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Carlos Maranhão Eles são pequenos e ela era gigantesca. Durante um mês, ao longo de oitenta horas de bola rolando em nove cidades do país que inventou o cinema de Hollywood, os espetáculos da televisão e os musicais da Broadway, e que com um século de atraso descobriu a magia do futebol, essa combinação tornou-se irresistível. Quem tomou conta da festa, com os gols que souberam marcar na hora certa, foram o brasileiro Romário, de 1,68 metro, e o italiano Roberto Baggio, de 1,74 metro. Solistas sem físico de superatletas, eles deram o brilho individual ao show de maior sucesso de público que já se viu na face da Terra - a 15ª Copa do Mundo. Pela TV, seus 52 jogos arrebataram uma audiência acumulada de 33 bilhões de telespectadores, da China aos confins da Amazônia. Ao vivo, os estádios ficaram cheios da primeira à última partida, recebendo 3,5 milhões de torcedores, virtualmente sua capacidade máxima disponível, ou 1 milhão a mais do que a Copa da Itália, que detinha o recorde. Na média, outro baile. Cada jogo teve 67.000 pagantes, contra 46.000 em 1986 e 48.000 em 1990. Dentro de campo, é verdade, não se jogou o melhor Mundial de todos os tempos, comparável aos de 1954, 1958, 1970 e 1974. Em 1954, quando a Hungria do fabuloso atacante Puskas perdeu o título para a Alemanha, registrou-se a estupenda média de 5,37 gols por partida. Certamente nunca mais será repetida. Em 1958, havia a fantástica seleção brasileira de Pelé, Garrincha e Didi, única que conquistou o título fora de seu continente. Doze anos depois, o Brasil, ainda com Pelé, voltaria a deslumbrar o planeta com uma campanha, jamais igualada, em que ganhou todas as suas partidas - três delas de goleada, incluindo a final com a Itália. Em 1974, enfim, surgiu o revolucionário futebol-total da Holanda de Cruyff, batido na decisão pela poderosa Alemanha de Beckenbauer. Desta vez, nem apareceu um timaço capaz de marcar época nem despontou um craque absolutamente fora de série que sirva no futuro como ponto de referência. Romário e Baggio são grandes goleadores. Mas não são Pelé. Nem Maradona. Em compensação, jogadores como eles - e coadjuvantes de porte ligeiramente mais avantajado, casos do búlgaro Stoichkov e do sueco Brolin, ambos de 1,77 metro -, além do romeno Hagi, de 1,72 metro, ofereceram o que se espera de uma Copa: espetáculo. Esse ingrediente esteve ausente do Mundial anterior. Uma das evidências pode ser comprovada no número de gols. Antes da final de domingo, foram marcados 137, numa média de 2,74 por partida. É uma estatística que merece comemoração. Desde a Copa de 1974, quando o futebol se tornou mais defensivo e os times passaram a usar quatro homens no meio-campo, essa média só fica ligeiramente abaixo da de 1982 (2,8). Perde, é claro, para qualquer uma dos anos 50. Mas o futebol era jogado de outra forma. Tem mais. Na Itália, quatro jogos terminaram em 0 a 0, resultado que nove vezes em dez espelha um jogo enfadonho. Nos Estados Unidos, apenas dois encontros não tiveram gols. Em termos de futebol ofensivo, esta Copa ganhou da de 1990 por qualquer ângulo que se olhe. O futebol melhorou por várias razões. Uma, porque os juízes, que como de hábito falharam no varejo, acertaram no atacado ao castigar o jogo desleal. Eles expulsaram quinze jogadores, mais do que em qualquer Copa, salvo a de 1990. Não que tenha sido a mais violenta. Ao contrário, a quantidade de faltas diminuiu, caindo de 36 para 26 por partida. Os árbitros é que foram mais rigorosos. Por determinação da Fifa, puniram com expulsão as faltas que antes valiam uma advertência. Distribuíram 229 cartões amarelos, contra 163 em 1990 e 135 em 1986. "A Copa fez com que os americanos associassem o futebol a um esporte limpo, sem violência e capaz de despertar bons sentimentos na platéia", diz Joseph Blatter, secretário-geral da Fifa. O assassinato do zagueiro Andres Escobar, o doping de Maradona e a cotovelada de Leonardo que trincou a cabeça do americano Tab Ramos não desmentem essa avaliação. Embora tristes, foram episódios isolados. Escobar morreu numa execução estúpida em um país violento, onde, apesar de tudo, o futebol é um fator de união nacional. Na errática trajetória de Maradona, tomar efedrina para se estimular antes de um jogo não chegou a ser uma surpresa e, de qualquer modo, foi uma decisão pessoal dele, não da seleção argentina. Já a explosão de Leonardo, condenável, esgota-se nos limites da investigação dos motivos psicológicos do seu gesto. Nada a ver, portanto, com a brutalidade intrínseca do futebol americano, do boxe ou do hóquei sobre o gelo - nesse esporte, o quarto mais popular nos Estados Unidos, usa-se o taco para bater na cabeça do adversário e arrancar-lhe alguns dentes. Outra explicação para o êxito da Copa pode ser buscada na dramaticidade que marcou várias partidas. Algumas delas devem ficar na memória do torcedor, como Romênia e Argentina, Alemanha e Bélgica e Brasil e Holanda, todas com o marcador de 3 a 2. Ou a eletrizante vitória da Itália sobre a Nigéria por 2 a 1, na tarde em que Baggio, que vinha parecendo um sapo encantado, precisou de quinze minutos para se transformar em príncipe da Copa. Nesse jogo, a Itália estava perdendo quando ficou reduzida a dez jogadores pela expulsão do atacante Zola. Situações idênticas foram vividas pelo Brasil contra os Estados Unidos e pela Bulgária contra a Argentina. Nos dois jogos, dez ganharam de onze. Como foi possível? Com a superação. "Cada um de nós se empenhou ainda mais e deu o máximo que podia", diz o atacante Bebeto. Mais um motivo do sucesso deste Mundial: salvo pouquíssimas exceções, seleções de terceira categoria já não entram na Copa. Não, o futebol não se nivelou por baixo, como deu a impressão há quatro anos. Ele se nivelou na sua faixa média. É um fenômeno que se deve sobretudo à crescente internacionalização dos jogadores. O poderio econômico dos milionários clubes europeus atraiu para lá os principais craques do mundo. Pequeno levantamento: dos 528 jogadores inscritos na Copa, 353 - ou seja, 67% - estão na Europa. Na Itália, jogam 46. Na Espanha, 45. Um time inteiro do Barcelona disputou o Mundial: oito pela Espanha, um pelo Brasil, um pela Holanda e um pela Bulgária. Com Romário e Stoichkov à frente, os craques do Barcelona marcaram até a semifinal dezesseis gols, 11% do total. No dia-a-dia, os países exportadores saem perdendo. Simplesmente ficam privados de seus astros. Eles voltam, porém, quando chega a Copa. E voltam experientes, amadurecidos, ricos, famosos, bilíngües (é estranhíssimo, mas quatro jogadores da Bulgária falam fluentemente português, com sotaque lusitano). Nesse nível de futebol, todos os profissionais se conhecem. Não era assim. Em 1974, às vésperas de enfrentar a Holanda, o técnico Zagalo afirmou que não a temia porque ela era ruim de ataque. Os holandeses ganharam por 2 a 0 e a declaração ficou imortalizada em um filme do Canal 100. A internacionalização
dos craques foi um fator determinante para que a maioria das seleções
jogasse um bom futebol na Copa. Pelo que apresentaram, elas podem ser
divididas em seis grupos. Fora do campo, as torcidas fizeram o espetáculo. Algumas foram maravilhosas no seu entusiasmo, a começar pela brasileira. Ricos, os alemães levaram 25.000 aficionados aos Estados Unidos, a maioria hospedando-se em hotéis de cinco estrelas. Nos jogos, davam a impressão de vaiar o time. Mas o grito que ecoava (um prolongado Ruuuuud) era uma ovação que se repetia cada vez que o veterano ídolo Rudolf Voller, 34 anos, pegava na bola. A cena mais triste ocorreu em Dallas, onde os argentinos desfraldavam melancólicas faixas com a frase "Gracias, Diego", em lamento ao último tango de Maradona. Na calçada junto ao hotel da seleção, dezenas de crianças que vestiam a camisa azul e branca número 10 de seu herói choravam ao lado dos pais. Em contraste, os 5.000 noruegueses, entre eles centenas de loiras deslumbrantes com sininhos pendurados no pescoço, como vaquinhas montanhesas, encheram de alegria os bares de Washington depois que seu time ganhou do México. Mas foi a diversidade étnica dos Estados Unidos, um país em que há espaço para tudo, a maior responsável pelos estádios lotados. Americanos ou residentes compraram sete de cada dez ingressos vendidos. Numa nação com 4 milhões de imigrantes mexicanos, 14 milhões de ítalo-americanos e 39 milhões de descendentes de irlandeses, gritou-se em quinze línguas nas arquibancadas. Em Chicago, foi difícil comer no dia em que a Grécia enfrentou a Bulgária. Os gregos, donos da maioria dos restaurantes da cidade, invadiram o estádio Soldier Field e, conformados com a derrota por 4 a 0, aplaudiram orgulhosamente seus jogadores. Na estréia da Itália, em Nova York, dava-se como certo que os italianos tomariam conta do Giants Stadium. Foram minoria. A seleção da Irlanda comoveu-se ao se ver cercada por 40.000 patrícios vestidos de verde. Agradeceu ganhando por 1 a 0. Para quem não acreditava que a bola redonda poderia emplacar na terra da bola quadrada, o entusiasmo da torcida e o interesse dos americanos foram a maior surpresa da Copa. Numa prova numérica do êxito do Mundial, 20 milhões de pessoas viram a festa de abertura e 50 milhões, nos momentos de pico, assistiram à derrota de sua seleção para o Brasil. "Se medirmos essa audiência pelo PIB per capita, pode-se dizer que o futebol acaba de atingir seu mais atraente mercado", afirmou a VEJA o presidente do comitê organizador da Copa, Alan Rothenberg. É cedo para prever se esse sucesso vai repetir-se nas Copas de 1998, marcada para a França, de 2002, provavelmente no Japão, ou de 2006, que a Alemanha pretende organizar. Bem mais seguro é apostar que a de 2010, dentro de dezesseis anos, poderá ser ainda mais grandiosa. Os Estados Unidos estão começando a pensar que será um bom negócio promovê-la outra vez. Leia também: |
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