", segundo lembra o já citado Gilson Gil. O mesmo autor se refere ao psicólogo Mira y Lopez, que em 1966 andou trabalhando com os jogadores que iriam à Copa daquele ano, na Inglaterra. Segundo Mira y Lopez, os brasileiros seriam melhores do que os europeus porque "seus genes africanos estão mais vivos".

Já avançamos uma série de razões pelas quais o futebol tão bem se aclimatou ao Brasil. Enunciemos mais uma: no futebol, os brasileiros encontraram um brinquedo onde reproduzir sua história social. A finta, a ginga e a dissimulação tão bem desenvolvidas pelos praticantes nacionais desse esporte talvez não sejam tanto uma característica de raça como um recurso do oprimido. O escravo aprende a fintar, a gingar e a dissimular para escapar ao trabalho infame ou aos castigos. A memória da tensão escravo-senhor, ou oprimido-opressor, encontra no campo de futebol um lugar como poucos onde se manifestar por meio de um ritual simbólico.

Tão importante é o futebol para a cultura brasileira que não há setor que melhor exprima a gesta nacional. Temos heróis, como Leônidas da Silva, o primeiro grande negro a se consagrar perante os europeus - e aqui é preciso registrar que, como em todos os outros campos, no futebol também fomos inchando ou murchando conforme éramos reconhecidos ou não pelas potências de além-mar -, e temos vilões, como Bigode. Bigode, como se sabe, foi o lateral- esquerdo que por duas vezes deixou o uruguaio Ghiggia escapar, na final da Copa do Mundo de 1950. Na primeira, Ghiggia cruzou para Schiaffino, que fez o gol. Na segunda, Ghiggia chutou ele mesmo - outro gol. Resultado: 2 a 1 para o Uruguai. Mas isso não foi tudo, para manchar com a infâmia, para todo o sempre, o rosto de Bigode. Houve também o famoso tapa que el gran capitán do Uruguai, Obdulio Varela, a maior figura em campo, que mandava e desmandava, catimbava, provocava e exibia arrogantemente a camisa à torcida, a certa altura lhe aplicou em plena face. Bigode não reagiu. Ficou parado como estátua, acovardado como um verme, monumento à humilhação de um povo.

Ou não teria acontecido nada disso? Tão importante é o futebol no Brasil que tem uma história e, paralelamente, uma mitologia. Bigode levou mesmo o tal tapa de Obdulio Varela? Havia 200.000 pessoas no Maracanã, e no entanto até hoje não se sabe ao certo se o tapa fez parte do mundo real ou de uma fantasia engendrada como metáfora da perda do campeonato. Metade do estádio jurou na ocasião e os sobreviventes continuam jurando que viram o tapa. A outra metade jura que ele não existiu. Na mesma penumbra entre mito e verdade encontra-se a história de que Vicente Feola, o técnico vitorioso da seleção de 1958, cochilava durante os jogos, e muitas das histórias de Garrincha - as histórias primitivas, cândidas, infantis, que complementavam tão bem, na imaginação das pessoas, os dribles que Garrincha dava em campo.

Brasileiro pode não ter memória para sua própria História, mas para o futebol tem. Talvez mais gente seja capaz de dizer de cor a escalação do time de 1970 do que declinar os presidentes de Getúlio para cá. Talvez, mesmo, haja mais gente capaz de saber que o Brasil foi desclassificado da Copa de 1938 por causa de um pênalti cometido por Domingos da Guia em Piola do que quem foi o presidente deposto pela Revolução de 1930. O futebol é no Brasil um sistema cultural complexo, com heróis, vilões, mitos e uma história rica e viva. Os meninos aprendem desde criança a decorar escalações. Isso faz parte do acervo cultural tanto quanto faz parte da identidade de cada um torcer para um clube. Ser Flamengo, Corinthians, Grêmio ou Cruzeiro é tão importante para definir a personalidade quanto a profissão dos pais ou o local de nascimento.

O futebol é o espelho privilegiado escolhido pelos brasileiros para representarem-se, já se disse, e a seleção nacional é a síntese máxima dessa representação. Comece-se pelas fisionomias, quando está sendo tocado o Hino Nacional e os jogadores são apresentados, perfilados, pelas câmaras de TV: temos os negros, os mulatos, os cafuzos - até os brancos. Isso é o óbvio, alguém dirá, porque os brasileiros são assim. Não, não é o óbvio, porque em nenhum outro lugar eles se apresentam assim, juntos, em pé de igualdade e unidos pelo mesmo propósito. Vendo-se a seleção se perfilar nos campos dos Estados Unidos, conclui-se que o futebol aceitou o Brasil. Nele, o país é representado tal qual é. Mas isso não quer dizer que tenha sido sempre assim. Pelo contrário, tanto quanto a da sociedade em geral, a história do futebol está pontilhada de tensões raciais.

Volte-se a 1950. Bigode, o grande vilão, era negro. Barbosa, o goleiro que falhou no segundo gol, também era negro. Daí nasceu uma tese de que o que estragava o futebol brasileiro eram os negros. Na verdade, falou-se muito até aqui das virtudes que a "mulatice" trouxe ao futebol brasileiro, mas é preciso acrescentar que nem sempre ela foi aceita pacificamente. Gilberto Freyre, no texto já citado, começa por afirmar que a boa campanha do Brasil na Copa de 1938 se devia ao fato de o Brasil ter tido a "coragem" de pela primeira vez mandar à Europa "um time fortemente afro-brasileiro". Prosseguia Freyre:

"Porque a escolha de jogadores brasileiros para os encontros internacionais andou por algum tempo obedecendo ao mesmo critério do Barão do Rio Branco quando senhor todo-poderoso do Itamaraty: nada de pretos nem de mulatos chapados. Só brancos ou, então, mulatos tão claros que parecessem brancos ou, quando muito, caboclos deviam ser mandados ao estrangeiro".

Na Copa de 1958, a princípio tentou-se clarear ao máximo o time. No jogo de estréia, contra a áustria, de preto só havia um - Didi. O grande lateral-direito Djalma Santos ficou na reserva do mediano De Sordi, e ninguém, à luz de critérios futebolísticos, saberia dizer por que, embora todos desconfiassem - Djalma Santos era preto, De Sordi era branco. Só depois do fraco desempenho do time contra a Inglaterra, no segundo jogo, jogou-se às favas o critério racial. Garrincha entrou no lugar de Joel e Pelé no de Dida.

Voltemos à pergunta original: por que, entre todos os povos, somos os melhores na bola? Está aí um campo em que o Brasil conseguiu uma originalidade, em primeiro lugar. Conseguiu dar uma contribuição à cultura universal ao forjar um estilo próprio. E isso porque, já vimos, apesar das tensões, das marchas e contra-marchas, se trata de um domínio em que o Brasil abriu as porteiras ao Brasil. Deixou que o Brasil real, profundo, sem disfarces, o Brasil da favela do Jacarezinho, de Pau Grande (terra de Garrincha) ou dos bairros pobres de Três Corações (terra de Pelé), impusesse sua marca.

Há mais: como o futebol é coisa séria, culturalmente, e rentável, economicamente, o Brasil, neste caso, trata bem os brasileiros. Imagine-se o que é um jovem de 15 anos nascido na favela do Jacarezinho apresentando-se ao Vasco da Gama para fazer um teste. Imagine-se o que são seus dentes, imagine-se a barbaridade que pode revelar um exame de suas fezes, sem falar no pobre domínio que terá do português ou da matemática. Nada disso, no entanto, será motivo de discriminação. Se ele tem talento, o Vasco da Gama o acolherá e colocará a seu serviço uma boa estrutura de assistência médica, assim como lhe fornecerá meios de aperfeiçoar-se técnica e fisicamente e, com tudo isso, estará lhe proporcionando um quadro favorável à ascensão social. O futebol é um terreno onde não se obstruem oportunidades por falta de sorte no nascimento.

É errado acreditar que, no futebol, o Brasil tem a técnica, enquanto a Europa tem a ciência. Isso talvez tenha valido no passado, assim como hoje valerá para os africanos, que mostram crescentes progressos na técnica, mas a quem notoriamente ainda falta a ciência. É errado acreditar, no caso do Brasil, porque há muito se tem aqui tanta ciência, em futebol, quanto em qualquer país europeu, ou mais.

Por ciência entenda-se um conjunto de elementos que vai da preparação física dos jogadores ao bom estudo das táticas, passando pelo bom domínio da medicina esportiva e pela preocupação com o bem-estar psicológico. Houve tempo em que se dizia que a força estava do lado dos europeus. Ninguém corria e tinha resistência como eles. Nesta Copa, nenhuma equipe mostrou mais preparo físico do que a brasileira, e isso é algo que se vem repetindo ao longo das Copas.

E aqui chegamos a um ensaio de resposta à questão de por que os brasileiros seriam os melhores. Porque o futebol faz parte da nossa vida, e porque nele se aplica um sistema de justiça na distribuição de oportunidades como talvez em nenhum outro campo. Porque tanto o amamos e cultivamos que desenvolvemos nele um estilo próprio, e porque amparamos esse estilo com os recursos disponíveis na ciência. Eis um campo em que o Brasil soube combinar arte com tecnologia. Enfim, e isso não foi falado ainda, mas também configura um caso de excelência não encontrável em outros campos, no futebol o brasileiro equilibra magnificamente a tensão entre o individual e o coletivo. É notório que o craque brasileiro gosta da jogada pessoal. Se o abuso dessa característica se deu, em outras épocas, em detrimento do jogo coletivo, há muito operou-se no jogador brasileiro a revolução de mentalidade que o levou a jogar tanto "para o time", como se diz, quanto para si, ou talvez até mais para o time do que para si. O jogador da seleção, hoje em dia, por mais virtuosístico que seja, é menos egoísta no campo do que o brasileiro médio dirigindo seu carro no trânsito.

Resta a seguinte pergunta: se o futebol brasileiro reúne tantas características superiores, por que não ganhamos todas as Copas? A resposta é: porque o futebol precisa de tudo o que foi dito acima e mais um elemento, que é a sorte. Especialmente num campeonato como a Copa do Mundo, em que os jogos são eliminatórios e, às vezes, até terminam em disputa de pênaltis, o peso da sorte é decisivo. O Brasil já perdeu Copas com times melhores e mais bem treinados do que o atual. Desta vez, também a sorte esteve do nosso lado, ajudando a que se colocasse numa posição favorável o espelho do orgulho e da vergonha, do desconforto e da alegria de ser brasileiro que é o futebol.

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