O Brasil encontra a fórmula do sucesso
ao escalar o método e a disciplina para
suprir a ausência de brilho na seleção

Eurípedes Alcântara

O futebol acaba de revelar uma imagem surpreendente do país. O Brasil tetracampeão do mundo é disciplinado, metódico, obediente, organizado, solidário e bem preparado - um país muito diferente daquela terra do jeitinho e da improvisação. Esse time regular, num país que já apresentou ao mundo gênios da bola como Pelé e Garrincha, desta vez é um campeão sem heróis. Sua única exceção, Romário, não seria escalada na seleção de 1970, que tinha craques bem maiores que ele para a mesma região do gramado. O Brasil tetracampeão do mundo reuniu um grupo de jogadores que não são poetas da bola. Mas eles saíram dos Estados Unidos como os donos da bola - até 1998.

Em números, é flagrante a superioridade brasileira sobre as outras 23 equipes que foram à Copa dos Estados Unidos. Até a véspera do jogo contra a Itália, a seleção de Romário e Bebeto havia marcado onze gols. É o melhor saldo da competição. O único time que conseguiu igualar-se ao Brasil, também com onze gols, foi a Suécia. Mesmo a Itália, com sua heróica tradição, com Roberto Baggio e tudo, marcou três gols a menos que o Brasil até a véspera da final. Na média, ainda na contagem anterior ao jogo de domingo, cada time estufou as redes adversárias 5,7 vezes, contra as onze cravadas brasileiras.

Na defesa, a aritmética reforça a superioridade brasileira. Nenhum cinturão de segurança armado em volta do gol foi tão eficiente. Com os jogadores defensivos que tinha para protegê-lo, Taffarel tomou apenas três gols em seis partidas antes do domingo. Há um único goleiro menos vazado, Erik Thorstvedt, da Noruega, que levou um único gol. Detalhe: o escrete norueguês só jogou três partidas e foi desclassificado. Dos onze jogadores da seleção da Copa, escolhida pela Fifa antes mesmo da final contra a Itália, quatro são brasileiros: Jorginho, Márcio Santos, Dunga e Romário.

A conclusão óbvia, inescapável, é que o Brasil esteve muito bem na Copa do ponto de vista de um observador objetivo. Mas não há objetividade em quem está na arquibancada ou em frente da televisão. O brasileiro raras vezes passou momentos tão angustiantes em partidas de futebol como os noventa minutos do jogo contra a Suécia na fase semifinal. No jogo contra os Estados Unidos (repita-se: os Estados Unidos!), o torcedor, os jogadores, a equipe técnica, todo mundo, mas todo mundo mesmo, torcia para aquilo acabar logo, selando-se o placar com uma vitória pífia de 1 a 0.

"Vai ser a primeira vez que uma equipe terá de explicar uma vitória. Em geral, só as derrotas requerem explicação", dizia Arrigo Sacchi, treinador da seleção da Itália, referindo-se ao time de Parreira na partida em que suou os miolos para derrotar os Estados Unidos pelo placar mínimo. "Os brasileiros comemoraram o resultado, mas não podem ter gostado do jogo." Agora que a Itália é passado, o comentário de Sacchi merece uma reflexão serena. O Brasil, recebido como "o time dos sonhos" pela imprensa americana, jogou um futebol que em muitos instantes deu sono. Alguns momentos do empate do Brasil contra a Suécia na primeira fase da Copa foram espantosamente monótonos. No jogo contra a Holanda, o time de Parreira perdeu inexplicavelmente o gás depois de comandar a orquestra e enfiar dois gols. Os canarinhos do Brasil ficaram zonzos e rodaram em campo como bonecos de corda. Mesmo nos jogos contra Camarões e Rússia notava-se uma ruptura brutal com a escola de magia e envolvimento que sempre caracterizou o melhor futebol no Brasil. Isso não significa que o Brasil ganhou sem merecer. Mereceu. A seleção foi mesmo a melhor. O time de Parreira fez mais gols e tomou menos. Será sensato discutir com essa prova dos números? Também seria injustiça exigir que a equipe de Parreira vencesse as Copas do passado. Mais enfadonho do que as chamadas "seleções de todos os tempos", que alinham jogadores atuais com fantasmas de épocas de ouro, compondo um time de mortos e vivos sem nenhum significado, é tentar adivinhar quem venceria a partida entre a seleção de Parreira e o time tricampeão do mundo em 1970. A comparação entre as duas equipes, no entanto, conduz a uma conclusão: o futebol moderno é um esporte mais fácil de ser jogado e menos emocionante de ser assistido do que o clássico.

Fácil porque onze surfistas e roqueiros americanos podem enfurnar-se durante cinco anos num regime de treinos diários com ginástica de pára-quedista e jogar de igual para igual com o Brasil, como aconteceu em Stanford nesta Copa. O futebol ficou mais monótono? Imagine o que se poderia dizer de um jogo modorrento como aquele em que o Brasil derrotou a Suécia por 1 a 0 se a vitória não valesse a classificação para a final da Copa do Mundo de 1994. A grande lição da vitória brasileira nos Estados Unidos é que o futebol mudou.

Numa época em que os esquemas táticos prevalecem sobre o brilho individual dos jogadores e as bolas são disputadas centímetro a centímetro, a defesa ficou mais importante que o ataque. Nessa nova ordem mundial do futebol, o resultado interessa acima de tudo, qualquer que seja a impressão que o time passe às arquibancadas. A seleção brasileira desta Copa foi a primeira na história do futebol brasileiro a não ter vergonha de se submeter a um esquema tático cuidadoso, sem cair na tentação do espetáculo. "Futebol é manter o controle da bola para buscar o gol. Só o Brasil fez isso", escreveu num artigo o holandês Johan Cruyff, técnico do Barcelona, da Espanha. "É certo que poderia jogar mais ofensivamente, mais bonito, mas há momentos em que as exibições custam."

Desde 1970, excetuando-se a idade das trevas em que a seleção foi dirigida por Sebastião Lazaroni, o que se buscou foi um time de Romários. Para vencer a Copa dos Estados Unidos com um Romário apenas, a seleção de Parreira teve de vender a alma ao futebol moderno. O time do Brasil, na impossibilidade de escalar onze Romários, foi lentamente construído por Parreira à base de forte preparo físico, jogadas ensaiadas e submissão a um regime tático férreo. "Vencemos jogando como todos os outros grandes times do mundo", diz Parreira. "O Brasil foi a seleção mais organizada da Copa do Mundo."

Antes de ser organizada, a seleção brasileira fez voto de obediência ao técnico. Na primeira partida em que decidiu tirar Raí, contra os Estados Unidos, Parreira foi ao quarto do jogador avisá-lo da mudança. Raí não gostou, reclamou com seus ex-companheiros do São Paulo, mas fechou-se em copas. Na segunda vez em que ficou no banco, contra a Holanda, Raí nem sequer foi avisado da mudança em particular. Parreira anunciou a equipe e ponto final. Saiu um titular e entrou um reserva sem muita dor pública. Até Romário, o mais falastrão da equipe, reconhecia o direito de Parreira cuidar da equipe a seu modo. "Preferia três atacantes, mas o Parreira sabe o que faz", comentou o jogador.

O estilo de Parreira teve como paradigma o futebol sem agressividade de Zinho, apelidado de "enceradeira" por causa de seus irritantes rodopios com a bola no meio-de-campo. Parreira, com o apoio de Zagalo, tinha plena convicção de que Zinho não vinha jogando bem, mas o tinha como peça importante na manutenção da posse de bola. Os torcedores se angustiavam ao ver Zinho girando com a bola nos pés, sem ir para lugar nenhum. Parreira achava que isso tinha sua vantagem.

O time do Brasil também foi regular na sua escalação. Continuou praticamente o mesmo nos sete jogos da Copa. Contra Camarões e depois contra a Suécia, Parreira tirou Raí da equipe e colocou o insosso Paulo Sérgio argumentando assim: "Coloquei o Paulo Sérgio para fazer a mesma função do Raí porque não queria mudar nosso jogo". Ou seja: Parreira substituía para deixar tudo da mesma forma. Márcio Santos só entrou na equipe porque o titular Ricardo Gomes se contundiu. Branco, autor do gol da vitória sobre a Holanda, virou titular porque Leonardo foi expulso ao agredir Tab Ramos com uma cotovelada, no jogo contra os Estados Unidos. Regularidade, previdência, juízo, nenhuma improvisação, retranca. Pode dar nos nervos naqueles momentos em que uma substituição parece obrigatória. O Brasil venceu assim, dando nos nervos de todos os 150 milhões de técnicos.

No campo, o time do tetra é mais fraco que as seleções que trouxeram para o Brasil os três títulos anteriores. Quando o assunto é dinheiro, a história muda. O grupo que entrava em campo de mãos dadas formava uma corrente milionária, com salários de mais de 8 milhões de dólares por ano, no conjunto. Romário, sozinho, ganha mais dinheiro do que recebiam juntos todos os jogadores da seleção de 1958. Romário (1 milhão de dólares por ano no Barcelona, da Espanha) é um craque, mas em 1958 jogavam estrelas como Vavá, Djalma Santos, Didi, Garrincha e Pelé, para citar apenas meio time. Não há comparação entre o futebol do lateral-direito de 1994, Jorginho, e a técnica refinada do lateral-esquerdo de 1958 e 1962, Nilton Santos. Jorginho tem um salário de 1 milhão de dólares por ano no Bayern de Munique. Nilton Santos, que ganhava bem para um jogador de sua época, vive hoje de dar aulas de futebol para crianças numa escolinha em Brasília.

É pouco provável que existam no Brasil muitos salários superiores aos dos jogadores da seleção, principalmente do grupo que trabalha na Europa. O zagueiro Aldair ganha 600.000 dólares por ano no Roma, da Itália, quase três vezes a renda de um presidente de empresa de médio porte no Brasil. Raí recebe 1,5 milhão de dólares por ano no Paris Saint-Germain, no qual é reserva. Mauro Silva e Bebeto (650.000 dólares por ano) ganham quase dez vezes mais que um ministro do Supremo Tribunal Federal e catorze vezes mais que o presidente Itamar Franco.

Hoje, além de milionários, os jogadores de futebol são superatletas capazes de proezas físicas que os craques do passado achariam de inspiração circense. Com todos os 22 jogadores correndo muito e o tempo todo do jogo, a bola fica sempre espremida entre um cipoal de pernas. Criar jogadas fica por conta de gênios como Romário, que, não tendo mais espaço, trabalham dois tempos mais rápido do que os zagueiros. Que até 1998 surjam muitos outros Romários.

Leia também:
A mais longa das decisões
Romário: A raposa em pele de porco-espinho
Mauro Silva: A vitória de um homem de aço
Bebeto: O mauricinho da seleção
Dunga: O grosso com muita classe
Jorginho: Com a bola e a bíblia
Aldair: O zagueiro quieto
Copa 94: O maior espetáculo da Terra
História: O país que se virou em quatro
Parreira: Um campeão sob medida
Zagalo: O apóstolo da sorte
Ensaio: Ninguém é bom como o Brasil