Dunga, o volante execrado que batizou uma era
de futebol feio e ruim, é o capitão do tetra

André Petry

O menino nasceu com uma barriga enorme e as pernas tortas. "Este é o meu craque", festejou Edeuceu Verri, o pai coruja que chegou a centroavante num time de várzea no interior do Rio Grande do Sul. "Que craque nada, isso vai dar um anãozinho, um dunguinha", provocou o padrinho de batismo, Emidio Perondi, que se tornaria empresário do garoto nos gramados. Ambos tinham razão. O menino foi batizado Carlos Caetano Bledorn Verri, e virou Dunga. Cresceu até 1,77 metro de altura e, aos 30 anos, deu a virada mais espetacular da história do futebol brasileiro. Na derrota de 90, Dunga não alcançou Maradona na hora do gol matador e a seleção brasileira foi eliminada num vergonhoso nono lugar. O Brasil desabou com fúria sobre ele. Seu nome batizou uma era, a Era Dunga, sinônimo de futebol grosseiro, feio, defensivo e, pior que tudo, perdedor. Quatro anos depois, Dunga chegou à final com a braçadeira de capitão do time, cargo que, no passado, deu a Bellini (58), Mauro (62) e Carlos Alberto (70) o direito de levantar a taça.

O volante Dunga lavou a alma do Brasil e a sua própria. A Fifa elegeu-o o melhor do mundo na sua posição. De uma Copa para outra, seu futebol ficou igualzinho. Só mudaram os adjetivos. Deixou de ser truculento e retrancado para ser guerreiro e vigilante. "Foi um dos períodos mais difíceis da minha vida", afirma Dunga, que, antes da Copa de 90, teve seu passe avaliado em 10 milhões de dólares, mas, com o fracasso, acabou vendido por 2,5 milhões. O jogador não demonstra, mas tem uma enorme mágoa das críticas que recebe no Brasil. "Na Europa, me chamam de 'Destroyer'. No Brasil, a imprensa me destrói", diz. Na seleção do tetra, Dunga foi líder dentro e fora do campo. Dentro, falava o tempo todo, gritava com os companheiros, xingava e criticava, em especial quando o time estava ganhando "porque todos absorvem melhor as críticas". Fora do campo, era o vigário de Parreira, o jogador com quem o técnico mais falava. Dunga também dava conselhos a Romário, seu companheiro de quarto. "Não se exponha, baixinho", dizia ele, para que Romário baixasse a bola nas saídas da concentração. "Se a gente perder, vão dizer que você veio aqui passear."

Casado com a socióloga Vanda, pai de Gabriela, 7 anos, e Bruno, 5, Dunga nasceu na cidade gaúcha de Ijuí. Nunca deu bola para a escola. Sua mãe, dona Maria, foi sua professora de geografia. "Uma vez ele me disse que não precisava estudar, porque iria conhecer o mapa-múndi na prática", lembra ela. Disposto a jogar, falou para o seu primeiro treinador, num time amador de Ijuí: "Vou jogar no Inter, no Vasco e na seleção". Acertou. Aos 20 anos, assinou seu primeiro contrato profissional no Internacional de Porto Alegre, em 1983. Ganhava 1.000 dólares por mês. No ano seguinte, abandonou os estudos antes de completar o 2º grau e foi-se para o Corinthians. Em seguida, passou pelo Santos e Vasco até embarcar para a Itália, em 1987. Jogou em três times e ficou mais tempo no Fiorentina. Encantou-se com Florença e conheceu o que pôde do patrimônio da capital do Renascimento. No ano passado, foi vendido por 2,5 milhões de dólares pelo Stuttgart, da Alemanha, com um salário de 650.000 dólares por ano. Mas enturmou-se mesmo foi na Itália. Fala italiano, bebe vinho e até comprou metade de um clube na cidade de Modena, em terras do tenor Luciano Pavarotti. A prefeitura de Modena quer comprar o clube por 10 milhões de dólares para fazer um parque. O intermediário do negócio é o próprio Pavarotti, com quem Dunga trocou vários telefonemas durante a Copa.

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